Uívo
para Carl Solomon - parte 1
de
Uívo, Kadish e outros poemas
L&PM editores, 1999.
Eu vi
os expoentes da minha geração de struídos
pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,arrastando-se
pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma
dose violenta de qualquer coisa
"hipsters"
com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial
com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,que
pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando
sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis
apartamentos sem água quente, flutuando sobre os
tetos das cidade s contemplando jazz,
que
de snudaram seus Cérebros ao céu sob o Elevados
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos,
que
passaram por universidade s com olhos frios e radiantes
alucinando Arkansas e tragédias à luz de William
Blake entre os estudiosos da guerra,
que
foram expulsos das universidade s por serem loucos &
publicarem ode s obscenas nas janelas do crânio,
que
se refugiaram em quartos de parede s de pintura de scascada
em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas de papel,
escutando o Terror através da parede ,
que
foram de tidos em suas barbas púbicas voltando por
Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York,
que
comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina
em Paradise Alley, morrerram ou flagelaram seus torsos noite
apôs noite
com
sonhos, com drogas, com pesade los na vigília, álcool
e caralhos e intermináveis orgias,
imcomparáveis
ruas cegas sem saida de nuvem trêmula e clarão
na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá
& Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel
do Tempo intermediário,
solide
z de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com
verde s árvores de cemitério, porre de vinho
nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz
cintilante de néon, do trafego na corrida de cabeça
feita de prazer, vibrações de sol e lua e
árvore no ronco de crepúsculo de inverno de
Brooklyn, de clamações entre latas de lixo
e suave soberana luz da mente.
que
se acorrentaram aos vagões do metrô para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de
benzedrina até que o barulho das rodas e crianças
os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada
e o de spovoado de serto do cérebro esvaziado de
qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,
que
afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford's, voltaram
à tona e passaram a tarde de cerveja choca no de
solado Fuggazi's escutando o matraquear da catástrofe
na vitrola automática de hidrogênio,
que
falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê
ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,batalhão
perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis
das escadas de emergência dos parapeitos das janelas
do Empire State da Lua,
tagarelando,
berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças
e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões
e guerras,
intelectos
inteiros regurgitados em recordação total
com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para
a sinagoga jogada na rua,
que
desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando
um rastro de cartões postais ambíguos do Centro
Cívico de Atlantic City,
sofrendo
suores orientais, pulverizações tangerianas
nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga
no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que
deram voltas e voltas à meia-noite no pátio
da estação ferroviária perguntando-se
onde ir e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões
de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente
pela neve até solitárias fazendas dentro da
noite do avô,
que
estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz,telepatia
e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus
pés em Kansas,
que
passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos
índios e visionários, que só acharam
que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase
sobrenatural,
que
pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso
da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à
meia-noite,
que
vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz
ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar
sobre América e Eternidade,inútil tarefa,
e assim embarcaram num navio para a África,
que
desapareceram nos vulcões do México nada deixando
além da sombra das suas calças rancheiras
e a lava e a cinza da poesia espalhadas na lareira Chicago,
que
reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba
e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas
peles morenas,distribuindo folhetos ininteligíveis,
que
apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando
contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que
distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square,
chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos
os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela
Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island,
que
caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trêmulos diante da maquinaria de
outros esqueletos,
que
morderam policiais no pescoço e berraram de prazer
nos carros de presos por não terem cometido outro
crime a não ser sua transação pederástica
e tóxica,
que
uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que
se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados
e urraram de prazer,
que
enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos,
os marinheiros, carícias de amor atlântico
e caribeano,
que
transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais,
na grama de jardins públicos e cemitérios,
espalhando livremente seu sêmem para quem quisesse
vir,
que
soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas
acabaram choramingando atrás de um tabique de banho
turco onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com
sua espada,
que
perderam seus garotos amados para as três megeras
do destino, a megera caolha do dólar heterossexual,
a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera
caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda
retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão,
que
copularam em êxtase insaciável com uma garrafa
de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma
vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho
e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede
com uma visão da buceta final e acabaram sufocando
um derradeiro lampejo de consciência,
que
adoçaram as trepadas de um milhão de garotas
trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos
no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas
na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que
foram transar em Colorado numa miríade de crros roubados
à noite, N.C. herói secreto destes poemas,
garanhão e Adónis de Denver - prazer ao lembrar
de suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos
baldios& pátios dos fundos de restaurantes de
beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas
de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas
garçonetes no familiar levantar de saia solitário
à beira de estra & especialmente secretos solipsismos
de mictórios de postos de gasolina & becos da
cidadde natal também,
que
se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados
em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram
voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o
horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam
até as agências de desemprego,
que
caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue
pelo cais coberto por montões de neve, esperando
que se abrisse uma porta no Bast River dando num quarto
cheio de vapor e ópio,
que
criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos
do Hudson à luz de holofote anti-aéreo da
lua & suas cabeças receberão coroas de
louro no esquecimento,
que
comeram o ensopado de cordeiro da imaginação
ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,
que
choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de
mão cheios de cebola e péssima música,
que
ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão
sob a ponte e ergueram-se para construir clavicêmbalos
nos seus sótãos,
que
tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob
um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja
da teologia,
que
rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações
sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos
de tagarelice sem sentido,
que
cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração
pé rabo borsht & tortillas sonhando com o puro
reino vegetal,
que
se atiraram sob caminhões de carne em busca de um
ovo,
que
jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance
de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores
caíram nas suas cabeças por todos os dias
da década seguinte,
que
cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes
seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de
antigüidades onde acharam que estavam ficando velhos
e choraram,
que
foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanela
em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo
& o contido estrondo dos batalhões de ferro da
moda & os guinchos de nitroglicerina das bichas da propaganda
& o gás mostarda de sinistros editores inteligentes
ou foram atropelados pelos táxis bêbados da
Realidade Absoluta,
que
se jogaram da Ponte de Brooklyn, isto realmente aconteceu
e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral
confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros
de Chinatown, nem mesmo uma cerveja de graça,
que
cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se pela janela
do metrô, saltaram no imundo rio Passaic, pularam
nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram
sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando
nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30 na
Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete
sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro
de colossais apitos a vapor,
que
mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão
da vigília de cadeia do Golgota de carro envenenado
de cada um ou então a encarnação do
Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e
duas horas para saber se eu tinha tido uma visão
ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha
tido uma visão para descobrir a Eternidade,
que
viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram
a Denver & esperaram em vão, que espreitaram
Denver & ficaram parados pensando & solitários
em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo &
agora Denver está saudosa dos seus heróis,
que
caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando por sua salvação e luz e peito até
que a alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que
se arrebentaram nas suas mentes na prisão aguardando
impossíveis criminosos de cabeça dourada e
o encanto da realidade nos seus corações que
entoavam suaves blues de Alcatraz,
que
se recolheram ao México para cultivar um vício
ou as Montanhas Rochosas para o suave Buda ou Tanger para
os garotos ou Pacifico Sul para a locomotiva negra ou Harvard
para Narciso para o cemitério de Woodlawn para a
coroa de flores para o túmulo,
que
exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio
de hipnotismo & foram deixados com sua loucura &
suas mãos & um júri suspeito,
que
jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade
de Nova York sobre Dadaísmo e em seguida se apresentaram
nos degraus de granito do manicômio com cabeças
raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo
lobotomia imediata,
e que
em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrasol
choque elétrico hidroterapia psicoterapia terapia
ocupacional pingue-pongue & amnésia,
que
num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica
de pingue-pongue,56 mergulhando logo a seguir na catatonia,
voltando
anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue
e lágrimas e dedos para a visível condenação
de louco nas celas das cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim
State, Rockland, Greystone, seus corredores fétidos,
brigando com os ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando
no banco de solidão à meia-noite dos domínios
de mausoléu druídico do amor, o sonho da vida
um pesadelo, corpos transformados em pedras tão pesadas
quanto a lua,
com
a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico
atirado pela janela do cortiço e a última
porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em resposta e o último
quarto mobiliado esvaziado até a última peça
de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida
num cabide de arame do armário e até mesmo
isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso
de alucinação -
Ah,
Carl, enquanto você não estiver a salvo eu
não estarei a salvo e agora você está
inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo -
e que
por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito
clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo
do metro & do plano vibratório,
que
sonharam e abriram brechas encamadas no Tempo & Espaço
através de imagens justapostas e capturaram o arranjo
da alma entre 2 imagens visuais e reuniram os verbos elementares
e juntaram o substantivo e o choque de consciência
saltando numa sensação de Pater Omnipotens
Aeterne Deus,
para
recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram
parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos
de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se
ao ritmo do pensamento na sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo
louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo
assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo
após a morte,
e se
reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica
do jazz no espectro de trompa dourada da banda musical e
fizeram soar o sofrimento da mente nua da América
pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani
que fez com que as cidades tremessem até seu último
rádio,
com
o coração absoluto do poema da vida arrancado
para fora dos seus corpos bom para comer por mais mil anos.
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