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de
Geração Beat - Antologia
Org. por Seymour Krim
Editora Brasiliense, 1968.
Em Greenwich
Village, um jovem mendigo de aparência sonolenta, vestido
com um temo de verão surrado e imundo que havia passado
pela universidade, e uma camisa de colarinho alto com os
dois botões faltando, aproxima-se de um casal bem vestido
e lhe pede: "Me dá um dinheiro para um Cadilac?".
Em Nova Orleans, uma bela manequim de uma loja de artigos
femininos aborda um homem numa festa, tira o suéter, depois
o soutien e diz para ele: "Vamos nos divertir,
tá?" - expressão essa que significa para
ela: Que tal a gente ouvir esse novo disco legal no toca-disco,
hein?. Se o homem arrisca tocar em alguma outra coisa além
do braço do aparelho, a jovem lhe dirá: "Você é
um selvagem, um homem sem modos. Só mesmo lhe podando".
O que significa que ele não constará mais nas futuras listas
de convidados. Em Denver, um bando de rapazes, sem saberem
o que fazer numa noite quente de primavera, resolvem roubar
um carro cada um deles; dirigem-se então para a outra extremidade
da cidade onde estacionam os carros roubados; roubam em
seguida outros carros e colocam-nos no lugar dos primeiros.
Feito isso, acomodam-se em um local próximo e assistem com
um sorriso de satisfação à enorme confusão criada entre
os donos dos carros roubados e a polícia. Silêncio. Nova
onda de tédio. Finalmente um deles diz, com a voz da preguiça:
"Ei, por que não nos lembramos de pegar umas gurias?"
Em St. Louis, uma moça e seu namorado, que tocava anteriormente
bateria em um conjunto de jazz, começam a ter problemas
de dinheiro com a vida desocupada que levam. Após algumas
tentativas do rapaz em prostituir sua companheira, resolvem
recorrer a um velho conhecido, pedindo-lhe casa e comida
por alguns dias. O que lhes é concedido. Enquanto o dono
da casa estava no trabalho os dois telefonam para um amigo
em São Francisco, contam o ocorrido e sugerem, após terem
conversado algum tempo, que o conhecido de São Francisco
deixe o telefone fora do gancho, prendendo assim a ligação
interurbana. Como o dono da casa só receberia a conta no
fim do mês, não haveria perigo para eles. Ao serem interrogados
por que haviam feito isso, responderam: "Porque
ele é tão quadrado, meu Deus, tão quadrado!" Em
Detroit, um engenheiro eletrônico interessa-se pelas dificuldades
por que passa um jovem casal de estudantes. Sim, é amor
verdadeiro o que sentem um pelo outro, mas o diabo é que
não têm lugar para ir. O banco traseiro do carro só serve
para brincadeiras de adolescentes e além disso dá dor nas
costas. Está certo, eles podem usar seu apartamento. O que
o jovem casal não sabe é que existe um microfone instalado
no interior do colchão. Dias mais tarde, o amigo que cedeu
o apartamento convida os dois a uma festa onde passa a gravação.
Em São Francisco, um grupo de jovens poetas anuncia a Noite
da Poesia Religiosa, atraindo um mundo de senhoras devotas
e gorduchas que adoram essas coisas. Há de tudo: chapéus
vermelhos, véus no rosto, bustos pesados e imponentes. O
primeiro poeta levanta-se para fazer sua leitura. "C
-- de P --" grita ele " para a assistência.
Em uma rua de Chicago, um sujeito com cara-de-pau
pára um transeunte na calçada, aperta-lhe a mão e diz:
"Olá meu chapa, aperta aqui essa mão." ."
- Desculpe, mas não lhe conheço." "- Eu também
não lhe conheço, mas que tal uma farrinha?" . E
o estranho se afasta lentamente; sua aparência sonolenta,
feminina e passiva não desperta nenhuma confiança; pelo
contrário, sugere baixezas impensáveis, coisas enfim que
o fazem sentir-se importante. Ele não conhece ninguém e
diz "meu chapa" para qualquer pessoa,
porque não quer se aborrecer lembrando nomes. Em Nova lorque
um escritor, Jack Kerouac, prepara-se para uma entrevista
na televisão. "Somos beat, meu velho",
diz ele. "Beat significa beatífico, significa que
você está por dentro, significa muita coisa. Fui eu que
inventei esse termo". Ele declara em seguida para
os espectadores da televisão: "Gostamos de tudo,
de Billy Graham, dos Big Ten, do rock and roll, do Zen budismo,
de tortas de maçã, do Presidente Eisenhower - vibramos com
tudo isso. Estamos na vanguarda de uma nova religião".
Jack Kerouac refere-se constantemente, em seus livros, a
Charlie Parker como Deus e a si mesmo como o Profeta. Estes
são os hipsters.
Quem
é o hipster, o que significa ser hipster? O animal puro
é tão difícil de ser encontrado como o "estudante"
puro ou o puro "homem do centro oeste". De qualquer
forma, tentemos acompanhar o rasto de sua história e de
seus sintomas. Descobriremos provavelmente que a expressão
"puro hipster" é equivalente a "100%"
americano - isto é, um produto instável de conteúdo indefinido.
O hipsterism originou-se com o esforço complexo
do homem preto em recusar o papel que lhe era imposto de
animal feliz e sorridente. Alguns pretos das capitais, dotados
de uma elevada autoconsciência, começaram a imitar a atitude
reservada do homem branco, sua maneira distante e reticente.
Dessa forma, criaram um estilo de comportamento que era
tanto uma crítica aos seus antepassados que cantavam passagens
da Bíblia e que adoravam o jazz, quanto uma paródia dos
brancos distantes e indiferentes. Eles improvisaram assim
sobre um tema livre como fazia a música bop - exigindo
dos ouvintes uma participação íntima e total. Caso contrário,
ouvia-se apenas uma terrível barulheira de instrumentos.
Os óculos dos intelectuais, com seus aros de chifre, passaram
a ser conhecidos como "óculos bop". Isso porque
provocavam belas visões. A piada tinha sua razão de ser.
Foi a partir dessa época que alguns brancos adotaram a moda
dos pretos, complicando a piada pelo fato de parodiarem
uma paródia deles mesmos. A música cool foi a expressão
artística dessa frieza aguda. Entretanto, para que os adeptos
se abstivessem da dança, da gritaria e das emoções fortes,
surgiu a necessidade de um elemento tranqüilizante, e ele
foi encontrado na heroína.
Alguns
músicos da velha guarda, adeptos do hot jazz, haviam feito
uso da marijuana, outros do álcool; esses excitantes atuavam
como molas que os jogavam para o alto durante uma sessão.
Contudo, havia um forte preconceito nessa época contra os
músicosque tomavam drogas injetáveis; acreditavam muitos
que havia o perigo de se injetar uma bolha de ar na veia.
He he, isso não, diziam eles. Além disso, afirmavam, os
drogados tocavam mal seus instrumentos, fossem eles bateria
ou saxofone. Não tinham idéia do que estavam fazendo. A
nova geração contudo deu preferência a uma música íntima,
super-celestial. A heroína dissolvia o espírito de grupo
e cada qual tocava sozinho, ou voava solitariamente em direção
a seu paraíso artificial. E sem perder o ritmo da música,
que era o principal. E como muitos outros jovens norte-americanos
sentiam-se atraídos pelo espírito beat e apreciavam manifestar
uma atitude distante ("cool") , eis que surgiram
três hordas rebeldes nas fileiras da primeira sociedade
hipster, essa esposa ainda virgem da tranqüilidade bop:
1.Os freqüentadores das ruas principais da cidade,
com suas costeletas compridas, motocicletas e calças blue
jeans; 2.Estudantes e alguns literatos, que encontravam
na atitude distante do drogado uma expressão visível da
frustração dos que estão acostumados a viver na abastança
e que ficam a zero de repente; 3. A classe boêmia
mais elevada, cansada de Van Gogh, filmes italianos, testes
de inteligência e sexo, disposta por conseguinte a experimentar
a anti-arte, o anti-sexo, o não-movimento do anti-delírio.
Entre esses últimos encontram-se os esnobes da Madison Avenue,
as jovens manequins que se despem unicamente para manifestar
seu desagrado pelas revistas de moda, os publicitários e
advogados que se casam com prostitutas de classe ("call-girls"),
o batalhão dos privilegiados manipuladores de símbolos,
abarrotados de dinheiro e de dívidas, corados por fora graças
aos banhos de luz dos aparelhos General Electric e vermelhos
de vergonha por dentro, e que manifestam suas depressões
de benzedrina criticando tudo à luz de um poste. "Sabe
de uma coisa. ..Albert Schweitzer não me convence com seu
ar de santo. ..é verdade que ele fugiu de casa com a Kim
Novak?" -Todo mundo diz, comenta uma linda
jovem que está sem programa para a noite, que eu sou
tremendamente enjoada. .. Pois bem, fale a verdade: você
gostaria que a gente fizesse uma bobagem essa noite? Por
mim, eu não me importaria. ..Meu nome é Uvinha, e o seu?
Examinemos
agora, mais de perto, o coração de águia do jovem hipster.
Quando o hipster tem uma relação sexual com uma mulher,
ele não admite gostar dela. Mostra-se indiferente. Sugere
a ela que dê os primeiros passos. O prazer máximo para ele
consiste em não pensar em nada, permanecer inteiramente
ausente, um cidadão da Cidade-do-éxtase, enquanto a mulher
brinca de gangorra em cima dele. Se por outro lado o hipster
tem uma aventura com um homem, não é porque seja um homossexual
convicto, mas é unicamente por dinheiro, para pegar uma
carona até em casa, ou então para passar o tempo enquanto
espera seu grupo de amigos. Quando o hipster rouba um carro,
ele não foge com ele, nem tampouco o vende: ele o esconde
num lugar onde os quadrados vão suar para encontrá-lo, e
escreve com sabão no parabrisa essa mensagem "Mort
à Louis A". Quando o hipster ouve música, lê Proust
ou estuda religião, ele o faz somente para ter assunto de
conversa, para ter alguma coisa na mão ou no bolso da calça,
quando não é apenas para exibir-se diante dos amigos; todas
essas ocupações não fazem o menor sentido para ele. Mas
não faz mal, diz ele, é tanto melhor quanto menos sentido
fizerem. Em outras palavras: o hipster é o exemplo acabado
da fuga da emoção. É como uma geladeira que funciona mal:
ela trabalha sem parar, faz um barulho dos infernos e esquenta
tremendamente, e tudo isso com uma única finalidade - produzir
frio. Essa geladeira é acionada pelo crime sem nenhuma necessidade
econômica. Um editor lamenta-se com um escritor hipster:
"Veja você, quando eu dormia nos bancos e me alimentava
de cachorro-quente, eu agia assim porque era obrigado. Meu
problema era simples: precisava comer e dormir. Não fazia
isso para contar para os outros". Essa geladeira
é acionada pelo sexo sem que haja paixão; a única paixão
existente é matar o sentimento, exterminar as ansiedades.
Essa geladeira é acionada pela religião sem haver fé; o
hipster atormenta-se a si mesmo à procura da escuridão total
do esquecimento, e todos os alívios que a religião forneceu
aos místicos do passado só serviriam para importunar a colossal
apatia que ele busca. Ao contrário de Onã, que jogou a semente
do homem na terra, o hipster atira fora sua mente e considera
isso um ato religioso. Ele usa igualmente da música, da
arte e da religião como se fossem emblemas de identificação.
Em lugar dos apertos de mão clandestinos que o teriam introduzido
nas sociedades secretas do passado, como o "Uncle Don's
Boys Club" ou a corphan Annie Secret Society",
sua senha agora é: "Você manja Charlie Parker? Proust?
Zen budismo?" "- Eu sou hip", diz o amigo.
Essa resposta significa: Não precisa explicar mais. Moro
nessa jogada. Estou de acordo. Entendo o que você diz. Muita
calma. Vai pela sombra. Até mais, então. A linguagem dos
jovens hipsters é um meio em vista da não-comunicação. Um
sinal de silêncio. A verdadeira conversa é tomar drogas.
Isso porque os narcóticos, mais do que qualquer outra coisa,
dão aos rapazes beat exatamente o que precisam :
relaxamento do corpo e da imaginação, a ilusão de um mergulho
fora do tempo na eternidade. Não é um sentimento de onipotência
que eles buscam, como poderia. parecer. Em outras palavras,
eles anseiam por uma tranquila simulação da morte. É tolice
pensar que as drogas geram maníacos sexuais, como dão a
entender certas histórias sensacionalistas e sentimentalóides.
O homem viciado não deseja outra coisa na vida senão sua
dose de excitante. Ele é indiferente a tudo mais. Tranquilo,
tranquilo. ele pode praticar terríveis violências para conseguir
sua ração de droga, mas não por razões sexuais: 0 prazer
sensual não tem nada a ver com os sonhos da heroína. O rosto
delicado e desbotado do viciado, com seus olhos apagados
e submissos, a boca entreaberta, tem algo de feminino na
sua doçura. Não existe agressividade ou amor nele. A heroína
permite ao hipster tomar-se a sentinela de sua alma, sonhando
com um tranquilo nada, um belo e indiferente nada, enquanto
seus pés tamborilam no chão de nervosismo e ele abre e fecha
0 canivete de mola, estala sem parar as articulações dos
dedos, ou folheia agitadamente um exemplar de Proust. Não
é preciso dizer que os hipters mais moderados não tomam
heroína. A voga atual por tudo que é hipster - linguagem,
maneiras e costumes - indica que não se trata de um fenômeno
isolado. Jack Kerouac proclamou: "Mesmo os estudantes
das grandes universidades estão se tornando hips."
Originários da música bop, do uso de narcóticos e da sutil
revolta dos pretos contra a acusação de serem "felizes,
ardentes e emotivos", os hipsters adotaram como um
de seus modelos principais um dos mais típicos fenômenos
norte-americanos: o cinema. O hipster ignora o conselho
dado por John de Garland, moralista religioso do século
XIII, que disse: "Não peque contra a carne, ó estudante!
Tenha modos quando estiver em pé ou sentado, não se coce!"
Os hipsters da escola de Stanislavsky vivem se coçando,
como se a angústia da alma que sentem fosse proveniente
de mordidas de pulga; andam com a cabeça inclinada sobre
o pejto como se fossem catar alguma palavra de Marlon Brando
caída no chão, ou alguma notícia do paraíso subterrâneo
de James Dean. A sombra cinematográfica de James Dean, ou
do Marlon Brando do filme "o Selvagem", é parte
da imagem do hipster, quer seja ele o hipster corado e boa
pinta das universidades, que se contempla a si mesmo na
vitrina de uma dessas lojas ortopédicas que operam os ossos
do ombro, quer seja o hipster subnutrido e cabeludo que
anda com uma garota se balançando no assento traseiro de
sua ruidosa motocicleta Harley Davidson, modelo 74. Em muitos
cinemas onde o filme "O Selvagem" foi exibido,
houve verdadeiras reuniões no banheiro dos homens depois
da sessão; filas de motociclistas, com seus blusões de couro
arranhados de unhas, miravam-se com adoração diante dos
espelhos como se repetissem essa ou aquela cena do filme.
Cada um deles julgava-se um outro Brando, distante ou violento.
Ou um outro Marlon, frio e impassível. Ficavam em fila sem
se envergonharem, quase sem se envaidecerem (tão puro era
o sentimento!) como prosélitos que se preparam para a cerimônia
expiatória em seus hábitos de penitência, as costeletas
compridas, correntes de prata balançando nas mãos e no peito,
cabelos compridos aparados na nuca, como a cauda de certas
aves. Não se cocem, ó turma! Assim, as linhas de comunicação
dos hipsters estendem-se desde os cinemas poeiras das cidadezinhas
do centro-oeste até os salões elegantes de Nova lorque ou
São Francisco. Eles nos lembram os teddy boys da Inglaterra,
os jovens rebeldes do Japão derrotado, os existencialistas
anêmicos de Saint-Germain-des Prés, em Paris, cantarolando
as velhas músicas de jazz ouvidas nos antigos discos de
78 rotações. Os apologistas do movimento beat, especialmente
os jovens literatos de São Francisco e Nova lorque, recorrem
frequentemente à história a fim de exumar os gênios criminosos
da poesia francesa - Rimbaud, que desapareceu misteriosamente
na África, Villon que terminou a vida dançando numa forca,
Genet, que está fazendo atualmente um grande sucesso na
literatura e no teatro em Paris, após uma carreira de latrocínio,
chantagem e prostituição masculina. A diferença fundamental
entre o hipster literato da América do Norte e seus modelos
estrangeiros está no fato de que os grandes artistas criminosos
do passado eram verdadeiros párias sociais: não eram eles
que se expulsavam a si mesmos do convívio da sociedade.
Eles eram expulsos por preconceitos de classe e pressões
econômicas. Alguns hipsters norte-americanos tiveram realmente
um comportamento espetacular - sobretudo no hospício; um
deles brincou de Guilherme Tell com sua mulher e estourou-lhe
os miolos. São exemplos isolados, porém, e não são de forma
alguma o produto de uma perseguição social em grandes proporções.
Aliás, quem não tem seus dramas pessoais? Eu entendo os
de vocês, rapazes, mas eu também tenho os meus. De qualquer
forma, o hipster de 1958 não é o arrojado trovador medieval,
príncipe da poesia e das prisões sem conta, nem o poeta
aventureiro e romântico das gerações seguintes, nem tampouco
o desempregado revoltado da época da Depressão: o hipster
de hoje é o verdadeiro rebelde sem motivo. Ou melhor, ele
tem certamente um motivo: seu ego destruído, ainda que seja
um ego sem necessidades ou relações humanas. 0 hipster norte-americano
é um vagabundo silencioso com uma grande tendência para
a criminalióade, um andarilho que reluta em aceitar as obrigações
dos homens, um flanador levemente afeminado que ronda as
cenas de violência. Se não pode ser um grande herói nos
tiroteios de guerra, como Gary Cooper, ele se consola tirando
o escapamento de sua motocicleta, como Marlon Brando. Acima
de tudo, ele está possuído pelas três grandes doenças do
homem norte-americano: a passividade, a ansiedade e o tédio.
Individualistas sem individualidade, rebanho sonolento de
pensadores que não pensam, turba solitária na sua solidão
mais Iamurienta, era natural que os jovens hipsters recorressem
à heroína como uma forma de submissão absoluta. Como ocorre
na submissão pelo tédio à televisão e ocupações similares,
substitutos da inventividade pessoal, o uso dos narcóticos
supõe a abdicação do senso comum entre pessoas que não têm
a coragem de trilhar os próprios caminhos. - Eu experimentei
de tudo, meu chapa. - E o que você pretende
fazer agora? - Não sei, meu chapa. Inventar uma novidade
qualquer, quem sabe... Se a descrição do hipster como
um tipo "passivo" parecer severa ao leitor, veja
o que diz o dicionário a respeito dessa palavra: "Em
medicina: pertencente a certas condições mórbidas caracterizadas
por deficiência de vitalidade e reflexos." A palavra
hipster surgiu com o movimento bop; significava musicalmente
uma atitude calma, relaxada, associada ao mesmo tempo com
o consumo de narcóticos - uma forma de se manter calmo sexualmente.
O hipster que toma um entorpecente não é um anarquista sexual:
ele é um zero sexual, e a heroína é sua mamãe e seu papai.
(o passador de narcóticos, no romance A Hatful Of Rain,
é chamado de "mamãe"). Não é todo hipster naturalmente
que espeta uma agulha na tatuagem do seu braço, mas são
os que assim agem que dão a nota ao movimento. Os rapazes
mais "avançados" na turma chamam-se uns aos outros
pelo nome de papaizinho", como se a passividade deles
chegasse ao ponto de confundir qualquer homem com a imagem
do pai protetor. É verdade que o músico ambulante
não se pode ao trabalho de lembrar o nome de cada pessoa
que conhece, daí chamar a todos, indistintamente, de meu
chapa", velhinho", "paizinho". No fundo
eles adoram a fantasia da brutalidade masculina criada por
Tennessee Williams, William Inge e outros, que foram os
inventores de um novo herói teatral: o grande machão. Deliciosamente
brutais, desprovidos dos principais atributos da verdadeira
virilidade -inteligência, finalidade e contrôle - esses
fantoches masculinos são as ondulantes Mae West do melodrama
popular. Depois da morte, James Dean e Charlie Parker foram
considerados imortais. Tendo sobrevivido e passado um pouco
da idade, Marlon Brando foi julgado um traidor do mito dos
suicídios sagrados com carros-esporte ou heroína. Eles teriam
talvez perdoado a Marlon Brando seu recente desinteresse
pelo bongô; sua calvície precoce, contudo, é um crime imperdoável.
O novo herói,forte e silencioso, deve ser também frágil
e lindinho. Uma das veredas mais curiosas do hipsterism
é a que leva aos distantes acampamentos religiosos. Jack
Kerouac diz: "Estamos na vanguarda de uma nova
religião" .Essa frase soa mais ou menos como a
do franciscano que declarava ser o campeão mundial da humildade.
Os jovens "santos" cultivaram São João da Cruz
durante uma época, depois se apaixonaram pelo cerimonial
da Igreja Católica, mais tarde tornaram-se admiradores ferventes
de São Francisco de Assis; em seguida passaram para as fantasias
religiosas bizantinas, gregas e ortodoxas, com ícones e
incenso queimando, cenário em tudo igual ao de um romance
de Dostoievsky. Recentemente, alguns dentre eles começaram
a chamar-se Zen hipsters e o Zen budismo alastrou-se como
a gripe asiática. Assim é comum hoje em dia encontrar num
restaurante chinês de São Francisco no lugar da tradicional
sorte que embrulhava os pauzinhos com que se come, essa
mensagem: "Prove o nosso tremendo Sukiyaki Zen;
Só um quadrado gosta de comida,chinesa". A promiscuidade
na religião significa, como no caso da heroína, um sinal
de desespero, um recurso desesperado num momento de aperto,
um mergulho passivo na irracionalidade. A doutrina Zen,
como as demais religiões, possui seus aspectos admiráveis,
mas o hipster passa através deles como um acrobata de circo
passa por um círculo de papel: ele vai cair na eterna falta
de confiança em si mesmo que o espera dentro da tina gelada.
As atividades religiosas dos hipsters curam a angústia que
lhes causa o mundo da mesma forma que dançar de rosto colado
cura a halitose. Não é de espantar que ele diga: "Ah
estou na onda.. .estou bem no alto da onda. ..sou o mais
religioso, o mais humilde dos homens. ...estou no alto,
meu velho." Se ele gagueja é porque alguma
coisa está faltando, talvez a parte vital, as operações
centrais da mente. Sua alma, o significado das coisas, sua
dignidade individual (chamem pelo nome que quiserem) foi
extirpada como desnecessária por uma civilização que produz
muitas coisas sem uma finalidade recomendável. Ele sente
que o amor não é mais amor, o trabalho não é mais trabalho,
até mesmo o protesto perdeu a razão de ser. Diante da enorme
diversidade de produtos postos a venda o hipster escolhe
o pior de todos os produtos da ansiedade: o tédio. Essa
é sua reação diante de tudo que a existência moderna lhe
oferece como bens de consumo, conforto, segurança no futuro.
Sua ansiedade pelas perspectivas da vida gera o tédio. E
o tédio por seu lado provoca uma maior ansiedade.
Enquanto
o homem da classe média compra um tijolo para a nova igreja
do seu bairro ( Será que Deus precisa dessa pista de boliche?),
o hipster procura resolver seus problemas pessoais adquirindo
livros de histórias Zen, ou coisas no gênero que estejam
na moda. Naturalmente ele gagueja ao comentar o que leu:
"Legal, velhinho, muito legal". Seu desejo,
ao folhear esses livros, é parar com a inquietação, com
o tamborilar de mãos e pernas, com a trepidação do corpo.
Ele se julga um gênio de sabedoria porque não tem mulher,
filhos, nem responsabilidades. Como também não trabalha
nem pertence a nenhum partido político. O homem médio também
possui e não possui essas coisas. Quem pode chamar de trabalho
o fato de passar adiante tiras de papel? A maioria dos norte-americanos
são passadores de tiras de papel. Como pode ser o amor da
mulher e dos filhos mais do que um hábito social se o homem
sente, na sua condição de homem (e não enquanto marido ou
pai) , que ele não possui nenhuma autoridade fora de sua
casa? Quando o lar é o único castelo do homem, é sinal que
ele não possui um castelo. Tanto a elegância de maneiras
quanto a ambição são características do ser humano, e não
dos animais, ainda que os ratos e os coelhos aprendam o
sentido do desespero graças a repetidos choques elétricos.
Diante da ameaça de uma absoluta manipulação social, o
hipster lança mão de seu último recurso: êle dança dentro
da jaula, abana o rabo e salta sobre os fios eletrizados.
A afimação
generalizada segundo a qual os norte-americanos têm verdadeiro
culto pela posse de objetos ou bens de consumo não é suficiente
para explicar esse fenômeno. Os norteamericanos exigem
também manifestações de fôrça, sejam elas vividas pessoalmente
ou assistidas pela televisão. Esse fato poderia ser considerado
uma necessidade natural se a miragem obsessiva do poder
não perturbasse a tranquilidade que dá um sentido à vida
e permite ao homem enfrentar seus problemas pessoais, sejam
eles o trabalho, o afeto dos seus, a educação dos filhos,
a morte. Certas experiências afastam-se mais do objetivo
que temos em vista do que dele se aproximam, e cada vez
isso ocorre a uma velocidade maior. A experiência não deu
resultado, tentamos experiências mais violentas; elas ainda
não o foram suficientemente, recorremos a outras mais violentas
e assim sucessivamente. A televisão como meio de distração
é algo tão pouco condenável quanto um bom uísque: ambos
podem ser bons amigos. O que é prejudicial é ficar na dependência
de um ou de outro, como ocorre com os espíritos debilitados.
Viver uma experiência imaginária, como meio de distração
e relaxamento, é uma grande experiência que nossa fantasia
nos pemite. Ficar atordoado, porém, com a experiência algo
completamente diferente: é o desespero pelo choque elétrico.
Sensível a tudo isso, o hipster decidiu dar o fora - abandonar
essa vida - não ter mais nada com isso. Em lugar de ser
um dos membros da massa humana que passa horas sem conta
diante dos aparelhos de televisão, ele se transfoma numa
audiência isolada e individualista diante de uma ampola
de narcótico. Ele desistiu de ser uma criatura humana nos
moldes sociais contemporâneos. Chegou à conclusão que os
problemas dessa sociedade não lhe dizem respeito. Ele simplesmente
se desinteressa, afasta-se. E o homem que se ocupa com essas
ninharias é denominado pelo hipster de "alienado".
Seja como for, o hipster é um membro dessa alucinada América
onde um Tab Hunter declara, numa entrevista, que só consegue
domir abraçado ao seu ursinho Teddy. O hipster é a vítima
da mais desesperada condição de escravidão - a do escravo
que não sabe que é escravo e orgulha-se de sua dependência,
denominando-a "liberdade". É uma doença incurável?
Quase. Sua atitude de negação e passividade é batizada com
os nomes de religião e revolta, quando se trata simplesmente
de um fenômeno de massa. Esses niilistas navegam sonhadoramente
pelo Nilo das estradas norte-americanas, consumindo a maior
parte do dia fazendo programas para a noite, e teminam por
convencer-se a si mesmos, como aconteceu com Jack Kerouac,
que Charlie Parker é Deus. Os jovens personagens do romance
On The Road anseiam por uma paz interior dentro
de sua existência beat, uma "beatitude" que se
hamonize com suas calças blue jeans e seus cabelos sujos,
sonhando com aventuras fantásticas na companhia de jovens
maravilhosas (que também usam calças blue jeans e andam
com os cabelos imundos) .Ocasionalmente, como ocorre com
alguns fanáticos do tipo sub-hipster apresentados por Kerouac,
o sexo substitui-se aos entorpecentes. No fundo, trata-se
de mais um substituto para uma vida sexual normal. A mesma
gulodice que certos homens revelam pela posse de bens, Kerouac
empresta aos delírios eróticos de seus personagens, esquecendo-se
que se um boiadeiro usa do sexo como ferrão, cada espetada
torna mais rombuda sua ponta. O hipster é um fenômeno típico
das esquinas, dos bares e das festas, uma criatura dos aglomeramentos
humanos. Um Rimbaud isolado pode ser um gênio - uma multidão
de Rimbauds é apenas uma moda passageira. A voga anterior
da psicanálise tinha pelo menos uma coisa a seu favor. Freud
acreditava no valor excepcional das emoções humanas, por
mais que afirmasse a necessidade de serem controladas pela
inteligência. Em outras palavras: ele aceitava a sociedade
independentemente dos prejuízos trazidos pela civilização.
O hipster desiste da sociedade, abandona a inteligência
e acredita estar beneficiando suas emoções ao agir assim:
ele não percebe que sua passividade liquida exatamente com
sua personalidade. O que resulta é um indivíduo abobalhado
e irrequieto, apesar de alguns líderes do movimento possuírem
um talento vivaz. Não devemos nos espantar pois se os "melhores
representantes" dessa geração estão no manicômio. Catatonia,
estamos chegando! Esses barulhentos pássaros lunares assemelham-se
a satélites artificiais que os burocratas houvessem lançado
no ar da realidade espacial, onde giram dentro de uma órbita
predeteminada, mandam sinais cada vez mais fracos à terra,
perdem pouco a pouco altura, incendeiam-se, explodem e desaparecem.
Quando Yeats olhou para o futuro na esperança de descobrir
um poderoso salvador, que houvesse evoluído da animalidade
para alguma forma bizarra e maravilhosa e escreveu esses
versos Que animal selvagem é esse - sua hora tendo
soado finalmente que caminha de cabeça baixa em direção
a Belém onde há de nascer?
Ele
não se referia certamente a James Dean.Talvez, como pretendem
alguns, a abstenção dos sentimentos humanos pregada subterraneamente
pelos hipsters gere uma nova sinceridade da emoção. Talvez
o gambá aprenda um dia a voar, mas se o mesmo acontecer
com homem admito, meu chapa, que há de ser um pássaro bem
estranho.
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