|
de
Alma Beat
Város autores
L&PM editores, 1984.
Caiu
na minha mão um livro onde Anaud explicava o rito do peiote.
Minha namorada holandesa situacionista me falou de um tal
de Malcolm Lowry, que escreveu Sob o Vulcão, um romance
de rasgar a carne, sob uísque e mescalina. Da primeira vez
que um filhinho de papai veio dos EUA eu o intimei a trazer
uma antologia da beat generation. E aprendi que a
marijuana e o LSD podiam ser úteis para muitas coisas. Eu
só queria era chutar, chutar, chutar. Para acabar com a
demência maternal quando encontra os lençóis manchados de
esperma; para acabar com as penitências sado-ideológicas
dos curas de todos os pecados; para acabar com os ensinamentos
educativo-castradores dos mestres; para acabar com a legalidade
repressora, a normalidade triunfante.
Mas
eu estava só e duro. Tinha só a holandesa e alguns chegados
da barra pesada. Fui de todas: haxixe para visões místicas,
speed para ficar ainda mais down down down, fungos
para alcançar outra dimensão, uísque -barato -, noz moscada
(sugestão de Burroughs em uma tradução espanhola safada
de Naked Lunch), e a doce brown sugar. Escrevia uns
poemas: "Dama mendiga de axilas árabes/ camiceira elétrica
do ópio/ túnica afeitada no bosque de olhos/ almofada paralítica
de frio/Para onde foi a monstra de joelhos doces?/Onde ficou
o toucador turquesa?" Eram uma merda. Mas estava aprendendo.
Um homem só se forja em situações Iimite.
Lembro
de mim, adolescente, procurando ansioso no dicionário a
paIavra benzedrina. A muito custo consegui ler uma
versão espanhola (sempre...) de On the Road. Comecei
a me perguntar se queria ir a algum lugar ou simplesmente
ir . Ainda não conhecia o terrível uivo de Ginsberg, patético,
vivência pessoal, cotidiana: "Vi as melhores mentes da
minha geração destruídas pela loucura, famintas, histéricas,
nuas, arrastando-se de madrugada pelas ruas dos negros em
busca de uma droga urgente, imperiosa...".
Eu
trabaIhava e era despedido. Trabalhava e era despedido.
Oueria sumir deste mundo de merda. E lia. Roubava tudo.
Descobri que com toda a minha miséria era na verdade um
"dandy"! Um romântico. Descobri que o romantismo,
com sua revolta luciferiana, só serviria verdadeiramente
às aventuras da imaginação. Abracei o Mal. Fui atrás dos
maIditos. Passei dias em uma banheira na companhia de uma
teia de aranha e dos Cantos de Maldoror. Roubei um
otário no Centrão, em um sábado à noite, e com a renda construí
uma biblioteca.
Frustrado?
Neurótico? Não, eu queria ir lá no fundo. Ninguém entendia
nada. Queriam me botar pra fora de casa. Eu me tranquei
no quarto. Virou um bunker. Todo dia, eles vinham me visitar.
Eu via muito e no fundo. Eu via caos. Eles me apoiavam:
H.G. Wells, Sartre,Camus, D.H. Lawrence, Kierkegaard, Dostoiévski,
Keats, Fitzgerald. Eu não seria um homem oco. Nem o cantor
ocioso de um dia vazio. Eu queria seguir o caminho do herói
de James Joyce: encontrar no mundo real a imagem sem substância
perseguida pela minha alma. Quem é que poderia entender
isso?
Fiquei
magrinho. Quase desapareci. Parei de comer. Para quê? Não
tinha saída. Queria ir atrás de um monte de gente: NovaIis,
Holderlin, Rilke, Shelley, Coleridge. Mas não os encontrava.
Estava aprendendo outra coisa: que a descida nas trevas
não era necessariamente um pacto com o Mal. Mas era tudo
sozinho. Não tinha com quem conversar. Fugi do exército.
Fugi de casa. Só faltava fugir do país.
Veio
zen, veio um monte de babacas vestidos de laranja e gritando
slogans, veio um bando de garotos em trapos gritando
"no future". Passou tudo. Eu queria era me isolar
em uma ilha deserta e ver onde é que Blake e Nietzsche tinham
dado o nó. Neles e no mundo em volta. Queria saber qual
era a dessa beat generation. Deles tinha vindo muita
coisa. Talvez aquela música de Lou Reed, "Heroin".
Talvez o jeito que alguns caras escreviam em jornal e revista.
Mas não dava para saber. Eu tinha que me mandar .
Roubei
um carro, caí num cargueiro belga e desembarquei no centro
do mundo. Quando saí daqui ninguém tinha idéia do que era
beat. Eu parecia um zumbi no mundo real. Comecei
a ver o que era a vida. Trabalhei em porto, café, puteiro
e night club. É isso que se chama literatura. Parei de escrever
para a América do Sul. Queria cortar laços, viver uma outra
vida, outra identidade, nenhuma identidade, mais anônimo
do que o último dos anônimos. Chutei nos canais de Amsterdam
e fiquei sabendo porque Allen Ginsberg ainda era o maior
poeta da América. Conheci Bill Burroughs nas bancas de jornais
das ramblas de Barcelona. Aterrorizei as noites de Paris
recitando em voz alta uma antologia argentina da poesia
surrealista. Chorei no muro de Berlim como o fuzilado de
Jacques Préven ("Um homem está caído banhado em seu sangue").
Guiado por Henri Michaux, mergulhei no conhecimento dos
abismos ("Esse pensamento maravilhoso! mas qual
era mesmo esse pensamento?"). Conheci Coltrane, Miles
e o Modern ]azz Quartet. Ferlinghetti dormindo com a Beleza
de sua maneira peculiar. Beat, jazz, punk, dada, no wave,
nouvelle vague, 68, era tudo igual, era rock e revolta,
era sexo e sangue, visões e alucinações, demência e danação.
Dei e recebi. O rapto da Sabina.
Nova
York, rua 42, madrugada de um sábado gelado. Um velho bêbado
me conta uma história, que ele viu ou não viu. Eles estavam
à beira da calçada, sob o choque do vento gelado, sem destino,
acendendo um cigarro. Jack estava tétrico, tossindo, nunca
Allen o tinha visto tão magro. Estava duro - embora "Os
Subterrâneos" estivesse quase vendido por um penny
a palavra. Com 500 dólares estaria em Tanger, onde Allen
encontraria com Bill Burroughs, assim que ele, Jack e Gregory
Corso tomassem Nova York de assalto. O momento era do grupo.
A América estava esperando por profetas poéticos. "Poetas
e nus", dizia Allen. Jack continuava letárgico. Mesmo
quando estava a ponto de ficar famoso. Jack estava seco
para ficar famoso, mas também tinha um segredo: a inveja.
Uma obscura esquina novaiorquina. Ele não tem onde ficar.
Allen começa a ligar pra todo mundo. Alguns anos depois,
Jack diria a ele: "Você roubou o Vazio de mim".
A história
do bêbado ficou na minha cabeça. Me mostrou a fragilidade
dos beats. Até que enfim eu começava a conhecê-los.
Burroughs e sua mente meticulosa. Ginsberg e seus delírios
psicopatas. Jack procurando "garotas, visões, tudo".
Eu tinha achado algumas garotas. Amar e panic. Tinha tido
algumas visões - casamentos de céu e inferno. Quanto ao
tudo...era mais uma idéia de movimento. Se fosse possível
permanecer sempre em movimento, mantendo o tempo todo o
êxtase da sensação inicial de cada experiência. ..
Fui
parar em Londres em um final de verão. Havia um revivaI
beat. Muita gente de boina negra, óculos negros,
jeans, casacos de couro, sandálias. Grupos tocando em pubs.
Reedições nas livrarias - inclusive o livro de uma ex-namorada
de Kerouac. Nos centros in, todo mundo se comportava dentro
das máximas do cool. Achava aquilo tudo engraçado. Era um
revival bem humorado. Depois de "Lolita",
de Kubrick -aquele grande filme dos anos 60 -, depois da
psicodelia, Jefferson Airplane, fim de sonho, década do
eu, punk, terrorismo alemão, matadouro na América Latina,
estética do apocalipse, voltava-se aos anos 50. Tudo tinha
começado lá. Não, o que tinha começado era a cultura pop.
Da literatura beat veio a cultura do rock drogas,
viagens (nômades ou sedentárias) e a música. Ascensão e
queda de uma Utopia. Experiências no bosque dos magos, até
que o ônibus azul cai no abismo. ..
Eu
estava com a mesma roupa há semanas, conversava em silêncio
com gregos, beats e dadas, procurava uma mulher sublime,
quando passei na frente da lojinha de discos onde só tocava
dub e ouvi aquela música. Simples. Só guitarras. Sem sintetizadores.
Sem superprodução. Eu tinha ouvido de tudo naquele tempo.
Tudo. Mas aquela voz. ..Aquele som épico, como se fosse
o tema de um revolucionário romântico parindo para a Eternidade
com a mais bela Musa sobre a Terra... E o que ele estava
dizendo? Não era possível! Aquilo não era pop; era poesia
sublime: "Todos os homens têm seus segredos e agora
revelo o meu/ vivemos no inferno e na maré alta, posso mesmo
confiar em você? / no entanto você começa a recuar, palavras
pesadas são jogadas a esmol mas eu ainda seria capaz de
te salvar de uma bala de revólver/ que diferença faz?/ que
diferença faz?/ não faz nenhumal e você se foi".
O grupo chamava-se The Smiths. Era seu primeiro LP.
De Manchester. Quatro garotos sensíveis, quietinhos. A voz
do cantor, Morrissey, os arranjos, todas as outras músicas
do disco...Eu me recusei a acreditar que a música pop pudesse
chegar a um extremo de Beleza e Transcendência tão grande
depois de Velvet Underground, Doors, ]oy Division e Echo
and the Bunnymen. Estava tudo ali beat, jazz, dada, punk,
revolta, sangue, todo aquele catálogo de Vida Pulsante latejando
nas veias e no cérebro. Eu não tinha mais nada que aprender,
pensei naquela calçada suja, observado por rastas, sentindo
o barulho dos double deckers, estático como se tivesse sido
atingido pelo raio de Zeus. The Smiths: fecharam a porta
do meu corpo e da minha cabeça e levaram a chave. Agora
é que ninguem me segurava. Comprei o disco, botei na sacola,
fui para o porto mais próximo e caí aqui de volta.
Na
viagem, pensava no itinerário nietzscheano da Grande Liberação.
Será que eu tinha chegado lá? O Lobo da Estepe saía do Teatro
Mágico e voltava à realidade. "Say Hello, Wave Goodbye",
como no clássico junkie do Soft Cell. Foi um casamento de
música e literatura. Mas o satori só poderia ter saído pela
música - a síntese de todas as artes, uma mediação entre
o inteligível e o sensível concretizada pelo delírio mítico
da droga e também do cinema, do constante movimento, das
overdoses estéticas, da contemplação profunda. O que estaria
acontecendo nos trópicos? Cheguei no meio de uma explosão
beat. Fiquei muito assustado. Só se falava em beat. Talvez
pela primeira vez. Não era possível: "Naked Lunch" estava
completando seu 25° aniversário - Bill o 70° - e ainda não
tinha sido traduzido. Tinham descoberto também uma tal de
new wave, rótulo que durou, jornalisticamente, no máximo
até 79, 80. Juntavam beat com new wave e saía uma salada
de entupir esgoto. Essa consciência dissimultânea me deixou
atordoado. Os editores não se davam ao trabalho de explicar
direito aos leitores jovens do que se tratava. Havia um
revival dos anos 50 na mídia, mas cada um atirava para um
lado e todos se acenavam. A música tentava um revival dos
anos 60, mas com uma incompetência terminal. Os beats começavam
a sair à rua, mas fora de perspectiva. Não se discutia cada
autor a sério. Ninguém - a não ser alguns poucos - se preocupava
em ligar cada autor com seus antecessores espirituais ou
estilísticos, com uma cena tradição romântica, com modificações
de componamento que sobrevieram após a publicação de seus
textos. Ou seja, faltava debate. E tudo vinha muito atrasado.
Parecia oportunismo - em muitos casos não, mas na maior
parte tratava-se de jogar os beats na rua o mais rápido
possível. Mas cada um era um caso em particular. Para que
servia este lançamento desenfreado, agora?
A garotada
estava perplexa. Todos estavam perplexos. Eu imaginava o
que um garoto solitário trancado em seu quarto no interior
do país poderia estar pensando. O que aquilo tudo tinha
a ver com a sua deprimente realidade? Por que ninguém lhe
situava aqueles nomes estranhos? Por que ninguém lhe mostrava
como aqueles textos poderiam lhe ajudar a minar algumas
barras da prisão? Por que ninguém demonstrava por A mais
B como a leitura daqueles textos poderia ser muito mais
importante do que passar a vida na frente de um fliperama,
um videogame, ou ouvindo a última idiotia sonora dos grupos
new wave locais?
Saí,
voltei, e as decepções e raivas apenas se acumularam. Perdi
muito do tesão. Tentei muita coisa, mas a mediocracia estava
estabelecida em todos os postos. Parei de trabalhar. Voltei
ao mutismo. Me tranquei em casa com uma mulher da pesada.
Trepamos direto. Com toda a libido.
Estou
aperfeiçoando uma estratégia de assalto a supermercados.
Vou distribuir comida para os desgraçados e livros para
os (mais ou menos) ilustrados. Eu e a mulher da pesada estamos
cansados, mas não dá pra parar. Por isso a entupo de sêmen.
Por isso fertilizo uma aspirante a deusa. Ela vai virar
a cabeça de muita gente. Não, não virei bandido só porque
li os beats. Virei bandido por causa dos medíocres, dos
parvos, dos vendidos. Vou sair pelo interior e vou dar livros
para a garotada. Vou raptar um editor e obrigá-Io a editar
todas as coisas importantes da história da literatura jamais
editadas neste país. Vou obrigar o Ministério da Educação
a adotar todos esses livros como currículo obrigatório.
O quê? Pirei? Não. Nem estou a caminho da beatitude. Por
enquanto, ouço os Smiths todo dia, amo uma mulher e quero
que muita gente saiba que existem muito mais coisas importantes
no mundo lá fora do que apertar um botão ou tentar dançar
sob um som abjeto. Esta é a definitiva época da abjeção.
Só nos resta a guerrilha. Mesmo que tenhamos perdido a saúde.
Não se venda. Sofra. Pense até seu cérebro rachar. Vá atrás
da vida, seja por beat, pop, dada ou nada. A saúde é um
estado de não-sensação. É irreal. Quando deixamos de sofrer,
deixamos de existir. Queremos matar esse tempo. Esse tempo
quer nos matar. Pelo menos estamos à vontade: entre assassinos.
|