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Enviado
por Márcio X. Simões
1961: Do grande olho saiam todas as coisas. Caminhava-se
em meio ao maremoto, sondava-se o tempo, a indiferença
dos dragões alados não comovia ninguém.
1962: Pelos cantos das casas, pelos cantos, encolhiamo-nos
e rolávamos, saltimbancos de uma nova ordem das coisas.
Algum tipo inédito de som era despejado sobre a cidade.
Aumentava a umidade do ambiente, nem sempre fazia frio.
Devo contar tudo. Garrafas voaram pela janela.
1963: O terremoto, a convulsão, o susto pálido.
E o entardecer que se abria como uma grande vagina para
engolir-me. A mais pura esquizofrenia. Pastéis alados
começavam a cobrir a paisagem, e pousavam nos beirais
e parapeitos. Transcrevia-se a loucura. Como descrever tudo
que aconteceu?
1964: A grande risada. Contemplei o mundo, presenciei
os fatos de perto, a partir da minha cama. Impossíveis
outras posturas. Alucinações no Maranhão
e Recife. Que odor de ferrugem permeava as madrugadas! Mas
algo preparava-se.
1965: Chovia demais, era muita lama cobrindo tudo.
Lembro-me de um olhar, uns olhos, talvez por detrás
residisse alguém. Não sei; seria incapaz de
contar tudo. Somente o plano inclinado, e era oleoso. Um
dia trepamos numa árvore, era bonito, e fazia sol.
1966: O eco dos tambores. As anunciações.
As auréolas. As corolas. Os reverberos. Também
dessa vez, todo mundo estava lá. Um começo
misterioso de qualquer coisa. Novamente o olhar habitado,
estendendo-se e tomando conta dos subúrbios.
1967: Não sei quando começou. Durante
um tempo, carregou-se um canivete espanhol.
1968: Uma certa acidez e ferrugem no ar. A poeira
também fazia-se sentir. O calor era aquele calor
que precede as batalhas. Mas tudo bem, juntamos os pedaços
galhardamente.
1969: Como era extensa aquela praia. Tinha vindo
ao mundo para brincar, mas havia me esquecido. Claridade,
talvez. Entenda quem quiser. 1969 foi um ano rodeado de
gotículas como um halo lunar.
1970: Aquele tambor, e o vértice fincado!
Dizíamos sempre a mesma coisa, um aguilhão
de ouro atravessando os dias e juntando-os na mesma fieira.
1971: Resto de selvageria. Certas coisas não
devem ser ditas, apenas esculpi- das em jacarandá.
1972: Redondo ou ovalado. No fundo da caverna, fogueiras
acesas.
1973: Não consigo lembrar-me.
1974,1975,197............................................................................
E agora, e agora estamos aqui, fixos e trespassados no tempo.
E agora estamos um frente ao outro, olho contra olho, sexo
contra sexo, abrindo sucessivas cortinas do oculto olhar.
E agora sabemos o que se passa e o que vai acontecer. Somos
definitivos como uma profissão de fé. Somos
uma confissão arrancada à meia noite. Prenuncia-se
um diálogo poético. Os amigos começam
a chegar, cheiro de malas e corrimões no ar. O grande
olho despeja novos caminhantes, eles procuram seus aposentos
e instalam-se.
Uma
fronteira para o grito
Inseguro
entre o céu e a estepe, suspenso num fluir de roda
gigante, embebido na minha nostalgia de centauros, eu
devoro pedaços de musgo e raízes de plátano,
estendido em jardins intermináveis onde se modelam
arcanjos. Teria sido muito mais fácil escrever
cartas de amor, para serem estendidas ao longo das estradas
e pelas paredes dos tribunais - são inúteis
para a vida, porém, estes poucos instintos que
lentamente se devoram uns aos outros - sobra-nos apenas
uma memória de fugas de amantes, a grandeza do
gesto de um epiléptico, a solidão profunda
dos grandes sedutores. Há sonhos, porém,
que nos acometem com uma simetria de gaitas-de-fole -
há também a necessidade de escrever testamentos,
sempre obscuros, insultando os jardineiros das praças
públicas, e aqueles que comem hóstias com
uma regularidade de aranha e armazenam pontas de cigarros
em cofres de aço, temerosos da posteridade. É
absolutamente necessário, também, conclamarmos
à união os famintos de santidade, os guardiões
de serpentes e domadores de circo, os exploradores dos
subterrâneos das pontes e viadutos, os exilados
voluntários, para partirmos juntos em busca da
inviolável liberdade dos caminhos seguidos ao acaso,
e da verdade contida nas escadarias, pórticos,
e paredões desabados.

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