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de
Junky.
Editora Brasiliense, 1984.
"Nasci
em 1914, numa sólida casa em tijolo aparente, de três andares,
numa grande cidade do Meio Oeste. Meus velhos viviam bem.
Meu pai tocava seu próprio negócio madeireiro. A casa tinha
uma área na frente, um quintal nos fundos com jardim, um
laguinho cheio de peixes e uma cerca alta de madeira protegendo
tudo. Não faltava nada: era uma vida segura e confortável,
para sempre perdida agora. Eu podia vir aqui com uma dessas
conversas nostâlgicas sobre o médico alemão que morava ao
lado e os ratos que rondavam o quintal e o carrinho elétrico
da minha tia e o meu sapo de estimação que vivia na beira
do laguinho dos peixes.
Na verdade, minhas primeiras lembranças são matizadas pelo
medo de pesadelos. Eu tinha medo de ficar sozinho, medo
do escuro e medo de dormir, por causa dos pesadelos, em
que um horror sobrenatural estava sempre a ponto de se materializar.
Tinha medo de que um dia, ao acordar, o pesadelo ainda estivesse
lá. Me lembro de uma empregada falando sobre ópio, que o
ópio trazia lindos sonhos, e eu disse: "Vou fumar ópio
quando crescer."
Quando criança eu vivia assolado por alucinações. Uma vez,
acordei de manhã bem cedo e vi uns homenzinhos brincando
numa casa de cubos que eu tinha erguido. Não tive medo,
só uma sensação de imobilidade e espanto maravilhado. Outra
alucinação ou pesadelo muito comum envolvia "animais
na parede", e começava com o delírio provocado por
uma febre estranha, jamais diagnosticada, que eu costumava
ter aos quatro ou cinco anos.
Freqüentei uma escola moderna, ao lado dos futuros cidadãos
íntegros - advogados, médicos e empresários de uma grande
cidade americana. Junto das outras crianças eu ficava tímido,
com medo de violências físicas. Tinha uma lésbica-mirim
muito agressiva que puxava meu cabelo, tão logo me via.
Eu bem que gostaria de socar a cara dela nesse mesmo instante,
mas, anos atrás, ela caiu do cavalo e quebrou o pescoço.
Quando eu tinha sete anos meus pais resolveram se mudar
para o subúrbio "pra se verem livres de gente".
Compraram um casarão com muito terreno, bosques e um lago
com peixes; em vez de ratos, tinha esquilos no quintal.
Vivíamos numa redoma aprazível, ao lado de um belo jardim,
afastados da vida urbana.
Me botararn num ginásio particular de subúrbio. Eu não era
especialmente bom ou mau nos esportes, nem brilhante ou
retardado nos estudos. Tinha um bloqueio definitivo para
maternática e tudo que fosse mecânico. Jamais gostei de
jogos competitivos de equipe, e os evitava sempre que possível.
O fato é que me tornei um doente imaginário crônico. Porém,
gostava pra valer de pescar, caçar e caminhar. Lia mais
do que a média dos garotos americanos daquele tempo e lugar:
Oscar Wilde, Anatole France, Baudelaire e até Gide. Criei
um apego romântico por um garoto, e a gente passava os sábados
explorando velhas pedreiras, passeando de bicicleta e pescando
em lagoas e rios. Por essa época, fiquei muito impressionado
pela autobiografia de um ladrão, intitulada Você Não Pode
Vencer. O autor afirmava que tinha passado boa parte da
sua vida na prisão. Me parecia melhor que a chatice do subúrbio,
onde todo contato com a vida estava cortado. Eu encarava
meu amigo como um aliado, um cúmplice no crime. A gente
descobriu uma fábrica abandonada, quebrou todos os vidros
e roubou um formão. Fomos apanhados e nossos pais tiveram
de pagar os prejuízos. Depois dessa, meu amigo me virou
a cara, porque a nossa relação punha em risco a sua permanência
no grupo. Eu logo vi que não havia compromisso possível
com aquele grupo - os outros - e, quando dei por mim, estava
bem sozinho.
O ambiente era estéril, o adversário vivia oculto, e eu
parti para aventuras solitárias. Meus atos criminosos eram
meros gestos gratuitos, não visavarn vantagens, e, na maior
parte, não eram punidos. Eu invadia casas, ficava zanzando
lá dentro sem pegar nada. Na verdade, não tinha nenhuma
necessidade de dinheiro. Às vezes, eu percorria a região
com uma carabina 22, acertando galinhas. Dirigia como um
tarado, sem ligar pra segurança, até que um acidente, do
qual saí sem um único arranhão por milagre, me assustou
a ponto de me tornar prudente.
Entrei numa das Três Grandes universidades, onde me graduei
em literatura inglesa por falta de interesse em outro assunto.
Detestava a universidade e a cidade em que estava instalada.
Tudo ali era morto. A universidade era um estabelecimento
inglês postiço dirigido por graduados em renomadas escolas
inglesas não menos postiças. Eu vivia só. Não conhecia ninguém,
num lugar em que os estranhos eram vistos com desdém pela
fechadíssima corporação dos benquistos.
Caí por acaso num grupo de homossexuais abonados da cena
gay internacional que vivia perambulando pelo mundo e se
tropeçando nas bibocas de "entendidos", de Nova
lorque ao Cairo. Conheci um outro jeito de vida, um novo
vocabulário, referências específicas - um sistema simbólico
global, enfim, como dizem os sociólogos. Mas quase que só
dava idiota nessa turma e, depois de um curto período de
fascínio, caí fora.
Uma vez graduado, sem distinções, me deram uma pensão de
150 dólares por mês. Isso, no tempo da Depressão, quando
não havia empregos; em todo caso, eu não conseguia mesmo
pensar em nenhum emprego que me interessasse. Fiquei passeando
pela Europa durante um ano, mais ou menos. Os remanescentes
da decadência do pós-guerra vadiavam pela Europa. Os dólares
americanos podiam comprar uma boa percentagem dos habitantes
da Austria, machos ou fêmeas. Isso foi em 1936, com os nazis
avançando rapidamente.
Voltei aos Estados Unidos. Minha pensão dava para viver
sem ter de trabalhar ou trambicar. Eu ainda estava apartado
da vida, como nos tempos do subúrbio do Meio Oeste. Vivia
bestando, entre cursos de psicologia e aulas de jiu-jitsu.
Comecei a fazer psicanálise, o que durou três anos. A psicanálise
removeu inibições e ansiedades, me facilitando viver do
jeito que eu queria. Muito do meu progresso na psicanálise
foi obtido a despeito do meu analista, que não concordava
com a minha "orientação", como ele dizia. Por
fim, ele abandonou a objetividade analitica e me botou pra
fora, me acusando de "degenerado e fora-da-lei".
Eu estava mais satisfeito com os resultados da análise do
que ele.
Cinco programas de treinamento para oficiais me rejeitaram,
por motivos fisicos. Mesmo assim, o exército acabou me incorporando
com um certificado de capacidade para qualquer tipo de serviço.
Percebendo que eu não ia me dar bem no exército, apelei
para minha ficha do hospício. Certa vez, entrei numas de
Van Gogh e cortei um pedaço do dedo pra impressionar uma
pessoa em quem estava interessado na ocasião. Os médicos
do hospício nunca tinham ouvido falar em Van Gogh. Me engaiolaram
como esquizofrênico, acrescentando um diagnóstico de "tipo
paranóide", para justificar o fato de eu saber onde
estava e quem era o presidente da República. Quando o exército
viu aquele diagnóstico, fui logo dispensado, com a ressalva:
"Este homem não deve nunca mais ser recrutado ou reclassificado".
Depois de abandonar o breve convivio com o exército, arranjei
uma série de empregos. Naquela época já era possivel arrumar
qualquer tipo de trabalho que se quisesse. Trabalhei como
detetive particular, exterminador de insetos e roedores
e barman. Trabalhei em fábricas e escritórios. Fui xeretar
nas redondezas do crime. Contudo, meus 150 dólares mensais
estavam sempre à mão. Eu não precisava ganhar dinheiro.
Gostava da extravagância romântica de pôr em risco a minha
liberdade em atos criminosos de valor simbólico. Foi por
esse tempo, e nessas circunstâncias, que eu entrei em contato
com drogas pesadas, me tomei viciado, e, em função disso,
passei a ter necessidade real de dinheiro, que até então
desconhecia. Sempre se formula a mesma questão: por que
um sujeito se toma viciado?
A resposta é que, em geral, ele não pretende se tomar viciado.
Ninguém levanta de manhã e resolve se viciar. Demora pelo
menos dois meses, com duas aplicações diárias, para se ficar
realmente dependente. E ninguém sabe de fato o que é fissura
por droga pesada até passar por vários períodos de dependência.
Eu demorei quase quatro meses para ficar dependente pela
primeira vez, e, mesmo então, os sintomas da privação da
droga foram suaves. Não acho exagero afirmar que é preciso
um ano e várias centenas de injeções para se produzir um
verdadeiro viciado.
Outras questões, é claro, poderiam ser colocadas: por que
você resolveu experimentar entorpecentes? Por que continuou
a usá-los o tempo suficiente para se viciar? Bem, você se
vicia em entorpecentes quando não tem motivações fortes
que apontem para outras direções. A droga pesada ganha por
desistência. Eu a experimentei por curiosidade. Ia tomando
umas picadas sempre que descolava a droga. Acabei fisgado.
A maioria dos viciados com quem conversei relata a mesma
experiência. Ninguém começou a usar drogas por algum motivo
especial. Apenas foram tomando seus picos até se verem fisgados.
Quem nunca foi viciado não consegue entender o que significa
precisar da droga pesada com a urgência do vicio. Ninguém
decide virar viciado. Certa manhã o sujeito acorda fissurado
e pronto -é um viciado.
Nunca me arrependi da minha experiência com drogas. Acho
que estou melhor de saúde agora, depois de ter tomado drogas
pesadas em vários períodos da vida, do que estaria se nunca
tivesse me viciado. Quando se pára de crescer, se morre.
Um viciado nunca pára de crescer. A maioria dos usuários
costuma cortar a dependência periodicamente, o que envolve
o encolhimento do organismo e a substituição das células
dependentes da droga. Um usuário está em contínuo processo
de encolhimento e crescimento no seu ciclo diário de carência
e satisfação através da picada. Os viciados, na maioria,
parecem mais jovens do que são. Recentemente, cientistas
fizeram experiências com um verme que obrigavam a encolher
pela privação de alimento. Repetindo periodicamente esse
processo de encolhimento, mantinham o verme em crescimento
contínuo, o que prolongou indefinidamente sua vida. Se um
junky (viciado em droga pesada - junk) pudesse se manter
num constante estado de dependência e cura, talvez conseguisse
viver até uma idade assombrosa.
Droga pesada -junk - é uma equação celular que ensina ao
usuário (junky) verdades de validade universal. Aprendi
muito usando junk: vi a vida sendo medida em contagotas
com solução de morfina. Senti a privação agônica da droga-
a chamada "fissura" -e o alivio prazeroso quando
as células sedentas de junk bebiam da agulha. É possível
que todo prazer seja apenas alivio. Aprendi o estoicismo
celular que a droga ensina ao usuário. Vi uma cela repleta
de junkies fissurados, silentes e imóveis em suas misérias
estanques. Eles sabiam o quanto era inútil reclamar ou se
mover. Sabiam que ninguém ali podia ajudar ninguém. Não
há nenhum recurso, nenhum segredo que alguém possua e possa
te oferecer . Aprendi a equação junk. Droga pesada não é
um meio de aumentar o prazer de viver. Junk não é um barato.
É um meio de vida."
William Burroughs morreu em 02 de agosto de 1997, de
ataque cardiáco.
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