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É
O budista da poesia norte-americana, personagem principal
do luminoso Dharma Bums, de Kerouac, onde aparece escalando
montanhas e realizando com fervor a cerimônia do chá, sob
o nome de Japhy Ryder. Sua autobiografia:
"Nasci
em 1930, em San Francisco, e cresci numa fazenda ao norte
de Seattle, no estado de Washington. Desde uma idade muita
tenra me descobri tomado por um fascínio indescritível diante
do mundo natural; uma atitude de gratidão e maravilhamento.
Ganhei uma bolsa do Reed College e me formei em mitologia
em 1951. Fiz curso de linguística na Universidade de Indiana
e depois vagabundei bastante, trabalhando como lenhador
e guarda florestal, atividade que alternava com estudos
de chinês clássico em Berkeley até 1956, quando fui para
o Japão receber o treino formal Zen. Estive no Japão de
maio de 1956 a agosto de 1957; depois trabalhei num petroleiro
até abril de 1958, visitando os portos do Mediterrâneo e
do Pacífico; fiquei em San Francisco até janeiro de 1959
e então retornei ao Japão. Regressei para o ocidente em
1967, casado com uma japonesa (Masxa) e com um filho (Kai)
, para me instalar no vale de Nevada City e levar uma vida
solitária com minha família."
Considerado
pelos críticos como, "magnífico artesão da palavra",os poemas
de Snyder estão impregnados de natureza, de magia, de dança
e ecologia tribal dos índios norte-americanos.
Observacões
Sobre as Tendências Religiosas
de
Como nos Velhos Tempos, de Gary Snyder
Tradução de Ciro Barroso.
L&PM editores.
(...)
É bom
lembrar que todas as religiões contêm noventa por cento
de fraude e são responsáveis por numerosos males sociais.
Mesmo assim, dentro da geração beat verifica-se a
existência de três tendências:
1.
Busca da visão e da iluminação. Esse resultado é obtido
geralmente pelo uso sistemático de drogas. A marijuana é
um recurso de consumo diário e o peiote é o verdadeiro estimulante
da percepção. Tanto um como o outro são complementados às
vezes por práticas iogues, álcool ou similares. Embora uma
boa parte de auto-consciência possa ser obtida pelo uso
inteligente das drogas, o hábito de "drogar-se" não conduz
a nada porque falta exatamente inteligência, vontade e compreensão.
Uma sensação puramente pessoal, obtida às custas de um tóxico,
não beneficia ninguém.
2.
Amor, respeito à vida, abandono, Whitman, pacifismo, anarquismo,
etc. Todas essas tendências são provenientes de inúmeras
tradições, entre as quais a religião Quakers, o Budismo
Shinshu, o Sufismo, etc. Todas são frutos de um coração
generoso e apaixonado. Em suas manifestações mais dignas,
essas tendências levaram algumas pessoas a condenarem ativamente
as guerras, fundar comunidades e amarem-se umas às outras.
Em parte, elas também são responsáveis pela mística dos
"anjos", a glorificação das viagens a pé e das caronas,
bem como por uma forma de entusiasmo inconsciente. Se respeitam
a vida, não respeitam a sabedoria da impassibilidade e a
morte. E essa é uma de suas falhas.
3.
Disciplina, estética e tradição. Essas tendências são
bem anteriores ao surgimento oficial da geração beat.
Diferenciam-se da doutrina "Tudo é um" na medida em que
seus praticantes estabeleceram uma religião tradicional,
tentaram incorporar o sentimento de sua arte e de sua história,
e praticam qualquer ascese que for necessária. Uma pessoa
pode tornar-se um dançarino aimu ou um xamã yurok, ou até
mesmo um monge trapista, se ela realmente o deseja. O que
falta nesse tópico, é o que os dois primeiros possuem, ou
seja, uma existência perfeitamente adaptada à realidade
do mundo e percepções realmente verdadeiras do inconsciente.
A conclusão
prosaica é a seguinte: se uma pessoa não for capaz de compreender
todos esses aspectos - contemplação (que não seja pelo uso
de drogas), moralidade (que para mim significa protesto
social) e sabedoria - ela não estará à altura de levar uma
autêntica vida beat. Mesmo assim, poderá ir bastante
longe nessa direção, o que é preferível que ficar rodando
pelas salas de aula ou escrever tratados sobre o budismo
e a felicidade das massas, como os caretas fazem com tanto
sucesso.
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