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Por
Gléber Pienez
Jornal ANCapital, 19 de janeiro
de 1999
À sua época, ele foi o grande responsável
pelo sucesso do Graham's Magazine, primeira das grandes
revistas americanas modernas, mensário de maior tiragem
em todo o mundo. Crítico mordaz, todavia justo, tinha
tanta facilidade em despertar admiração quanto
em criar inimigos a cada linha que publicava. Antes disso,
havia sido elogiosamente recomendado pelo senado e pelo
próprio secretário de guerra à Academia
Militar de West Point, reduto da tradicional elite americana.
Amigo de Charles Dickens (autor de "Oliver Twist"
e "Barnaby Jones"), filho único de uma
rica família de comerciantes, estudou nas melhores
escolas da costa leste americana, da Escócia e da
Inglaterra, onde morou por cinco anos.
Até o dia de sua morte, preparou precioso legado
composto de poemas (sua obsessão), contos, críticas,
ensaios e artigos que seduziram primeiro o público
francês e só depois, ironicamente, americanos
e ingleses. Para o argentino Jorge Luís Borges, Poe
foi o criador do romance policial como gênero literário,
pai de Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle e do Hercule
Poirot de Agatha Christie, entre todo os outros. Para Charles
Baudelaire, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, foi
alma gêmea em vida e obra, um exemplo a ser seguido.
Júlio Cortázar o tem como marco da literatura
norte-americana, um compulsivo criador de personagens intensos.
Foi fonte de inspiração para Mallarmé,
Stephen King, Arthur Rimbaud, Paul Valéry, Lautréamont,
H. P. Lovecraft, Dostoiévski, Júlio Verne,
Apollinaire, espalhando generosamente o brilho de sua contribução
entre sedentos músicos, coreógrafos, quadrinistas
e cineastas. O jornalista Ivan Schimdt, seu biógrafo
mais recente, confiante na abrangência e universlidade
da obra, recomenda um olhar mais atento em sebos e bibliotecas
à procura de algum exemplar perdido do mestre. Edgar
Allan Poe figura entre os maiores nomes da literatura universal
e faz os milhares de nos da evolução humana
parecerem ter valido a pena.
A vida do gênio, contudo, não refletiu a glória
e o luxo de sua obra. Seus 40 anos de existência lhe
reservaram apenas míseros momentos de alegria. Poe
foi infeliz, um pária, um deserdado, um abandonado,
um viciado, um amante não correspondido, endividado,
homem ao qual cabem todos os adjetivos decorrentes da ação
do azar e da desgraça. A história tratou deste
compulsivo com a mesma injustiça dispensada a outros
gênios e só revelou sua importância após
a morte, em 1849. Em vida, Poe colecionou reveses.
Nasceu em 19 de janeiro de 1809, filho de um paupérrimo
casal de atores mambembes. O pai David, doente, desapareceu
quando o pequeno tinha pouco mais de um ano. A mãe
Elizabeth, atriz talentosa e vítima de tuberculose,
deixava o jovem órfão antes mesmo de completar
os três. Rico exportador de fumo, o casal John e Francis
Allan assumiu a tutela do menino e deu ao futuro poeta talvez
as únicas oportunidades de sucesso em vida. Apesar
do amor de Francis, John e Edgar jamais entraram em acordo:
o pai o queria advogado, político e mesmo um comerciante.
Poe só pensava na literatura e, desde os 14 ou 15
anos, escondia-se para escrever. Elmira Royster, uma das
grandes paixões, surgiu aos seus olhos nesta época.
Aluno de direito na Universidade da Virgínia, aos
dezessete anos Poe dividia-se entre a leitura, a criação
e o vício. Desde cedo mostrava-se fraco para o álcool,
além de jogador compulsivo. Em apenas um ano longe
da família, suas farras criaram uma dívida
de milhares de dólares que, se nunca chegou a ser
liquidada, bastou para solidificar as desavenças
entre pai e filho. Longe da academia, preferiu fugir de
casa e alistar-se com o falso nome nome de Henry Le Rennét
no exército. Fugia, assim, da supervisão paterna,
dos credores, do amor esfacelado (Elmira havia de casado)
e - talvez exemplo para Sartre, Hemingway e Orwell - encontrava
na caserna o tempo para escrever. Seus bons serviços
às armas lhe renderam recomendação
para West Point, mas o sargento só tinha sentidos
para a literatura: como cadete, aguentou lá menos
de oito meses.
Nas fases de miséria (elas foram praticamente eternas),
Poe se refugiava na casa da tia Maria Clemm, dividindo espaço
com avó paralítica, o irmão igualmente
poeta e acoólotra, a jovem prima e o primo tuberculoso.
Nada o impedia de escrever, nada freava a verve desgraça.
Ao abandonar West Point, reuniu o que lhe sobrava de dinheiro
e integridade física (muito pouco), somou ao ímpeto
criativo (este, abundante) e investiu na carreira jornalística.
Vagando entre os periódicos de Baltimore, Richmond
e New York, Poe iniciou sua fase de sucesso (se é
que pode ser assim chamada) como contista e crítico.
Sempre em troca de migalhas, estampava clássicos
como "O Relato de Arthur Gordon Pym" e
"Manuscrito Encontrado Numa Garrafa" nas
páginas fugazes dos jornais. Escreveu "A
Queda da Casa de Usher", "A Conversa de
Eiros e Charmion" e o quase autobiográfico
"Willian Wilson" nesse período de
relativo reconhecimento.
Aos 23 anos, Poe casava em segredo com a prima Virgínia
(sua musa para Annabel Lee, Ligéia, Berenice, Madeline...)
de apenas 13 anos. Afundava-se cada vez mais no rum e na
morfina, atirava-se como suicida às festas, saraus
e noitadas, mas ainda mantinha o pulso com boa caligrafia,
o cérebro criativo e o vocabulário ferino.
Lançou, entre 1831 e 1848, além do já
citado "Relato", obras definitivas como "Contos
do Grotesco e do Ababesco", "Romances em
Prosa", "Eureka, Um Poema em Prosa"
e o eterno "O Corvo e Outros Poemas".
Em 1847, a bela Virgínia morre depois de longo tempo
de sofrimento e Poe começa manifestar os primeiros
sintomas de desgaste físico: problemas coronarianos
e cérebro lesado pelos aditivos punham o poeta sob
constante supervisão médica. Como os pais
verdadeiros, o jornalista fazia das viagens um necessidade
constante da profissão e, num destes deslocamentos
de barco rumo à Filadelfia, desceu em Baltimore,
certamente embriagou-se , caiu doente e morreu, praticamente
sozinho. Os médicos haviam advertido do perigo de
voltar ao copo, mas nem mesmo o casamento já anunciado
com o amor da adolescência, Elmira, colocou o indomável
sob as amarras do bom comportamento.
Mesmo
ao morrer, Poe foi um infeliz. A ironia do destino fez com
que o homem que passou a vida sob as sombras, retratando-as
com inigualável maestria, passou a brilhar apenas
após a morte, quando as brumas que arquitetou se
espalharam pelo mundo e, ao contrário das tristezas
que as deram gênese, transformaram-se em luz criativa.
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