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de
Geração Beat - Antologia
Org. por Seymour Krim
Editora Brasiliense, 1968.
O pequeno
livro de poesias de Allen Ginsberg, intitulado "Howl",
que provocou gritos de alegria entre os jovens escritores
de São Francisco, há cerca de um ou dois anos atrás, era
dedicado aos seguintes autores: Jack Kerouac ( "o novo
Buda da prosa norte-americana que deu uma ampla exibição
de inteligência em onze livros escritos na metade do número
de anos. ..criando uma prosódia bop espontânea e uma literatura
clássica original") William Seward Burroughs ("autor
do livro "Naked Lunch", um romance interminável
que vai deixar todo mundo louco" ) e Neal Cassady (
"autor do romance "The First Third",
uma autobiografia. ..que esclareceu o Buda" ) . Até
o presente momento, a saúde mental de todos foi poupada
graças ao fato do livro "Naked Lunch" não ter
encontrado um editor. Talvez não tenhamos também a oportunidade
de saber o que o Buda aprendeu lendo a autobiografia de
Neal Cassady, mas, graças às editoras Vicking e Grove, dois
clássicos originais de Kerouac foram revelados ao mundo:
os romances On The Road e The Subterraneans.
Quando On The Road apareceu no ano passado, Gilbert Milstein
comemorou o acontecimento no jornal New York Times,
declarando tratar-se de uma "ocasião histórica"
comparável à publicação do romance The Sun Also Rises,
de Hemingway, em 1920. Antes mesmo do romance ser publicado,
divulgou-se a notícia de que Kerouac era o porta-voz de
um novo grupo de rebeldes e boêmios que se denominavam a
si mesmos a geração beat; logo depois, seu rosto
fotogênico ( de barba crescida, naturalmente, com os cabelos
pretos e brilhantes caindo sobre a testa) foi reproduzido
em várias revistas de grandes tiragens. Na mesma ocasião,
Kerouac deu entrevistas a canais de televisão e foi apresentado
em uma boate de Greenwich Village, em Nova Iorque, onde,
à maneira de São Francisco, leu trechos de sua prosódia
bop espontânea com o acompanhamento de uma música de jazz.
Embora o programa na boate tenha sido um fracasso, seu livro
On The Road vendeu o bastante para permanecer durante
algumas semanas na lista dos best-sellers. 0 que não é de
admirar. Os norte-americanos têm verdadeira mania de documentos
representativos de um grupo ou de uma mentalidade, e não
podia haver nada mais fascinante, em nossa Idade da Sociologia,
do que um livro que se dizia o porta-voz da juventude. (O
fato de Kerouac estar com cerca de trinta e cinco anos não
entrou em cogitação) . Acredito além disso que o aparecimento
da geração beat foi recebido com um suspiro de alívio
por um público que se sentia importunado pela excessiva
respeitabilidade e "maturidade" da literatura
que surgiu depois da guerra. Em lugar dos magros, calvos
e dignos autores que escreviam versos irônicos com uma das
mãos enquanto com a outra trocavam a fralda do bebê, surgiu
repentinamente uma juventude irrequieta, rebelde, cheia
de vida. E por mais que a boêmia não seja especialmente
apreciada em nossos dias, sua imagem exerce ainda uma poderosa
fascinação, sobretudo nos bairros afastados e pobres onde
vive uma população de homens e mulheres que não aceitam
de bom grado sua condição social de conformistas, vendo
na boêmia uma forma de heroísmo diante da vida. É essa,
aliás, a idéia dominante do romance Marjorie Morningstar
- convencer os jovens casais que residem nos subúrbios das
grandes capitais que a condição deles é bem superior a dos
habitantes aparentemente privilegiados de Greenwich Village,
os denominados Luftmenschen ( folgados). O fato mesmo de
Herman Wouk ter se esforçado tanto para tornar esta idéia
convincente é uma boa indicação da descrença existente a
respeito dela. À primeira vista, pelo menos, a atitude boêmia
presente no romance On The Road é deveras atraente. Vemos
um bando de jovens entusiastas cruzando o país em todas
as direções (a maior parte das vezes pegando carona de carros
e caminhões, outras vezes em seus próprios carros usados)
, organizando festas "terríveis" em Nova Iorque,
Denver e São Francisco, vivendo de pouquíssimo dinheiro
(fundos educativos para filhos de combatentes, uma nota
providencial de cinquenta dólares de uma tia generosa, biscates
eventuais como datilógrafo, apanhador de fruta, guarda de
estacionamento), conversando entusiaticamente sobre amor,
Deus e salvação, fumando marijuana (mas nunca tomando heroína
ou cocaína) , ouvindo em transe músicas de jazz tocadas
em pequenos locais abarrotados de gente e dormindo, sem
nenhum problema, com jovens lindas e disponíveis. Vez por
outra há uma referência à melancolia e à tristeza, mas o
clima característico de Kerouac é a de exuberância:
"Paramos
um momento na estrada para comer alguma coisa. O cowboy
foi ver se consertava a câmara de ar do pneu sobressalente,
enquanto Eddie e eu nos sentamos para tomar nossa merenda.
Foi quando ouvi uma enorme gargalhada, a maior gargalhada
desse mundo e eis que me aparece um rústico fazendeiro
dos velhos tempos do Nebraska acompanhado de um bando
de rapazolas. Podia-se ouvir seus berros cristalinos e
rudes atravessando o campo, atravessando toda aquela extensão
de terra cinza que é o mundo deles. Todos eles em cero
riam com o fazendeiro. Um tipo curioso, que não se preocupava
com nada e tinha o maior respeito pelos outros. Pensei
comigo, Puxa, veja como esse homem ri. Isso é o Oeste,
eis-me no Oeste. Ele aproximou-se esfuziante, gritando
por Maw, a mulher, que fazia as tortas mais deliciosas
do Nebraska, e eu fui servido com uma fatia que tinha
uma montanha de sorvete em cima. "Maw, vá me buscar
alguma coisa para comer antes que eu coma as minha mãos
ou faça alguma besteira parecida." E ele sentou-se
num banco enquanto gargalhava sem parar hahaha hahaha.
"E ponha também uma colher de feijão no prato!"
berrou ele para a mulher. Era o espírito do Oeste que
estava sentado ao meu lado. Desejei conhecer sua vida
inteira e saber o que mais ele fizera durante todos esses
anos além de gritar e rir daquele jeito. Uh,Uh, exclamei
comigo mesmo, e foi quando o cowboy voltou com o pneu
e partimos em direção a Grand Island."
O
entusiasmo de Kerouac pelo fazendeiro do Nebraska faz parte
de uma idéia sua segundo a qual a origem da vitalidade e
das virtudes humanas encontra-se entre os indivíduos simples
do campo e os grupos urbanos da classe pobre (negros, vadios
e prostitutas ) .Segundo ele, a vida em Nova Iorque é a
de
"milhões
e milhões de pessoas que se agitam incessantemente às
voltas com o dinheiro. ..agarrando, tomando, dando, suspirando,
morrendo, até o momento de serem enterradas naqueles horrendos
cemitérios que estão situados depois de Long Island",
enquanto
que o restante da América do Norte é povoado quase que exclusivamente
pelos eleitos. Essa sua atitude tem muito em comum com uma
superstição popular generalizada, se bem que por outros
aspectos ela se assemelha à opinião de Nelson AIgren
segundo a qual os vadios, as prostitutas e os marginais
viciados em drogas são gente mais interessante do que os
funcionários de escritório ou os operários em geral. A diferença
entre um e outro, está no fato de que Algren detesta a respeitabilidade
da classe média por razões políticas e morais - a classe
média explora e persegue os mais desfavorecidos - enquanto
que Kerouac, que é inteiramente apolítico, parece acreditar
que a respeitabilidade é um indício de morte espiritual
e não de corrupção moral. "As únicas pessoas que
contam para mim," diz Sal Paradise, o
narrador de On The Road, "são os loucos,
os loucos pela vida, os loucos por uma conversa, os loucos
para serem salvos, que desejam tudo ao mesmo tempo, os que
nunca bocejam ou dizem alguma coisa banal, mas ardem, ardem,
ardem à maneira de fabulosos fogos de artifício que explodem
como aranhas coloridas por entre as estrelas...". Essa
tremenda ênfase na intensidade emocional, a afirmação de
que o estado de euforia provocado por excitantes é a mais
desejável de todas as condições humanas faz parte integrante
da ideologia da geração beat, e a distingue
radicalmente do espírito boêmio do passado. A boêmia de
1920 representava uma negação do provincialismo, do patriotismo.
excessivo e da hipocrisia moral da vida norteamericana
- vida essa que, de fato, era ainda, nas suas características
culturais, a de uma pequena cidade do interior. A boêmia,
por conseguinte, era um movimento criado em nome da civilização;
seus ideais eram a inteligência, a cultura e os refinamentos
espirituais da existência. A figura literária típica de
1920 era a do homem do centro-oeste (fosse ele Hemingway,
Fitzgerald, Sinclair Lewis, Eliot, Pound) que havia fugido
de sua cidade natal para Nova Iorque ou Paris em busca de
uma forma de vida mais livre, mais expansiva e esclarecida
do que era possível nos estados do Ohio, Minnesota ou Michigan.
O radicalismo político que forneceu o clima característico
do movimento boêmio de 1930 não alterou fundamentalmente
o aspecto urbano e cosmopolita do de 1920. No que tinha
de melhor, o radicalismo de 1930 estava marcado por uma
profunda seriedade intelectual e seu objetivo era uma sociedade
na qual os frutos da civilização seriam repartidos de forma
mais equitativa por um número cada vez maior de pessoas
- até que finalmente por todos. O espírito boêmio de 1950
é algo totalmente diverso. Ele é inimigo da civilização,
adora o primitivismo, O instinto, a energia. o "sangue".
Seus raros aspectos intelectuais limitam-se a algumas doutrinas
místicas, filosofias irracionais e à psicologia reichiana
de esquerda. A única forma de arte que os novos boêmios
praticam é o jazz, especialmente na sua variedade cool.
A predileção que revelam pela linguagem bop é uma forma
de demonstrar solidariedade com a primitiva vitalidade e
espontaneidade que encontram no jazz. Desprezam, por isso,
a linguagem coerente e racional, uma vez que, sendo um produto
da mente, é segundo eles uma forma de morte. Ser racional
é admitir que não se possui sentimento (pois como poderiam
os sentimentos autênticos serem expressos por uma linguagem
correta?), é confessar-se incapaz de maravilhar-se diante
de tudo (Kerouac maravilha-se diante de tudo dizendo "Obal"),
é admitir que se é provavelmente impotente. Em uma das extremidades
da linha, esse frenesi transforma-se em violência e criminalidade,
enquanto a parte central é dominada pelo vício de tóxicos
e pela loucura. A poesia de Allen Ginsberg, com sua lúgubre
orgia apocalíptica de "jovens boêmios com cabeças de
anjo", revela o lado mais sombrio do novo espírito
boêmio. Kerouac é mais ameno. Ele não demonstra grande interesse
pela violência. A criminalidade que admira é a do tipo inofensivo.
O herói do romance On The Road, Dean Moriarty ,
possui uma curiosa folha corrida:
"Dos
onze aos dezessete anos, ele passou a maior parte do tempo
em reformatórios. Sua especialidade era roubar automóveis,
correr atrás de garotas que saíam das universidades à
tarde, leva-Ias para lugares distantes, possuí-las e voltar
para a cidade onde dormia em qualquer banheira de hotel".
A criminalidade de Dean, porém, como o autor nos confessa,
"não era do tipo amarga ou revoltada; pelo contrário,
era o resultado de um excesso de vitalidade, de uma alegria
tlpicamente norte-americana, era bem oeste, como o vento
oeste, uma ode às planícies americanas, algo novo, há
muito profetizado, há muito esperado ( ele só roubava
carros com a intenção de dar alegres passeios)".
De
fato, os boêmios que encontramos nos romances de Kerouac
comportam-se geralmente dentro da lei. No romance The
Subterraneans, um bando de rapazes embriagados rouba
uma carrocinha durante a noite e deixam-na em frente ao
edifício onde mora um conhecido deles. O narrador da história
os critica severamente por "ameaçarem a tranquilidade
do meu amigo". Quando Sal Paradise (no romance
On The Road) furta alguns alimentos da cozinha de um grupo
de trabalhadores itinerantes, junto aos quais trabalhou
algum tempo como guardador de barraca, o narrador comenta:
"De repente me ocorreu que todo mundo na América
nasce com espírito de ladrão" -O que é, evidentemente,
uma maneira bem curiosa do autor desculpar o roubo cometido
como sendo uma travessura de criança. Seja como for, Kerouac
sente-se atraído pela criminalidade, o que nos parece um
fenômeno mais significativo do que ele tentar pôr um freio
nos seus impulsos destrutivos. O sexo ocupou sempre um lugar
privilegiado na boêmia: fazer amor foi sempre uma das mais
enfáticas demonstrações de liberdade boêmia frente ao convencionalismo
dos padrões morais burgueses; isso inclui, naturalmente,
a negação tácita do conceito social segundo o qual o sexo
só é permitido no casamento e com a finalidade da procriação.
Ao mesmo tempo, levar uma vida sexual "promíscua"
correspondia a afirmar a validade da experiência sexual
independente de quaisquer outros fatores. O "significado"
do sexo para o espírito boêmio, por conseguinte, era ao
mesmo tempo social e individual, um elemento básico na ideologia
boêmia da civilização. Ainda uma vez, existe um contraste
acentuado entre essa concepção anterior e a da atual geração
beat. Os exemplos de atividade sexual ocorrem abundantemente
nos dois romances de Kerouac, anteriormente citados. Dean
Moriarty é uma "nova espécie de santo norte-americano"
e isso em parte graças à sua prodigiosa vitalidade sexual:
ele pode satisfazer a três mulheres simultaneamente e está
sempre disposto para o amor (certa vez ele possuiu uma jovem
no banco traseiro do carro enquanto o pobre Sal Paradise
tentava dormir no banco da frente) .Sal, por outro lado,
não fica atrás, e se bem que ele não seja sempre tão bem
sucedido quanto o grande Dean, seu comportamento sexual
é dos mais brilhantes. ocorre-me de memória uma aventura
com uma jovem em Denver, com uma outra num ônibus e com
uma terceira em Nova Iorque. Isso não quer dizer, evidentemente,
que não ocorram outras muitas aventuras pelo livro afora.
A heroína do romance The Subterraneans, uma jovem
preta de nome Mardou Fox, troca frequentemente de parceiros
dentro do mesmo grupo, voltando mais tarde ao primeiro (
"Esse grupo foi no seu tempo bastante incestuoso"
) , e o autor nos dá a entender que não há nada de muito
inusitado nessas mudanças. O tema principal, porém, dessas
situações sexuais não é afirmar uma maior liberdade frente
às proibições sociais comuns ( exceto no que diz respeito
à homossexualidade, prato favorito de Ginsberg: entre "os
melhores espíritos" da geração de Ginsberg que foram
destruídos pela América do Norte encontram-se aqueles
"que se deixaram enrabar pelos sagrados motociclistas
e gritavam de alegria, que amaram e foram amados por estes
serafins humanos que são os marinheiros, carícias do Atlântico
e do Mar de Caribe." O sexo nos romances de Kerouac
vem sempre acompanhado de conversas intermináveis a respeito
de se criar laços permanentes de amizade ("Embora
eu me sinta tremendamente atraído sexualmente por ela",
diz o poeta Adam Moorad no romance The Subterraneans,
"eu realmente não quero ir adiante com esse caso
não apenas por essas razões mas sobretudo porque, e essa
é a razão principal, se eu me envolver com uma mulher agora
quero que a coisa seja realmente permanente, séria e duradoura,
e não estou em condições no momento para ter uma relação
desse tipo com ela" ). Fora isso, os livros contam
muitos casos de separações e uniões, e ocorrem tantos casamentos
e divórcios no romance On The Road como nos meios
cinematográficos de Hollywood. ( Talvez seja consequência
do clima quente da Califórnia). Ouçam o que diz Sal Paradise:
"Durante todos esses anos procurei a mulher com
quem gostaria de casar. Não encontrava uma jovem sem pensar
comigo: Que espécie de mulher ela será?" Mais interessante
ainda é a recusa de Kerouac em admitir que um de seus personagens,
qualquer que ele seja, faça amor de maneira devassa ou lasciva.
Por mais casual que seja a aventura erótica, ela está sempre
ligada a sentimentos de ternura em relação à mulher. Sal,
por exemplo, tem um caso com Rita Bettencourt, em Denver.
ele a havia conhecido pouco antes.
"Levei-a
para meu quarto apôs uma longa conversa, no escuro, na
sala da frente. Ela era uma jovem delicada, simples e
verdadeira [evidentemente] e tremendamente assustada com
relação ao sexo. Disse para ela que era lindo. Gostaria
de provar isso a ela. Ela deixou, mas eu estava demasiado
impaciente e não provei nada. Ela soluçava no escuro.
"O que você espera da vida?" perguntei. Costumava
fazer essa pergunta a todas as jovens que encontrava."
Essa
cena me parece bastante tocante. Sobretudo porque o narrador
tem tanto medo do sexo quanto sua ingênua companheira. Ele
tem medo de um fiasco e preocupa-se apreensivamente com
seu desempenho. Isto porque o desempenho sexual é o alvo
mirado - desempenho e bons orgasmos". São estes os
primeiros deveres do homem e as únicas obrigações da mulher.
Tudo isso revela, como no caso citado, uma ansiedade sexual
de proporções gigantescas - ansiedade essa que surge nitidamente
no romance The Subterraneans, onde se narra a história
de amor ocorrida entre o jovem escritor Leo Percepied e
a jovem mulata Mardou Fox. Por mais que o autor afirme o
contrário, o livro não é mais do que uma interminável agonia
de medo e tremor sexual:
"Passei
noites sem conta e horas sem fim preparando-a e finalmente
aconteceu, rezei para que isso acontecesse, podia ouvi-la
respirando mais forte, esperei contra a esperança que
desta vez ela seria bem sucedida quando um ruído no corredor
(ou uma algazarra de bêbedos no quarto pegado) distraiu-a,
ela perdeu a vontade e riu para mim -mas quando ela conseguiu
finalmente terminar, ouço-a soluçar, choramingar e o sobressalto
provocado pelo orgasmo feminino intenso faz com que ela
chore como uma criança, gemendo dentro da noite, até que
quando tudo passa ela lamenta " Ah por que não durou
mais" e "Quando vamos terminar juntos?"
-"Logo, logo, tenho certeza," disse para ela,
"estamos chegando cada vez mais perto"
Bem
primitivo, bem espontâneo, bem elementar, bem beat. Para
os novos boêmios, as amizades e os casos de amor entre raças
representam aparentemente o mesmo papel de rebeldia social
que o sexo representava nos círculos boêmios do passado.
Os brancos e os pretos juntam-se livremente numa base de
completa igualdade humana, sem nenhum vestígio de hostilidade
racial. E há mais ainda: não somente o problema racial inexiste
nestes encontros, como nota-se uma verdadeira adulação dirigida
aos "pretos felizes, sinceros e ardentes da América":
"No
crepúseulo azulado caminhava com todos os músculos do
corpo doloridos por entre as luzes das ruas Vinte e Sete
e Welton, no bairro preto de Denver, desejando ser um
preto, pensando que o melhor que o mundo dos brancos havia
me oferecido não era bastante ardente para mim, não era
bastante vida, alegria, emoções, música, não era bastante
noite...Desejei ser um mexicano de Denver, ou mesmo um
pobre japonês sobrecarregado de trabalho, tudo menos ser
o que me fazia sentir tão amargurado, um "homem branco"
desiludido. Durante minha vida inteira tivera ambições
de branco.. .Passei em frente às casas dos mexicanos e
dos pretos; vozes melodiosas se ouviam, vez por outra
surgia, por uma porta entreaberta, o joelho castanho de
uma jovem misteriosa e sensual. Por trás de roseiras apareciam
os rostos escuros dos homens. Crianças pequenas estavam
sentadas, como sábios, em velhas cadeiras de balanço."
Os pretos
devem ter ficado surpresos ao saber que são tão felizes
e contemplativos. Não tenho conhecimento de uma outra pintura
mais idílica da vida dos pretos desde a época em que certos
ideologistas do sul tentaram convencer o mundo que a vida
dos escravos, nas 'antigas plantações, oferecia toda espécie
de conforto e bem estar. De qualquer forma, o amor de Kerouac
pelos pretos e outros grupos étnicos de cor está ligado
à sua adoração por tudo que é primitivo; ele não decorre
em absoluto de atitudes sociais radicais. Há, porém, uma
curiosa ironia no fato dele considerar os pretos indivíduos
mais primitivos do que os brancos, porquanto, como observou
agudamente Ned Polsky, isso corresponde a "uma forma
invertida de manter o preto no seu lugar." Mas mesmo
admitindo que os pretos norte-americanos, graças à posição
que ocupam em nossa cultura, preservararn um certo grau
de espontaneidade primitiva, o último lugar para se encontrar
uma prova disso é entre os negros boêmios. A boêmia, antes
de tudo, é a oportunidade para o preto entrar no mundo dos
brancos, e nenhum preto boêmio gostaria de ser identificado
com os pretos do Harlern ou da Dixieland. O único personagem
preto importante nos dois romances de Kerouac é Mardou Fox,
e ela é tão primitiva quanto o próprio Wilhelm Reich. A
grande verdade é que o primitivismo da geração beat
serve acima de tudo como pretexto para uma atitude tipicamente
anti-intelectual. Diante desse sentimento tão amargo e revoltado,
a repulsa que os norte-americanos manifestarn geralmente
pelos intelectuais pedantes assume ares de delicadeza. É
bem verdade que Kerouac e seus companheiros consideram-se
intelectuais ("eles são tremendamente intelectuais,
sabem tudo sobre Pound sem serem pretensiosos e não passam
os dias falando a respeito disso" ) , mas essa
declaração não passa de uma atitude. A prova aqui está:
eis um exemplo verdadeiro do que Kerouac considera uma linguagem
inteligente -"formal, brilhante e inteira, sem nenhuma
tediosa intelectualidade":
"Deixamos
para trás na estrada um menininho que jogava pedras nos
carros que passavam. "Veja isso," disse Dean.
"Um dia esse menino vai atirar uma pedra no parabrisa
de um carro, o motorista vai sofrer um acidente e vai
morrer - e tudo isso por causa desse gurizinho. Você percebe
o que eu digo? Deus existe sem dúvida alguma. Enquanto
viajamos nessa estrada estou absolutamente convencido
de que tudo existe para nossa proteção - que mesmo você,
guiando esse carro, preocupado com o volante...o carro
conserva a direção por si mesmo e você não sairá da estrada,
de forma que posso dormir sossegado. Além disso nós conhecemos
a América, estamos em casa; posso ir em qualquer lugar
da América e conseguir o que quiser porque em toda parte
é sempre a mesma coisa, conheço as pessoas, sei o que
elas fazem. Damos, recebemos e prosseguimos nosso caminho
em meio a uma ternura incrivelmente complicada, ziguezagueando
para todo os lados".
O leitor
entendeu que o autor quis dizer? Ele é formal, brilhante
e inteiro. Sem nenhuma tediosa intelectualidade; inteiramente
despretensioso. "Não havia nenhuma clareza nas
coisas que ele dizia mas o que pretendia dizer era de certa
forma puro e claro." De certa forma. Evidentemente.
Se o que ele pretendia dizer houvesse sido cuidadosamente
pensado ou precisamente expresso, o resultado teria sido
cansativo e pretensioso e sem dúvida de certa forma obscuro
e claramente impuro. Mas enquanto ele profere essas banalidades
com sua voz de gago, sem prestar nenhuma importância ao
significado que possam ter, atento unicamente aos ruídos
que se originam na sua alma (uma vez que não podem ter se
originado na sua mente) ,ele é aprovado nos testes da verdadeira
intelectualidade.
Analisemos
agora a prosódia espontânea bop de Kerouac. Essa prosódia
não deve ser confundida com a própria linguagem bop que
possui um vocabulário tão limitado (o Inglês Básico é um
tesouro de palavras comparado com ela) que não daria para
escrever um recado para o leiteiro, muito menos um romance.
Kerouac, no entanto, permanece fiel ao espírito da gíria
hipster , embora faça, de quando em quando, incursões
em território inimigo ( isto é, na língua inglesa) , revelando
uma total incapacidade de se comunicar normalmente por meio
das palavras. Seu recurso habitual, quando necessita descrever
alguma coisa, consiste em recorrer incansavelmente à mesma
meia dúzia de adjetivos que conhece: "o máximo",
"tremendo", "louco", "doido",
"fantástico" e talvez mais um ou dois. Quando
alguma coisa é mais do que simplesmente louca, doida ou
fantástica, ela passa à categoria de "realmente louca",
"realmente doida" ou "realmente fantástica".
( Todas as quantidades acima de três são definidas como
"inumeráveis", que é uma palavra usada "inumeráveis"
vezes no seu romance On The Road, e não tão inumeravelmente
no The Subterraneans ). A mesma pobreza de recursos
toma-se evidente toda vez que Kerouac introduz uma situação
que envolve sentimentos, mesmo quando não apresentam nenhuma
complexidade especial. Sua tática usual consiste em esconder-se
atrás de lugares comuns, dirigindo alusões ao leitor. Um
exemplo:
"Olhei
para ele; meus olhos estavam úmidos de constrangimento
e lágrimas. já ele ainda olhava para mim. Agora seus olhos
estavam inexpressivos e olhavam através de mim...Algo
estalou dentro de nós dois. Comigo foi o súbito interesse
por um homem que era alguns anos mais moço do que eu,
cinco anos, e cujo destino estava ligado ao meu durante
os últimos anos; o que ocorreu com ele só fiquei sabendo
ao certo pelo que ele fez mais tarde."
Se o
leitor não tem nenhuma dúvida do que trata essa cena, seja
antes, durante ou depois, pode dar-se por feliz de não ser
um quadrado. Levando-se em conta seus aspectos populares,
o estilo do romance On The Road é folclórico e lírico.
A prosa do The Subterraneans, entretanto, assemelha-se
a uma paródia do que há de pior em Faulkner. A diferença
principal consiste no fato de que Faulkner geralmente produz
uma prosa ruim quando ele se deixa levar pelo impulso de
rebuscar os lugares comuns, enquanto que Kerouac se perde
exatamente quando tenta uma certa "espontaneidade"
de linguagem. Rigorosamente falando, a espontaneidade é
uma qualidade do sentimento e não da linguagem escrita;
quando denominamos espontâneo um trecho literário, procuramos
traduzir nossa impressão de que O autor encontrou as palavras
exatas sem nenhum esforço especial; que não lançou mão de
"artifícios" ou intenções premeditadas, que seus
sentimentos se expressaram livremente, como se houvessem
fluido da pena no momento da composição. Kerouac acredita,
aparentemente, que ser espontâneo significa dizer tudo que
lhe passa pela cabeça, não importa a ordem ou a desordem
em que as palavras ocorram. Não são as palavras exatas que
ele procura (mesmo quando as conhece perfeitamente) , mas
as primeiras palavras que surgem, ou pelo menos as palavras
que melhor traduzam a emoção diretamente, sem a intelectualização,
palavras que brotam diretamente da "vida" e não
da "literatura", que saem do estômago e não da
mente. (A mente, estão lembrados, é o anjo da morte) . Por
outro lado, a prosa que surge fácil e "espontâneamente"
como resultado de sentimentos fortes, não é nunca vaga;
muito pelo contrário, ela é sempre aguda e precisa porque
está na natureza dos sentimentos fortes serem provocados
por objetos específicos. Essa idéia de que um entusiasmo
confuso, generalizado e permanente é a marca de uma grande
sensibilidade e permeabilidade, é uma concepção inteiramente
fantástica, uma idéia tão absurda quanto imaginar que a
embriaguez ou a toxicomania são estado de perfeito vigor
emocional. O resultado de um tal entusiasmo é abolir completamente
a realidade exterior. Se um posto de gasolina provoca o
mesmo sentimento de pasmo e admiração que as Montanhas Rochosas
é de se supor que tanto um quanto o outro perderam sua realidade
própria. A idéia que Kerouac faz do sentimento é tão absurda
que somente um solipsista acreditaria nela - e um solipsista,
convém lembrar, é o indivíduo que não se relaciona com nada
exterior a si mesmo. O solipsismo é a característica mais
fundamental da literatura de Kerouac. Seus romances
On The Road e The Subterraneans são tão evidentemente
autobiográficos que é quase impossível analisá-los como
ficção. Se a espontaneidade fosse realmente uma tentativa
de desfazer a distinção existente' entre vida e literatura
esses dois livros seriam um testemunho inegável disso.
"Quando nos dirigíamos para o carro, Babe escorregou
e caiu com o rosto no chão. A pobrezinha estava exausta.
O irmão dela, Tim, e eu ajudamo-la a levantar-se. Entramos
no carro; Major e Betty se reuniram a nós. Assim teve início
a triste viagem de volta para Denver." Babe
é uma moça que é mencionada raramente durante O decorrer
da história; não sabemos porque ela estava exausta nessa
ocasião, e mesmo que soubéssemos isso não nos esclareceria
nada, uma vez que não há nenhuma razão para sua presença
no romance. Mas Kerouac nos conta que ela caiu de bruços
no chão quando se dirigia para o carro. É impossível acredital
que Kerouac tenha imaginado esse episódio, que sua imaginação
haja criado um mundo suficientemente real para incluir elementos
inteiramente gratuitos. E se este fosse o caso, Babe teria
adquirido vida como um ser humano. Mas ela é apenas um nome:
Kerouac não nos diz mais nada a seu respeito. Ela entra
na história unicamente porque a irmã de um dos amigos de
Kerouac estava presente quando ele fêz uma viagem para Central
City , no Colorado, e se ela escorrega no romance é porque
ela escorregou de fato aquele dia quando se encaminhava
para o carro. Podemos dizer o mesmo de quase todos os outros
acidentes que ocorrem nos dois romances de Kerouac. Tudo
acontece acidentalmente. Nada possui uma razão dramática
para acontecer. Sal Paradise encontra com tais e tais pessoas
na estrada, com algumas simpatiza, com outras ( mais raramente)
antipatiza; trocam algumas palavras, bebem uma garrafa de
cerveja juntos, e depois se despedem. Tudo é bem desinteressante
e comum, mas para Kerouac é sempre O máximo, fantástico,
incrível. A voz que se ouve nestes dois livros é a de um
homem exclamando a todo instante que ele está vivo, enquanto
oferece aos leitores as experiências banais que lhe ocorreram
realmente na vida. Uma vez eu fiz isso, outra vez fiz aquilo
( diz ele) e, juro por Deus, tudo isso teve importância
para mim. Teve importância porque senti. Se a experiência
em questão teve tanta importância para ele, então por que
ele não consegue explicar a razão porque foi importante,
e porque insistir nesse caso? Acredito que o culto da geração
beat pelo que é primitivo e espontâneo é mais do que um
mero disfarce de sua hostilidade contra a inteligência;
ele decorre sobretudo de uma patética pobreza de sentimentos.
Os membros e os adeptos da juventude beat são rebeldes,
como se afirma, mas a revolta deles não diz respeito às
condições sociológicas ou históricas da classe média, do
capitalismo ou até mesmo da respeitabilidade humana. Ela
é antes a revolta de uma espiritualidade subdesenvolvida
e de uma alma atrofiada - ela é o patrimônio de jovens que
não sabem pensar corretamente e que odeiam todos aqueles
que o fazem; jovens que não conseguem superar o marasmo
do egoísmo e que por isso constróem definições de sentimento
de onde excluem todos os demais seres humanos que conseguem
viver, mesmo que miseravelmente, em um mundo real; jovens
que se sentem angustiados até a morte com a pungente ansiedade
sexual fomentada pela América do Norte - na sua promessa
eterna de um erotismo glorioso e na sua desdenhosa negação
de um relacionamento erótico real; jovens que sonham com
um orgasmo perfeito e inatingível que compense todos os
fracassos sexuais do mundo real. Há algum tempo atrás, Norman
Mailer sugeriu que o movimento hipster representa o
"primeiro passo em direção à segunda grande revolução
em nosso século, a revolução que não caminha para a frente,
em vista da ação e de uma distribuição de bens mais racional
e justa, mas que caminha para trás, em direção ao ser e
aos segredos da energia humana. Para dizer a verdade, irrito-me
violentamente toda vez que ouço alguém falar sobre instinto,
ser e segredos da energia humana. Todas essas idéias conduzem
geralmente ao mesmo resultado: aceitar a prática da violência.
A questão é saber se a pessoa que defende esse ponto de
vista admira o fato de alguém dar umq surra no outro ou
enterrar-lhe uma faca na barriga. A história - e especialmente
a história dos tempos modernos -, ensina-nos que existe
uma relação estreita entre ideologias de vitalidade primitiva
e uma certa propensão a considerar a crueldade e o derramamento
de sangue com complacência, senão com um inteiro entusiasmo.
A razão pela qual cito estes exemplos é que a geração beat
me surpreende como possuidora do mesmo espírito que anima
os jovens selvagens com blusões de couro que tantos vandalismos
cometerarn nos últimos anos com seus canivetes e armas de
fogo." O que pensa Norman Mailer desses deIinquentes?
O que pensa ele do bando que apedrejou um menino de nove
anos até ele morrer? Isso ocorreu no Central Park, em pleno
dia, alguns meses atrás. Ou do outro adolescente que ateou
fogo em um pobre velho adormecido em um banco, perto do
cais do Brooklyn num dia de verão? Ou daquele que agarrou
uma criança aleijada e a esfaqueou dezenas de vezes, barbaramente,
mesmo depois dela estar inteiramente morta? É isto que ele
entende por Iiberação dos instintos e pelos mistérios do
ser? Talvez seja. Pelo menos ele diz, em outro trecho de
seu artigo, que dois marginais de dezoito anos que mataram
o vigia de uma confeitaria estariarn com isso assassinando
uma instituição, cometendo um ato que "viola a propriedade
privada", idéia essa que me pareceu terrivelmente assustadora
do ponto de vista moral e que indica para onde pode levar
a ideologia do hipsterism. Sou levado a acreditar que existe
uma relação direta entre a apatia vital da classe média
norte-americana e a expansão da criminalidade juvenil durante
a década de 1950, mas creio igualmente que o crime juvenil
pode ser explicado em parte como o ressentimento dos jovens
contra os sentimentos normais, além da tentativa de negar
o mundo da inteligência, tentativa essa comum a Kerouac
e AIlen Ginsberg. Mesmo o ambiente relativamente ameno dos
livros de Kerouac pode facilmente passar à brutalidade,
uma vez que existe um grito abafado nesses livros: "Matem
os intelectuais que falam coerentemente, matem as pessoas
que ficam sentadas durante cinco minutos a fio, matem os
indivíduos que se apaixonam seriamente por uma mulher, por
um trabalho, por uma idéia." Como pode alguém pretender,
em perfeito juízo, que isso tem alguma coisa a ver com a
propriedade privada ou com a classe média? Não. O que a
geração beat visa antes do mais é afirmar a superioridade
da incoerência sobre a precisão, da ignorância sobre a inteligência,
enquanto declara que o exercício da mente e a racionalização
são formas de morte. Da mesma forma, essa geração pretende
justificar os atos sórdidos de violência na medida em que
são cometidos em nome do "instinto". Ela é responsável
ainda pela glorificação deplorável do adolescente na cultura
popular norte-americana. Sua responsabilidade principal,
em outras palavras, consiste em haver criado o antagonismo
entre estar-se contra ou a favor da inteligência.
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