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Enviado
por Márcio X. Simões
Nasci na maternidade Pró-Matre no coração
de São Paulo. Piva é um antigo nome do Veneto
(Itália do Norte). Meu avô era de Saleto, perto
de Rovigo.
O Livro da Família, que tinha lá em casa,
conta a história de um antepassado cavaleiro que
combateu nas Cruzadas. Como o avô Cacciaguida de Dante.
Só que ao voltar das Cruzadas virou herético
& começou a pregar a favor do Demônio.
Por ordem do bispo local, foi queimado na praça pública
com armadura & tudo. No momento, deve estar passando
uma temporada na IX Bolgia do Inferno de Dante. Local destinado
aos semeadores de discórdia. Os filhos fugiram da
cidade & a descendência continou.
Mas em matéria de revolta eu não preciso de
antepassados. A minha vida & poesia tem sido uma permanente
insurreição contra todas as Ordens. Sou uma
sensibilidade antiautoritária atuante. Prisões,
desemprego permanente, epifanias ,estudo das línguas,
LSD, cogumelos sagrados, embalos, jazz, rock, paixões,
delírios & todos os boys. O cinema holadês
informará.
Só acredito em poeta experimental que tenha vida
experimental. Não tenho nenhum patrono no "Posto",
nem leões-de-chacará & guarda-costas literários
nas redações de jornais & revistas.
Nada mais provinciano do que os clubinhos fechados da poesia
brasileira, com seus autores-burocratas tentando restaurar
a Ordem & cagando Regras que o futurismo, dadaísmo,
surrealismo & modernismo já se encarregaram de
destruir. A estes neozhdanovistas de todos os matizes, gostaria
de lembrar esta passagem do manifesto redigido por André
Breton & Leon Trotsky: " Em matéria de criação
artística, importa essencialmente que a imaginação
escape a toda sujeição, não se deixe
impor filiação sob nenhum pretexto. Àqueles
que nos pressionam, hoje ou amanhã, para que consintamos
que a arte seja submetida a uma disciplina que sustentamos
radicalmente incompatível com seus meios, opomos
uma recusa inapelável, e nossa deliberada vontade
de nos manter no lema: todas as licenças em arte".
Fecho também com John Cage & não abro:
"Sou pela multiplicidade, a atenção dispersa
e a descentralização, e portanto me situo
do lado do anarquismo individualista". Ou Jean Dubuffet:
"O unísssono é uma música miserável".
Precisamos de criações desprovidas de regras
& de convenções paralisantes. A poesia
é um salto no escuro como o amor. Por isso, meus
leitores preferidos são os heréticos de todas
as escolas & os transgressores de todas as leis morais
& sociais. como não sou intelectual de esquerda,
estou sempre às voltas com o problema da grana.
Pasolini começou a contagem regressiva do nosso planeta
a partir do desaparecimento dos vagalumes na Itália.
Eu poderia começar a mesma contagem regressiva a
partir do desconhecimento & desaparecimento da abelha
Jataí no Brasil. Acredito que, para a defesa do nosso
planeta, as melhores idéias, como disse Edgar Morin,
são as idéias "biodegradáveis".
Uma tarde, numa ilha esquecida do litoral sul de São
Paulo, um garoto com olhos de Afrodite me perguntou no que
eu acreditava. Respondi: Amor, Poesia & Liberdade. E
nos Ovnis também.
Introdução
aos poemas
Uma
tarde em que eu ouvia Palestrina por toda uma vida sem obstáculo,
sem a floresta do afogamento, meu companheiro surgiu no
balaústre de meu quarto seus cabelos ondulando com a curvatura
da Terra & me disse com sua desgraça de Anjo: o estado originário
da imaginação se reencontra na primeira figura da natureza
& isto é na aspereza que cobiçosa que guia sua figura através
do mundo obscuro & até o fogo - O intervalo tirou o seu
fio decapitado ente nós & o sopro da Substância de Joelhos
se perdeu de vista - O pequeno coração me reteve me flor:
Escuta eu sou o Tríptico - os pássaros me envolveram & ele
me reteve Às cinco horas eu recomeço uma vida a partir do
caprichoso hálito em que Jacob Böehme me acusa naquela tarde
de gelo & tristeza originais Meu companheiro dizia : é fácil
aprisionar alguém no perfume de uma flor Assim a Estrela
estava sólida no dente fatigado A negra dificuldade oferecia
seus ramos sem chance Seu rosto permanecia ensolarado pela
doçura Às cinco horas aquele que Devora se mostrou entre
as ondas Infantil entre as pálpebras como num enterro Soluçando
Aquele que Devora teve suas núpcias de pedra - Freud é o
Inferno Musical Nietzsche é o Paraíso
Meu companheiro é o Jardim das Delícias A Figura Negra está
impertinente com um Porta-Estandarte Heliogábalo o novo
dia recomeça Este é o único turbilhão que meus olhos possuem
- O Karma coletivo me aborrece eu acordo com uma luz que
me acena por cima dos tetos aquelas mesmas flores após a
longa chuva de corações, abanam para sempre os instantes
pegajosos que se precipitam na Rocha Eu acordo & elas existem
como luz encarnada crescendo em escala até o supremo Girassol
- Como um enorme porco verde perto de um lago o Demônio
esteve 2 noites ao meu lado plantando seus pesadelos entre
a minha mão e Sono Ele supervisionou as portas que me retêm
dentro das raízes da Mandrágora Eu viro a cabeça um órgão
multiplica & ferve uma Mensagem - Uma luz azul amortece
através da vidraça Dante & Beatriz com duas novas faces
poderiam vir até mim agora Frankenstein Rimbaud Blake todos
pelos chuveiros todos pelas paredes, estes mitos, estes
gregos adolescentes no Domingo de seus amores como pequenas
crianças enrubescendo todo mundo Ruas Praças cheias de silêncio
as árvores outra vez todos estes mitos com seus roxos corpos
nus todos chamando por mim & meu amigo para morar com eles
crânios galopantes Rimbaud Shelley Caravaggio & o braço
sorridente também Nos escuros tapetes cinzentos da luz nas
caminhadas de Sábado Nos jantares Apertando a avenida nos
bolsos alaranjados Eles mesmos, através da Terra.
Roberto Piva SP Agosto 1964

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