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Neal
Cassady é o herói insano que inspirou Kerouac a criar On
the Road - pé na estrada.Aparece no livro como Dean
Moriarty, o catalizador da aventura louca pelas estradas
da América. Filho de "um dos bêbados mais trôpegos de Larrimer
Street" de Denver, Neal passou a infância em becos imundos,
esmolando nas esquinas das grandes avenidas e entregando
a grana para o pai, que jazia atirado entre garrafas estilhaçadas,
cobertores em farrapos em ruas estreitas sem saída na parte
baixa do centro de Denver. Aos seis anos, depôs no tribunal
para livrar o velho do xadrez. Segundo Kerouac,Neal "era
o cara perfeito para a estrada, já que nasceu na estrada
quando seus pais estavam passando por Salt Lake City, 1926,
num calhambeque caindo aos pedaços."
Em
1943, depois de fugir de vários reformatórios essa "nova
espécie de Santo Americano" fez sua primeira grande viagem.
E nas páginas de On the Road ele conta tudo: "Eu
trabalhava na lavanderia Nova Era, em Los Angeles, aí falsifiquei
meus papéis e fui até o autódromo de Indiana, que ficava
a uns três mil quilômetros, com a determinação expressa
de assistir à clássica corrida de Memorial Dar, pedindo
carona de dia e roubando carros à noite pra ganhar tempo."
E depois: "'No outono seguinte, aos 17 anos, refiz o mesmo
percurso para assistir o jogo entre Notre Dame e Califórnia
em South Bend, Indiana e tinha apenas a grana para a entrada,
nem um centavo a mais e não comi absolutamente nada na ida
e na volta, a não ser o pouco que consegui mendigar de todos
os tipos malucos com os quais ia cruzando pela estrada,
e das putas também. Fui o único sujeito em todos os Estados
Unidos da América que se sujeitou a tamanhas dificuldades
somente para assistir um jogo de baseball."
Mais
tarde, Neal pôde percorrer com mais conforto (mas não menos
demência) as estradas da América: conseguiu comprar alguns
carros, como o lendário e flamante Hudson 49 de uma das
viagens de On the Road, ou o Cadillac que ele e Jack
deveriam levar de Denver a Chicago (e realmente levaram
só que o reduziram a escombros -"mais parecia uma bota enlameada
do que uma limousine flamejante; pagara o preço da noite"),
ou o velho Ford modelo 1937 com as portas amarradas por
uma corda, no qual ambos viajaram para o México na primavera
de 1950.
Maior
motorista de todos os tempos ("Cody, como qualquer outro
motorista que dirigia por aquelas estradas cheias de buracos
e tremendamente perigosas, apoiava o cotovelo na janela
e, mais do que ninguém dava a impressão de sentir-se particularmente
calmo, tranquilo e à vontade atrás do volante, com seu pescoço
grosso, musculoso, erguido e eficiente - como são os pescoços
dos grandes motoristas de ônibus - e era assim que eu o
via enquanto olhava por cima de seu ombro para a estrada
que à noite mostra apenas uma pequena parte de si mesma",
escreveu Kerouac no sublime Visions
of Cody sendo que Cody Pomeroy, é, claro, Neal Cassady
e o livro, a obra suprema da prosa "espontânea" de Jack).
Neal continuou na estrada mesmo depois que Kerouac careteou
de vez .
Tornou-se
chofer do ônibus mais alucinado de todos os tempos: o ônibus
pintado com a bandeira dos Estados Unidos no qual viajavam
o escritor Ken (Um Estranho no Ninho) Kensey e seus
Merry Pranksters, além do conjunto Greatful Dead,
dando concertos gratuitos e promovendo coloridíssimos happeanings,
nos quais aproveitavam para distribuir ácido para todos
os participantes, graciosamente. A insólita experiência
(fulminada pelo já baixo astral Ronald Reagan, então governador
da Califórnia) foi narrada por Tom Wolfe, num livro antológico,
The Electric Koll-Aid Acid Test. ( "O teste do ácido
do refresco elétrico", Editora Objetiva, 1990)
No
dia 4 de fevereiro de 1968, pouco antes de completar 42
anos, Neal Cassady foi encontrado estendido à beira dos
trilhos de trem, no deserto mexicano. Misturara (propositadamente?)
uma dose descomunal de álcool e anfetaminas. Quando o encontraram,
"era puro espírito já".
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