Driblando a Maldição
Por
Heloisa Buarque de Holanda
Texto
publicado no caderno B do
"Jornal do brasil, 10
de outubro de 1981
Hoje,
rimar poesia com pedagogia produz, no mínimo, um
razoável mal-estar. A poesia didática anda
com baixíssima cotação na bolsa da
crítica de arte; e a didática da poesia discute,
em crise, sua desburocratização. É
exatamente esse campo adverso que Waly Salomão e
Antônio Cícero elegem para a curiosíssima
performance batizada como Núcleo de Atualidades Poéticas.
Antes de mais nada, acho importante apresentar a dupla.
Waly Salomão não é de hoje que vem
aprontando. Em 1972, quando lança seu primeiro livro,
Me Segura Qu'Eu Vou Dar Um Troço, desafia e desmente
o consenso quanto à apatia e à inoperância
da produção cultural pós-AI-5. Disse
então Waly: "Este livro pouco significa para
mim se não representar uma energia propulsora, se
não apontar para a superação da asfixia
do quadro circense em que nós estamos balançando
na própria corda bamba". Me Segura pode ser
visto como um livro-recorte, montagem de fragmentos, quebra-cabeça
de flagrantes que promove o irônico casamento entre
o erudito e o bárbaro, o vulgar, o material agressivo
dos testos criminais, dos textos oficiais, ou como o define
o autor, "Um realismo de la rivage". Em certo
sentido, Me Segura surge como o desdobramento possível
na literaturadas sugestões tropicalistas de 1967/68.
Marcando sua diferença frente à literatura
marginal que então se fazia, os trabalhos de Waly
pretendem claramente sua inserção (ainda que
maldita) no sistema de produção cultural.
Letrista, parceiro de Caetano, Gil, Macalé, Moraes
Moreira & outros, editor (Ed. Pedra Q. Ronca), organizador
da revista Navilouca e do livro Últimos Dias de Paupéria,
de Torquato Neto, Waly investe ainda nas áreas do
cinema, do videotape e da fotografia onde monta a série
Babilaques com Marta Braga. Dele disse Glauber em entrevista
recente: "Acho que Waly Salomão é a matriz
da poesia baiana do tropicalismo. A poesia de Gil, Caetano,
são poesias bebidas na fonte que chama Waly Salomão."
Antonio Cícero, filósofo, mestrado nos EUA
com a tese A Consciência de Si de Kant e Hegel, foi
durante a década de 70 professor de Lógica
e de Metodologia das Ciências sociais na Universidade
Federal Fluminense e na Universidade Estácio de Sá.
Poeta e letrista, é autor, entre muitas outras, do
hit "O Lado Quente do Ser" (cf. trilha sonora
da novela Baila Comigo). Mestre Waly, o batalhador maldito
dos 70, Antonio Cícero, o poeta kantiano da triste
universidade pós-68, juntam-se agora numa parceria
inesperada e ocupam a Oficina Literária de Afrânio
Coutinho na divisa que separa o Leblon de Ipanema. Um show?
Um curso? Um espetáculo? No dizer de seus idealizadores,
a abertura de um espaço, modelo 80, para dar a palavra
ao poeta. Segundo Waly, esse projeto procura "driblar
uma coisa de maldição a que eu estava ligado,
reclarificar meus objetivos, procurar novas armas para um
momento, potencializar minha capacidade de mudar".
Já Cícero, filósofo, procura "a
forma do poeta aprender pelo contato, implementar, através
da poesia, a reflexão, a poesia como uma maneira
de falar do mundo, o remapeamento de uma atitude".
Assim, numa moderníssima coligação
com Afrânio Coutinho, os poetas pedagogos, duas noites
por semana abrem o auditório da Oficina para o que
der e vier. Lança-se mão de cenografia, livros
espalhados por toda parte, iluminação especial,
som ambiental, poetas visitantes. Textos xerocados (chamados
agora de lâminas laboratoriais) circulam com trabalhos
de Hoederlin, Mario Faustino, Dante, Murilo Mendes, Petrarca,
Carlos Drummond, Leopardi, Oswald de Andrade, Sosígenes
Costa ou Maiakovski. Ouvem-se vozes de Pound, Vinícius
de Moraes, Dylan Thomas ou a Ode à Alegria de Schiller/Beethoven.
A leitura do jornal do dia é encaminhada com novas
cores. Os 25 alunos inscritos falam, escrevem. A lógica
do jogo define uma pedagogia. Para os mais nostálgicos
e desavisados pode-se encontrar até uma paródia
da aula clássica com dever de casa, arguição,
exercício de classe e ditado. Na sala, Waly polemiza
apaixonado, enquanto Cícero desenha palavras numa
grande trip etimológica.
Para
além dos aspectos propriamente didáticos,
pode-se perceber um interesse a mais no Núcleo de
Atualidades Poéticas: algo que poderíamos
chamar de mercado cambial poético, um espaço
moderno de divulgação e invenção,
uma troca de produção e informação
que, no dizer dos organizadores, presta, de certa forma,
uma homenagem ao extinto Suplemento Dominical do JORNAL
DO BRASIL, que agora ressurgiria se fazendo "ao vivo".
Poetas, letristas e artistas gráficos convidados
trazem intervenções inesperadas. Cacaso, Caetano
Veloso, Galvão, Moraes Moreira e Erasmo Carlos dão
depoimentos e pensam a relação da música
com a poesia. Luciano Figueiredo e Oscar Ramos (os melhores
designers da praça) trazem um tape gravado com fragmentos
de poesia e dão uma aula prática de intervenção
gráfica na superfície do jornal. Poesia. Circula
pela sala um texto que diz: "Evidenciar a ocorrência
de fenômenos estranhos e não previstos ao sentido
utilitário e imediato do jornal: reciclagem espacial
e descobertas orgânicas no corpo da página
impressa". Som ambiente; o tema do filme Ladrão
de Bagdá. Sexta-feira última, Angela Mellin
leu um texto que escreveu mobilizada pela sua experiência
no N.A.P.; Haylle Gadelha apresentou ideogramas chineses
e Luís Carlos Maciel pensou e discutiu sua trajetória
desde que se declarou pós-marcusiano.
O espaço aberto por Waly e Cícero não
é fácil de ser definido. Numa primeira observação,
eu diria (estudiosa que fui de Me Segura) que se trata de
um superpoema improvisado a cada encontro, na linha Pound-Tsé-Tung,
bem ao gosto de mestre Waly. Um curso (?) de poesia onde
salta aos olhos a preocupação central com
a forma poética do próprio curso. Fragmentado,
dramatizado, não asséptico, lançando
mão despudorosamente dos recursos do show-business
e potencializando os aspectos de complementariedade dos
professores-atores: a filosofia e a poesia. O próprio
programa do curso parece sugerir mais do que qualquer opção
metodológica, a imagem de um enorme caderno de apontamentos,
estocagem de provisões para a criação
poética. Lembro-me de performance semelhante, onde
notas, impressões, recortes, interferências,
fragmentos de poemas, rabiscos, cadernos, montam-se e desmontam-se
nos 100 slides da série Babilaques, a colorida arte
poética de Waly, ou do grande jornal dramático
de Me Segura Qu'Eu Vou Dar Um Troço. Performance
ao vivo, o Núcleo de Atualidades Poéticas
investe agora nas possibilidades da dobradinha poesia-oralidade:
a declamação dos poemas, a dramatização
de textos, a pesquisa das várias formas de leitura,
a homenagem às transmissões radiofônicas
de Dylan Thomas.
Poder-se-ia ainda pensar na tradição beat
de intervenção como as incursões na
Universidade de Ginsberg,
Gregory
Corso ou Kerouak.
Pistas falsas. O projeto implícito do Núcleo
de Atualidades Poéticas talvez passe por tudo isso,
mas sua maior importância diz respeito à sintonia
que revela com certas atitudes sintomáticas da produção
cultural masi recente.
Em meio à perplexidade mais ou menos geral em que
se debate a formulação de um projeto cultural
para o espaço aberto à produção
intelectual e artística nos anos 80, alguns sinais
podem ser percebidos como possíveis tônicas
desse projeto: a atuação imaginativa no interior
de espaços legitimados, a procura não ortodoxa
de contatos, o diálogo com áreas e grupos
diversificados, a releitura dos clássicos, a preocupação
com a qualidade técnica (a respeito é interessante
lembrar o recente lançamento da cuidadíssima
Coleção Capricho, reunindo a nata dos poetas
independentes dos 70), a urgência da reavaliação
e do remapeamento. E, sobretudo, a sensibilidade para a
invenção de "novas armas para um novo
momento".
Tudo isso não significa, de modo algum, que nossos
"malditos"penduraram as chuteiras. Prova dos nove:
no quadro negro do Núcleo de Atualidades Poéticas:
o velho Baudelaire sopra para os alunos - "A civilização
não está no gás, nem no vapor, nem
nas portas giratórias. Ela está na diminuição
dos traços do pecado original."
|