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de
Os escritores, vol.2
Companhia das Letras, 1989
Trechos
da entrevista feita por Ted Berrigan da revista Paris
Review com Jack Kerouac em 1967.
Pergunta:
O que o motivou a usar o estilo "espontâneo" em On the
road?
Kerouac:: Tive a idéia de usar o estilo espontâneo
em On the road ao ver como meu velho amigo Neal Cassady
escrevia suas cartas, sempre na primeira pessoa, rápidas,
loucas, confessionais, completamente sérias, minuciosas,
com os nomes reais, no caso dele (eram cartas). Também lembrei
do aviso de Goethe - em uma profecia Goethe disse que a
literatura do Ocidente seria confessional por natureza.
Dostoiévski também percebeu isso, e poderia ter seguido
por aí, se tivesse vivido o bastante para realizar a obra-prima
que planejou, O grande pecador. Cassady também começou
seus escritos juvenis com tentativas de fazer um negócio
lento, sofrido, cheio da droga da técnica, mas ficou cheio,
como eu, vendo que não botava as coisas para fora do modo
visceral como elas brotavam. Mas seu estilo 56 me deu um
toque...é uma mentira cruel daqueles vagabundos da costa
oeste dizer que eu tirei dele a idéia para fazer On the
road.
Todas as cartas que me escreveu falavam do tempo em que
era mais jovem, antes que eu o conhecesse, uma criança com
o pai etc., e das experiências seguintes da adolescência.
A carta que ele me mandou tem a fama injusta de possuir
treze mil palavras. ..Não, o texto de treze mil palavras
foi The First third, que ele conservou em seu poder.
A carta, quer dizer, a maior carta, tinha quarenta mil palavras,
veja bem, um pequeno romance completo. Foi a maior obra
escrita que já vi, melhor que qualquer um faria nos Estados
Unidos - ou pelo menos dava para Melville, Twain, Dreiser,
Wolfe e sei lá quem mais tremerem na sepultura. Allen Ginsberg
pediu esta carta enorme emprestada. Depois que leu, passou
para um sujeito chamado Gerd Stern, que morava em um barco
- casa em Sausalito, Califórnia, em 1955, e esse cara perdeu
a carta, deve ter deixado, cair dentro d'água. Neal e eu
a chamávamos de Joan Anderson Letter, por conveniência.
Contava tudo sobre um fim de semana de Natal em salões de
bilhar, quartos de hotel e prisões de Denver., estava cheia
de casos hilariantes, e trágicos também, tinha até o desenho
de uma janela, com as medidas, para ajudar o leitor a entender,
e muito mais, Veja bem: esta carta teria sido publicada
com o nome de Neal, se fosse possível encontrá-la. Mas,
como você sabe, era uma carta para mim, propriedade minha,
e Allen não poderia ter sido tão descuidado com ela, nem
o cara do barco. Se nós pudéssemos descobrir esta carta
de quarenta mil palavras, faríamos justiça a Neal. Além
disso, gravamos várias conversas rápidas por volta de 1952,
e as ouvimos várias vezes, nós dois pegamos o segredo do
código para contar uma história, e percebemos que era o
único jeito de registrar a velocidade, a tensão e as bobagens
deslumbradas da época. ..é o bastante?
Pergunta:
Em sua opinião, de que maneira este estilo se modificou,
desde On the road?
Kerouac: Que estilo? Ah, o estilo de On the road.
Bem, como eu disse, Cowley mexeu no texto original, sem
que eu pudesse reclamar. Depois disso, todos os meus livros
foram publicados do modo como eu os escrevi, como já falei,
e o estilo tem variado desde a escrita rápida altamente
experimental de Railroad Earth até o estilo místico
voltado para dentro de Tristessa, da loucura confessibnal
à la Memórias do subterrâneo de Dostoiévski em The
subterraneans (Os subterrâneos) e a perfeição dos três
reunidos em Big Sur (Big sur), que conta uma história
simples no estilo fluente da prosa literária melosa, até
Satori em Paris, que é, na verdade, o primeiro livro
que escrevi com bebida ao lado (conhaque e bourbon) ...Sem
falar em Book of dreams (O livro dos sonhos), no
estilo de uma pessoa que mal acordou, escrevendo a lápis
na beira da cama, sim, a lápis, que trabalho! Olhos congestionados,
a mente insana confundida e mistificada pelo sono, detalhes
que pipocam e que você não entende o significado, enquanto
escreve.
Pergunta:
É verdade que você datilografou o original de Naked lunch
para Burroughs em em Tânger?
Kerouac: Não. ..só o começo. Os dois primeiros capítulos.
Eu tinha pesadelos, quando ia para a cama. ..um monte de
besteiras saindo de minha boca. Datilografar aquele livro
estava me provocando pesadelos. ..Eu dizia, "Bill". E ele:
"Continue batendo". Ele disse: "Comprei a porra do fogareiro
para você, aqui, no norte da Africa, sabia?". É difícil
conseguir um fogareiro ... entre os árabes. Eu acendia o
fogo, pegava as cobertas e um pouco de fumo, ou "kif", como
diziam lá. ..Ou, de vez em quando, um pouco de haxixe ...
Lá é legal, por falar nisso. ..E ia batendo tac-tac-tac-tac-tac-tac,
e quando ia para a cama, à noite, aquelas coisas ficavam
saindo pela minha boca. De repente chegaram outros caras,
como Alan Ansen e Allen Ginsberg, e estragaram todo o original,
porque não o datilografaram do jeito que ele o escreveu.
Pergunta:
A Grove Press tem lançado os livros dele da Olympia Press
com uma porção de mudanças e acréscimos.
Kerouac: Bem, na minha opinião Burroughs não produziu
nada de atraente para nossos corações atormentados desde
que escreveu Naked lunch daquele jeito. A única coisa
que ele faz agora é um negócio fragmentado, que se chama.
..quando você escreve uma página em prosa, e depois escreve
mais uma... aí você dobra, corta e junta tudo...(cut-ups)
e outras merdas do gênero...
Pergunta:
E o que você diz de Junkie (Junky - Drogado),então?
Kerouac: É um clássico. Melhor que Hemingway - é
que nem Hemingway, até um pouco melhor. Diz o seguinte:
Danny chega em minha casa uma noite, e diz, ei, Bill, me
empresta o porrete? Um porrete - você sabe o que é um porrete?
Saroyan: Um cassetete?
Kerouac: Isso, um cassetete. Bill conta: " Abri a
gaveta de baixo, e puxei o porrete, guardado embaixo das
camisas finas. Dei para Danny e disse: 'Vê se não perde
isso, Danny' - Danny diz: 'Não se preocupe, não vou perder'".
Ele vai embora e perde. Porrete. ..cassetete. ..isso sou
eu. Porrete. ..cassetete.
Pergunta: Isso é um haicai: porrete, cassetete, isso
sou eu. Melhor anotar.
Kerouac: Não.
Pergunta: Acho que vou anotar. Tudo bem se eu ficar
com ele?
Kerouac: Enfia no CU, com gasolina azul.(Op your
ass with Mobil gas).
Pergunta:
Quando conheceu Allen Ginsberg?
Kerouac: Primeiro conheci Claude.(trata-se provavelmente
de Lucien Carr - N. do Ed.) Aí conheci Allen, e depois conheci
Burroughs. Claude entrou pela saída de incêndio. ..deram
tiros no beco. Estava chovendo, e minha mulher falou: "Lá
vem o Claude". Então aparece aquele cara loiro, pela saída
de incêndio, todo molhado. Eu disse: "O que está acontecendo?
Que diabo é isso?". Ele diz: "Estão atrás de mim". No dia
seguinte chega Allen Ginsberg, trazendo livros. Tinha dezesseis
anos e orelhas de abano. Ele disse: "Bem, a discrição é
a melhor medida do valor!". Eu disse: "Cala a boca, seu
intrometido". No dia seguinte apareceu o Burroughs, vestindo
um temo listado de algodão, junto com o outro cara.
Pergunta:
Que outro cara?
Kerouac: 0 cara que acabou dentro do rio. Era um cara
de Nova Orleans, que Claude matou e jogou no rio. Ele o
esfaqueou doze vezes, no coração, com um canivete de escoteiro.
Claude, quando tinha catorze anos, era o menino loiro mais
lindo de Nova Orleans. Ele entrou para os escoteiros...o
chefe dos escoteiros era uma bicha ruiva gorda, que estudou
na Universidade de St. Louis, se não me engano. Ele já tinha
ficado apaixonado por um cara muito parecido com o Claude,
em Paris. Esse cara caçou Claude pelo país inteiro. Por
causa dele, Claude já fora expulso de Baldwin, Tulane e
do curso de preparação em Andover...,um caso de viadagem,
mas Claude não é viado.
Pergunta:
0 que diz da influência de Ginsberg e Burroughs? Você alguma
vez teve noção do marco que os três foram na literatura
americana?
Kerouac: Eu estava decidido a ser um "grande escritor",
entre aspas, como Thomas Wolfe, sabe. ..Allen vivia lendo
e fazendo poesia. ..Burroughs lia muito, e andava por aí
olhando as coisas. ..Já escreveram, muitas e muitas vezes,
sobre a influência que exercemos uns sobre os outros. ..Nós
éramos apenas três personagens curiosos, na grande e curiosa
cidade de Nova York, circulando pelas universidades, bibliotecas
e cafés. Você vai encontrar um monte de detalhes em Vanity...em
On the road, onde Burroughs é Bull Lee e Ginsberg
é Carlo Marx.
(...)
Pergunta:
O que foi que reuniu vocês todos nos anos 50? O que havia
para unir o pessoal da "geração beat"?
Kerouac: Bem, geração beat foi só um nome
que usei no original de On the road para descrever
caras como Moriarty, que percorriam o país de carro, atrás
de serviços avulsos, garotas e farras. Mais tarde foi aproveitado
por grupos esquerdistas da costa oeste, e ganhou um sentido
de "rebelião beat" e "insurreição beat" e outras bobagens.
Eles só queriam se agarrar a um movimento qualquer da juventude,
para atingir seus objetivos políticos e sociais. Eu não
tive nada a ver com isso. Eu era um jogador de futebol,
estudante bolsista da universidade, marinheiro da frota
mercante, guarda-freios de trens de carga, preparador de
sinopses, secretário...e Moriarty-Cassady era um cowboy
de verdade no rancho de Dave Uhl, em New Raymer, Colorado...Que
tipo de beatnik é este?
Pergunta:
Havia alguma noção de "comunidade" no meio da turma beat?
Kerouac: A sensação de comunidade foi largamente
inspirada pelas mesmas pessoas que já mencionei, como Ferlinghetti
e Ginsberg. Eles vivem com a cabeça cheia de socialismo
e querem que todo mundo viva em uma espécie de kibbutz frenético,
com companheirismo e tudo mais. Eu era um solitário. Snyder
não é igual a Whalen, Whalen não é igual a McClure, eu não
sou igual a McClure. McClure não é igual a Ferlinghetti,
Ginsberg não é igual a Ferlinghetti, mas todos nós gostávamos
de tomar vinho, de qualquer maneira. Conhecíamos milhares
de poetas e pintores e músicos de jazz. Não havia uma "turma
beat", como você falou...O que me diz de Scott Fitzgerald
e sua "turma perdida", ou de Goethe e da "turma de Wilhelm
Meister"? O assunto é muito chato. Me passa aquele copo.
Pergunta:
Bem, e porque eles se afastaram, no começo dos anos 60?
Kerouac: Ginsberg começou a se interessar por política,
pela esquerda... como Joyce, eu disse a mesma coisa que
Joyce disse a Ezra Pound nos anos 20: "Não me amole com
a política, a única coisa que me interessa é estilo".
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