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de Geração Beat - Antologia
Organizado por Seymour Krim"
Editora Brasiliense, 1968.
"Como
vocês vêem,não temos com que nos preocupar," disse
Will Petersen, enquanto nós quatro caminhávamos em direção
a uma pastelaria no centro da cidade, "eles enterraram
na colina um general que viveu 300 anos & o Monte Hiei,
situado no nordeste da cidade, afugenta os maus espíritos".
Assim, não havia muito com que nos preocupar: Quioto é um
quadrado cortado em todas as direções como a velha cidade
de Ch'ang-an; morros verdejantes cercam seus três lados,
com clareiras abertas aqui e ali como numa pintura' cubista;
dois riachos -ao gosto das trutas -atravessam a cidade;
não possuem trutas, porém, e são chamados de rios pelos
habitantes do lugar. É uma cidade do tamanho de Portland,
no Estado do Oregon; nunca foi bombardeada, as casas são
feitas de madeira sólida, as ruas são estreitas & sujas,
cobertas de pedras, os telhados baixos & inclinados,
de várias alturas, geralmente cor de chumbo, recebendo luz
de todos os lados; fora isso, há uma quantidade de pinheiros
plantados por toda parte. O centro da cidade é animado como
em qualquer
Outra
cidade, porém mais divertido, repleto de táxis, filas intermináveis
de estudantes, vestidas com roupa de marinheiro, que vêm
do interior, ou que estão visitando a cidade; sem falar
nas velhas camponesas que vêm a passeio. Flanam pelas ruas
repletas de cafés e bares vistosos, que se parecem exteriormente
com os de Stratford-on-Avon & por dentro com a sala
de visita de Christina Rossetti ( influência ocidental)
- mas o que todas essas pessoas visitam realmente são os
santuários & templos japoneses antigos & Quioto
tem milhares deles. Se bem que muita gente não leva mais
a sério o aspecto religioso da cidade. Em Tóquio, um conhecido
nos contou a seguinte história: quando um turista vai a
uma casa de família em Quioto, o dono da casa sente-se orgulhoso
em lhe esclarecer que a escova de dentes que ele comprou
na cidade foi feita à mão em uma fábrica que existe há 500
anos e que passou de pai para filho durante esse tempo.
Todos os habitantes da cidade, com exceção das moças que
servem nos bares, continuam a fazer o mesmo trabalho de
nove gerações anteriores. Não se vê muitos brancos na cidade,
mas os poucos que aí residem estão apaixonados pelo lugar
& todos por diferentes razões. Petersen (um pintor originário
de Berkeley) está hospedado num colégio de moças onde descobriu
o beisebol graças a essas jovens de dezoito anos, com aparência
de doze, que passam os dias fazendo ginástica em baixo de
sua janela. Lindley Hubbell, o poeta, está encantado com
o teatro, não perde um espetáculo & não dá uma palavra
enquanto a peça está sendo representada: são geralmente
cinco horas de expectativa & atenção girando em torno
do amor, cólera ou remorso, ao som de flautas, tambores,
com números de dança & cantos. A peça só termina quando
tudo foi visto e revisto. Burton Watson conhece atalhos
que levam a templos escondidos & que se acham espalhados
entre Quioto e Nara; ele se ocupa também na tradução de
antigas histórias chinesas, aproveitando o conhecimento
que possui do idioma japonês. Phil Yampolsky, também historiador,
adora falar no dialeto de Quioto; provoca o riso nos velhos
mais sisudos com uma repentina gíria introduzida na conversa.
Walter Nowick ensina piano para ganhar a vida & já faz
sete anos que se levanta todos os dias de madrugada para
ir visitar seu idoso mestre Zen. Quioto possui também, entre
seus nativos, alguns tipos fantásticos. Um escultor moderno,
de nome Tsuji, com cerca de cinqüenta anos de idade, vive
com a mulher & as filhas em uma minúscula casa repleta
de máscaras dos mares do sul & da Mrica, sem falar nos
livros Sutra devorados pelas traças.
Por
intermédio dele, ficamos sabendo da existência de um sacerdote
budista chamado Mokujiki comedor de Madeira", descoberto
recentemente, & que viveu cerca de duzentos anos atrás.
Era um velho feliz que fazia uma grande escultura de madeira
por dia, durante anos. As lascas voavam de suas ferramentas
& surgiam sábios. É um prazer comparar essas esculturas
com as obras elegantes e inexpressivas da mesma época. No
alto do Monte Hiei, no fundo de um bosque povoado de feitiçarias,
umidade & sapos, existe um velho templo de paredes escuras
& de odor agradável; ali mora um jovem monge que antes
estudava economia política & que agora lê livros de
filosofia Tendai. Se bem que na última vez que o encontrei,
ele estava descansando dos estudos lendo a autobiografia
de Charles Darwin, em inglês. Ele fez voto de não deixar
a montanha durante doze anos. Na cidade, há uma quantidade
de jovens que estudam literatura inglesa. Moças que escrevem
estudos sobre Shelley. Outras que apresentam teses sobre
"O Amante de Lady Chatterley". Pouco numerosas são as que
folheiam a revista Vogue & que se vestem no rigor da
moda. Muitos estudantes universitários, do gênero boêmio,
vestem roupas pretas ultra surradas com botões dourados
pregados de qualquer jeito. São todos pobres - a maioria
dos estudantes vive com 20 dólares por mês - e, no entanto,
algumas livrarias possuem as obras de Donne editadas por
Grierson, textos críticos de Shakespeare, romances de Graham
Greene, Faulkner, livros de Pound. Alguns desses estudantes
compreendem também o japonês antigo; mas são uma minoria.
Se eles forem até Nara, regressando no tempo, & visitarem
o templo de Horyuji, onde existem doze estátuas realmente
antigas esculpidas em madeira, pequenas figuras de olhares
sonhadores & sorrisos misteriosos, à maneira dos hipsters,
é possível que eles não se sintam tão desamparados. Alguns
praticantes da doutrina Zen conhecem essa cultura do passado,
mas a religião Zen exerce pouca atração junto aos jovens.
Ela foi durante muito tempo a religião oficial do Governo,
enriqueceu-se & tornou-se mesquinha. Há cinco séculos
atrás, o fundador do templo Daitoku, um religioso de nome
Daito, viveu embaixo de uma ponte de Quioto durante trinta
anos. Hoje em dia, os monges Zen possuem belos templos particulares.
Além disso, sentar numa sala de meditação atualmente é como
se exibir num circo. Havia visto tantas fotografias de cerejeiras
em flor, nos folhetos de viagens, que acabei adquirindo
uma enorme prevenção contra elas. Mas agora o inverno terminou,
as pessoas estão tomando sol - não estão mais amontoadas
& trancadas o dia inteiro em quartos gelados & as
cerejeiras estão florindo. Os homens do povo tomam enormes
bebedeiras, divertem-se à grande & cochilam nos parques
(formas remanescentes dos antigos ritos da fertilidade,
diz Marcel Grannet) , & as crianças estão brincando
novamente com as pernas de fora. Ninguém poderia ficar indiferente
a isso, de sorte que saímos a noite passada para comer uns
bolinhos de carne & tomar saqué. Um francês de nome
Chamaille, homem alto com uma imponente barba preta e que
estava passando férias na cidade, chamou a atenção, desfavoràvelmente,
da moça que nos servia saqué nos pequenos reservados. Ela
apontou com o dedo em direção a ele e exclamou: "Mais um
maldito missionário!" (influência das gravuras de livros
infantis que representam os missionários vitorianos que
vieram ao Japão e construíram as igrejas, como homens grosseiros
e de barba comprida). Pode ficar sossegada, dissemos, ele
veio aqui estudar a religião Zen. Era como se a roda do
tempo houvesse dado uma volta inteira.
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