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de
Geração Beat - Antologia
Org. por Seymour Krim
Editora Brasiliense, 1968.
WAKONDA!
Talako! peru alcoolizado para a morte fazendo glugluglu
na noite de passos macios!
Penas de pontas azuis amarelas vermelhas tingidas com arando
balançam na dança louca do fogo
hahaha hahaha homens mortos homens de pele vermelha homens-com-penas-na-cabeça
na noite!
Fúria animal de carne no osso no terreiro quente de fumo!
Cantos de réquiem para a confederação dos índios do sudeste
norte-americano!
Ah a morte dos Creeks, dos Choctaws,
Do guerreiro Brave, transbordante de juventude e pranto,
segurando uma truta na sua mão moribunda, uma truta orgulhosa
apanhada com sabedoria,
O mais
leve dos pés, o mais veloz, ah lamento da américa, ô américa
dos noruegueses e suecos, do tabaco de mascar, dos crimes,
saques e massacres, de Deus e dos tratados desfeitos,
Ah relincho dos cavalos pampas! Ah canto fúnebre do trenó
indígena pranteando o chefe moribundo!
Morangos silvestres, abeto, uva-do-monte, milho caboclo,
trigo do mato - oh escassez de homens!
Mulher pele-vermelha de pescoço comprido, irmã guerreira,
môça de tenda, amante de cicatrizes, não despedaces mais
o rato almiscarado com tua mão carnuda, mas desespera-te,
contorce-te e esmurra tua terra indígena com o último tormento
do amor do amor, Oh américa, oh cantos de réquiem -
O tropel
nas planícies dos rebanhos fantasmas de animais não comidos
apodrecendo ao relento
Perseguindo o espírito da Inglaterra pelas planícies afora
eterna eternamente, a imponente tribo Kiwago devastando
os tranquilos Dakotas, oh américa -
América ó américa de minério escasso oh américa petrificada
oh alga do que já foi outrora
a grande e adorável confederação das tribos do Gôlfo, oh
américa sugadora de petróleo em vez disso, petróleo de dias
melhores,lebres para caçar, peixes para fisgar, pés velozes
correm as tribos dali sobrepujada a terra para comer para
amar para morrer ah cantos fúnebres, o deus Hator há muito
profetizou Wakonda,
trombetas
heráldicas de sisal branco afinadas segundo a melodia coiote
para lamentar a morte do sol poente a partida em trenó de
cada moribundo, triste e exangue, o tremor dos homens, de
cada um dos chefes morrendo lentamente, vermelho e quente
na sua roupagem de couro
Balancem lentamente o chocalho, os dentes do falcão, os
sinos de casca, entoem lentamente o lamento, ó réquiem,
sacudam lentamente o vento dos ventos, ah as penas murchas
levadas pelas brisas da tarde,
Lamentem o último trenó arrastado pelo cavalo pampa, o triste
rei perplexo e ferido dos Montanas, Emudeçam os caçadores
franceses de peles que zombam nas suas embarcações fluviais,
que não se ouça nenhum canto de guerra perante umlt tal
abundância de ratos almiscarados e castores, desprezrem-nos,
Que
a histeria da mulher pele-vermelha abata-se sôbre a américa,
a américa carroça coberta dos pioneiros, as carroças da
conquista incendiadas por flechas, a última resistência
dos quakers, antes de perecerem, das bruxas de capuz branco
nas cabeças, dos orgulhosos conquistadores, jovens e mortos,
Ó Jerônimo!1 Washington Bolivar de rosto duro como níquel
de uma cidade moribunda que nunca existiu, esse monstro-morto,
que os demônios se reuniram para pilhar e pilharam,
Ó Touro Sentado! homem côr-de-ameixa Jefferson Lênine Lincoln
homem pele-vermelha morto, obrigue teu espírito a bater
asas, encubra a terra de nuvens, ah o condor, o abutre,
o falcão os dias da abundância passaram e tu também, oh
américa, oh cantos de réquiem,
Vales secos, marcos de caveiras, territórios Apache, terra
de sol vermelho, trenó indígena,
O relincho chorado dos cavalos, a noite das éguas e dos
potros,o lento chefe da morte, enrugado, triste e sem vigor,
sem horizonte, sem fumaça, triste e orgulhoso morrendo -
Em direção ao território coiote da montanha e da lua, a
algazarra exultante, o riso orgulhoso de homens sem conta,
Pésnegros, Mohawks, Algonquianos, Senecas, todos homens,
oh americano, homens reunidos no alto que inclinam
Suas cabeças brancas cobertas de palha e morrem à maneira
dos cavalos pampas com a lua nascente, na noite quente,
perdida, vazia, nunca vista, sem música, indiferente; sem
vento -
Na
luz sombria e terrível do Terreno da Caça Feliz
Três gerações de chefes exibem seus troféus inúmeros de
cabeças humanas, batendo as tranças louras de uma criança
contra o pano sujo, encardido e áspero da tenda;
Ela desaba em meio a uma montoeira de coisas espalhadas,
destruída, acabada, devastada, as costas livres do cais,
transforma-se na carcaça vazia dos crânios sem cabelo dos
mortos que procuram na sepultura dos brancos a criança de
cabelos arrancados;
Ah a tristeza inelutável nessa eternidade indígena,
Ela justifica, oh américa, teus urros, teus brados, teus
gritos, teus relinchos e explosões de chôro!
Calamidade indiânica! não foi a cabeleira arrancada dos
homens a primeira faca que penetrou no coração de uma idade
selvagem, devastadora de terras virgens, oh cantos fúnebres,
Oh
nuvem de tempestade, trovoadas provocadas por pássaros fantásticos,
chuva-no-rosto, grito nas trevas, morte,
E mantas e plantações de milho, e pegadas tranqüilas do
homem à procura de Kiwago, américa, Kiwago, américa, américa
milho, canção singela de um triste menino pele-vermelha
canção na noite sob o olhar da cabeça que espia com curiosidade
de cabeça intrusa de Zeus trovejante e zombeteiro, ah essa
angústia, essa morte, essa noite,
Réquiem, américa, entoe um lamento fúnebre que faça o trigo
prêto e branco tremular altivamente em louvor do índio que
nunca mais haverá de nascer, desaparecido, desolado, extinto;
Ouça as planícies, as grandes cordilheiras de montanhas,
ouça o vento desta noite raça de Oklahoma primeira a chorar
no lamento das montanhas, das correntezas, das árvores,
dos pássaros, do dia e da noite, do brilhante e contudo
desaparecido trenó fantástico,
A cabeça curvada de um índio é suficiente para curvar a
cabeça de um cavalo e os dois juntos morrem morrem morrem
e nunca mais morrem definitivamente, a noite devora os moribundos,
devora o sofrimento e não há mais sofrimento para o índio,
não há mais nenhuma índia grávida, não há mais menino de
olhos grandes e pés selvagens, não há mais chefes cobertos
de brancos ornamentos de couro, exalando o aroma úmido de
tabaco e coisas doces, ah américa américa -
Todos
os anos Kiwago vê seus bezerros emagrecerem, vê sem franzir
o cenho seus matadores mortos, os novos atiradores, de pontaria
certeira, com suas espingardas e balas, atiram e derrubam
o mais velho dos touros, o rei, o Kiwago da planície remanescente
-
Todos os anos Kiwago vê o deserto imóvel, o deserto sêco
sem lágrimas e sem filhos, o deserto sem fumaça, o deserto
triste e sem índios -
Todos os anos Talako vê o pássaro voar sem flecha perseguindo-o
na sua paz do céu, na sua liberdade de devorar tudo que
existe da velha américa, da américa virgem calma selvagem,
Ah américa, ah canto de réquiem, oh vegetação rasteira,
ó céu do Oeste, cada ano é um outro ano, não se perde uma
partida de bola, o braço delgado e musculoso que segura
a lança não se levanta mais, o sábio conselho dos reis reunidos
não está mais quente com vida, com peles, umidade, calor,
milho assado e carne sêca, agora a índia não trocará mais
sorrizinhos com seu bem amado, não conversará mais de amor
difícil e da necessidade do homem e da mulher viverem juntos,
da necessidade dos filhos, filhos, não haverá mais filhos
nos anos vindouros, não haverá mais aparência de vida, de
vida aprazível, não, não mais, américa, mas em lugar disso
as pedras mortas, as árvores sêcas, as nuvens de poeira
percorrendo a terra de uma extremidade à outra - réquiem.
Os
bacamartes dos pioneiros, as fivelas largas que usavam,
os chapéus altos, holandeses, inglêses, sapatos de couro
patenteados, Bíblias, rezam, esfriam os ânimos, são circunspectos,
circunspectos, nada lhes comove a não ser festas, perus
assados, milho,frutas saborosas, doces e geléias que saboreiam
rodeados de uma multidão de convidados felizes e surpresos,
os Iroqueses, os Mohawks, os Oneidas, os Onondagas, que
lhes dão graças!
Oh alegria! oh anjos! oh paz! oh terra! terra terra terra,
oh morte
Ah
as balas, as flechas, o chumbo grosso, o uísque, o rum,
a morte e a terra,
Ah feiticeiras, tavernas, homens quakers, Salem e Nova Amsterdã,
as plantações de milho,
E a noite, pés ligeiros, morte, massacre, massacre, oh américa,
oh réquiem -
Casas de madeira, fortes, postos avançados, entrepostos
de comércio, lugares distantes, nuvens,
Poeiras, hordas, tribos, morte, morte, jovens louras que
morrem, vestidos que queimam, homens de jaquetas vermelhas
e de jaquetas azuis que morrem, jovens que rufam os tambores,
que tocam os pífaros, que praguejam, gritam e morrem, cavalos...que
morrem, crianças pequenas... que morrem;
liiiiiiiuuuuuuuuuuuuuuuu!
Hhhhhhaaaaaaaaaaaaa!
EEEEEEEEEeeeeeeeeeEEEEEEEaaaaaaaaaaaaaaa!
Morrer
morrer morrer morrer morrer morrer...américa, réquiem.
Rude, desajeitado, molenga, lá vai o índio na sua roupa
de sacristão, desengonçado, risível, bêbedo,
Cansado, desleixado - as antigas indumentárias e as botas
brancas se perdem, a alegria das festas e das danças terminou,
acabou, o índio Seneca dorme, sem trenó, sem cavalo pampa,
sem fim, dorme apenas, e uma nova era, um nôvo dia, uma
nova luz, o milho nasce com fartura e a noite é eterna,
assim como dia
o avião a jato risca velozmente o céu do Texas,
Réquiem.
À noite
o motociclista índio Pé-negro com um cinturão largo passado
na cintura mais selvagem do que os olhos luminosos do falcão
senta em sua possante motocicleta preta ajeita-se no assento
e arregala os olhos na esperança de loucas aventuras saindo
numa disparada pela rua abaixo mais veloz do que a correria
de seus antepassados a cavalo pelos desfiladeiros cobertos
de fumaça e pelas cabanas embandeiradas Ah a tímida sombra
de Kiwago agora! o ronco louco do cano de escapamento de
sua moto Indian ecoa nas ruas como o ruído ensurdecedor
de ferro e lata explodindo brrrrrummmmm não há penas no
seu capacete oleoso Ah êle é uma máquina veloz a vapor correndo
na disparada sem banda de música para o receber é uma pena
êle ser estúpido a ponto de sentar-se no Horn & Hardart
em sua visita à Nova Iorque e sentir-se feliz na companhia
de garôtas de faces rosadas e cabelos louros que conversam
sôbre a sua enorme moto e a moto enorme delas, Ah ele se
comporta como um anjo no meio delas embora sua aparência
citadina seja sinistra sinistra quando fuma à noite um cigarro
numa ruela deserta, esperando, américa, esperando o fim,
o último índio, índio louco sem peixe nem pés descalços
nem caça na floresta altiva, louco nos joelhos que cavalgam
a motocicleta, é dêle o último canto de réquiem a última
américa A FESTANÇA DO FUNERAL ESTA SAINDO os votos de boa
sorte são acenados, os pneus são cheios, os óculos de corrida
já foram colocados, o motor, a gasolina, os freios está
tudo em ordem! Índios de 1958, vestidos da cabeça aos pés
com roupas de couro - ARRANCAM na disparada pela estrada
côr de terra da Morte, o pequeno Richard ouve a trombeta
prodigiosa e no desastre ocorrido a tôda velocidade seu
blusão de couro, cheio de ar, relincha como nos velhos tempos!
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