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de
Espere a primavera, Bandini
Editora Brasiliense, 1990
Arturo Bandini tinha toda a certeza de que nao iria para
o inferno quando morresse. O caminho para o inferno era
o cometimento de pecado mortal. Ele tinha cometido vários,
supunha, mas o confessionário o havia salvado. Ele
sempre ia para o confessionário a tempo, isto é,
antes de morrer. E batia na madeira sempre que pensava nisso.
Ele sempre iria chegar lá a tempo, antes que morresse.
Por isso, Arturo tinha certeza de que não iria para
o inferno quando morresse. Por duas razoes. O confessionário
e o fato de que ele era um corredor rápido.
Mas o purgatório, aquele lugar a meio caminho entre
o inferno e o paraíso, perturbava-o. Em termos explícitos,
o catecismo declarava quais os requerimentos para o paraíso.
Uma alma tinha que estar completamente limpa, sem a menor
marca de pecado. Se a alma, na hora da morte, não
estivesse limpa o suficiente para o paraíso e nem
conspurcada demais para merecer o inferno, lá estava
aquela região intermediaria, aquele purgatório
onde "a alma queimava e queimava até que todas
as suas máculas estivessem purgadas."
Havia um consolo no purgatorio: cedo ou tarde se ficava
garantido para o paraiso. Mas quando Arturo compreendeu
que essa estada no purgatorio podia ser de setenta milhoes
de trilhoes de bilhoes de anos, ardendo e ardendo, passou
a restar pouco consolo na ida final para o parafso. Afinal,
cem anos era um longo tempo. E cento e cinquenta milhoes
de anos era incrivel.
Não: Arturo estava certo de que nunca iria direto
para o paraíso. Por mais que temesse aquela perspectiva,
ele sabia que estava destinado a passar uma longa temporada
no purgatório. Mas não haveria alguma coisa
que um homem pudesse fazer para diminuir o suplicio do purgatório?
Em seu catecismo ele descobriu a resposta para o seu problema.
A maneira de encurtar aquele período terrível
no purgatório, o catecismo afirmava, era por meio
das boas obras, da reza, pelo jejum, pela abstinência
e acumulo de Indulgências. Boas obras estavam fora,
até onde ele soubesse. Nunca tinha visitado um enfermo,
porque não conhecia ninguém nessas condições.
Nunca tinha vestido os desnudos, porque nunca tinha visto
ninguém sem roupa. Nunca tinha enterrado um morto,
porque havia os coveiros para isso. Ele nunca tinha dado
esmolas para os pobres, porque não tinha nada para
dar; além do mais, "esmolas" soava para
ele como pães, e onde é que ele ia arranjar
alguns pães? Ele nunca tinha abrigado* os feridos
porque, bem, ele não sabia, parecia mais como algo
que as pessoas faziam nas cidades costeiras, saindo para
resgatar os marinheiros feridos nos naufrágios. Ele
nunca tinha instruído os ignorantes, porque, afinal
de contas, ele próprio era um ignorante, caso contrario
não seria forçado a freqüentar aquela
porcaria de escola. Nunca tinha iluminado a escuridão,
porque aquele era um pensamento que nunca havia compreendido.
Nunca tinha consolado os aflitos, porque parecia perigoso,
e, de qualquer maneira, ele não conhecia nenhum.
A maioria dos casos de sarampo e catapora tinha avisos de
quarentena nas portas.
Quanto aos dez mandamentos, quebrara praticamente todos
eles, e, no entanto, tinha certeza de que nem todas essas
infrações consistiam em pecados mortais. Às
vezes ele carregava um pé de coelho, o que era uma
superstição e, portanto, um pecado contra
o primeiro mandamento. Mas seria um pecado mortal? Aquilo
sempre o perturbara. Um pecado mortal era uma ofensa seria.
Às vezes, jogando beisebol, ele cruzava tacos com
um companheiro do mesmo time: supunha-se que aquela fosse
uma maneira certa de se acertar uma tacada para a segunda
base. E ele sabia que se tratava de uma superstição.
Mas seria um pecado? E seria um pecado mortal ou venial?
Num certo domingo, ele havia deliberadamente perdido a missa
para ouvir a transmissão do campeonato mundial de
beisebol, particularmente para ouvir sobre o seu Deus, Jimmy
Foxx, do Athletics. Caminhando para casa depois do jogo,
ocorreu-lhe subitamente que tinha quebrado o primeiro mandamento:
não cultuarás deuses estranhos antes de mim.
Bem, tinha cometido um pecado mortal ao perder a missa,
mas era outro pecado mortal preferir Jimmy Foxx ao Todo-Poderoso
durante o campeonato mundial?
* No
inglês, o verbo "abrigar", to harbor, permite
um trocadilho com o substanrivo harbor, "ancoradouro".
(N. do T.)

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