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de
Sonhos de Bunker Hill
Editora Brasiliense, 1987
O
Duque contra Richard-Coração-de-Leão.
A luta começou com os dois lutadores encarando-se no meio
do ringue. O Duque tinha mais ou menos 1,60 de altura e
pesava 170 quilos. Richard Coração-de-Leão tinha 1,90 e
pesava 170 quilos. Eles se moveram, preparando-se para o
encontro. Rapidamente o Duque escorregou por entre as pernas
do Coração-de-Leão e agarrou o penteado esvoaçante do grande
homem. Ele caiu como uma tonelada de carvão. O Duque pulou
em cima e tentou uma tesoura em volta de seu pescoço. Coração-de-Leão
debateu-se inutilmente, seu rosto começando a ficar azul.
A multidão levantou-se, tremendo de ódio. Uma mulher subiu
pelas cordas e esmurrou o Duque varias vezes com a bolsa.
A multidão gritou. Duas outras moderes pularam para o ringue,
tiraram os sapatos e deram um soco terrível no rude italiano,
forçando-o a afrouxar a tesoura sobre o pescoço do Coração-de-Leão.
O juiz apitou e ajudou o Duque no seu canto. Chamaram novamente.
Desta vez Coração-de-Leão estava em vantagem, ergueu o Duque
sobre sua cabeça e girou e girou ate atira-lo violentamente
na lona. A multidão gritava de alegria. O Duque ficou deitado
imóvel, parecendo inconsciente. Coração-de-Leão pegou-o,
carregou-o ate a borda do ringue e jogou-o sobre as cordas
ate o colo de três mulheres. Ele parecia insensível, imóvel.
As mulheres o atiraram no chão e bateram nele. Para escapar
delas, ele rolou, cambaleou sobre os pés e subiu dolorosamente
de volta ao ringue, o rosto coberto de sangue.
O Juiz apitou e ajudou o Duque ate seu canto. Chamaram um
medico. Ele limpou o sangue, anunciou que o Duque estava
em bom estado e ordenou que a luta continuasse. O Duque
arrastou-se sobre os pés, mas estava tão grogue que rodopiou
pelo ringue num entorpecimento. Do outro lado do ringue,
Coração-de-Leão mirou bem o alvo e acertou o Duque direto
no estomago. O Duque caiu de novo. Coração-de-Leão atirou-se
sobre o corpo caído, agarrou os pés do Duque e dobrou-os
para trás quase quebrando seus tornozelos. A multidão, fascinada,
parecia murmurar de prazer. O juiz inclinou-se para ver
se os ombros do Duque tinham tocado a lona. O triunfante
Coração-de-Leão, ainda segurando os pés do Duque quase a
altura das costas, acenou para a multidão e a multidão acenou-lhe
de volta. Eu estava mais preocupado com a morte do Duque
do que com sua derrota: ele continuava imóvel, os olhos
fechados, ofegando pesadamente.
Subitamente ele se mexeu, e seus pequenos braços grossos
jogaram-se em direção das mechas do cabelo de Coração-de-Leão.
A multidão olhava horrorizada. Um grito de agonia encheu
o auditório, quando as mãos do Duque saíram cheias de fios
de cabelo dourado e empurraram o Coração-de-Leão para o
lado. Grotescamente, como um caranguejo se arrumando, o
Duque agarrou o próprio cabelo enquanto levantava. As mulheres
tremiam. Algumas choraram enquanto ele arrastava o Coração-de-Leão
pelos cabelos em volta do ringue.
O Duque variava seu ataque. Agora ele chutava o Coração-de-Leão
no maxilar. Depois sentou-se sobre o rosto dele e arriou
seu corpo sem piedade, rindo para a platéia, escarnecendo
dos protestos. Então sentou-se sobre as costas do Coração-de-Leão,
seus ombros perigosamente próximos da lona. De repente o
belo homem sucumbiu, seu ombro tocaram a lona. O Duque sentou-se
sobre ele e beliscou seu nariz. Era um insulto insuportável.
O juiz declarou a Duque vencedor do primeiro round.
Jenny
Palladino - a Garota do Duque
Eu estava sentado na varanda lendo Melville quando o carro
surgiu. Era um Ford modelo-A, e o motorista era uma garota.
Ela parou a maquina e desceu. Olhei para a praia. 0 Duque
não estava a vista. A garota atravessou até a varanda dele
e bateu na porta. Era maravilhosa, vestida numa mini-saia
azul e num suéter azul. Seu rabo era do paraíso. Seu rosto
era exoticamente fino sob a franja dos cabelos pretos e
olhos brilhantes.
- Ele não está - eu disse. - Está treinando na praia.
Ela olhou para cima e para baixo do areal.
- Para que lado ele foi?
Apontei.
- Ele está puxando um grande carreto vermelho.
- Obrigada. Ele vai demorar?
- Talvez uma hora. O Duque e eu somos amigos. Por que não
se senta e espera?
Ela olhou em volta procurando uma cadeira.
- Desculpe - eu disse. - Gostaria de entrar?
- Não, obrigada.
Recostou-se no posto e mergulhou em silêncio. Eu me levantei.
- Posso lhe oferecer alguma coisa? Que tal um café? Acabei
de fazer.
- Não, obrigada.
- Sou Arturo Bandini.
- Muito Prazer. Sou Jenny Palladino.
- De Lompoc - eu disse sorrindo.
Surpresa, ela perguntou:
- Como soube?
- 0 Duque contou. - Abri a porta de tela. - Por favor, entre.
Eu faço um ótimo café.
- Não, obrigada.
- Não tenha medo. Se é amiga do Duque, esta totalmente salva
aqui. Eu tenho cara de quem passaria uma cantada na garota
do Duque de Sardenha?
Ela me estudou seriamente, depois sorriu.
- Acho que não. - Entre - me apressei. - Seja minha convidada.
- Bem...- ela hesitou.
- Por favor, não se preocupe. Morro de medo do Duque.
Ela entrou. Levei-a ate a melhor cadeira e ela sentou. De
repente uma sensação de leviandade tomou conta de mim. Havia
algo de reprovador nos olhos dela e na saliência de seu
lábio inferior. Eu não pensava em passar uma cantada nela.
Queria apenas brincar, entrar numa espécie de jogo com ela.
Servi uma xícara de café, ela me agradeceu e bebeu. Era
bonita, sensual e maravilhosamente bem feita. Ainda assim
eu não a desejava, sentia apenas uma vontade de rolar com
ela como se fossemos dois gatinhos.
Ajoelhei-me diante dela e ela rapidamente pôs os pés em
cima da cadeira.
- Oh, mais querida das filhas de Eva - eu disse com entonação
musical -, doces são teus olhos e gloriosos são os seus
arcos. Abençoadas sejas, virgem adorável, na curvatura teu
pescoço escultural. Não me expulses, pois que há muito eu
espero gozar no brilho de teus olhos maravilhosos.
Ela comprimiu os lábios com desaprovação.
- Então é você! - disse. - Eu sabia que não era o Duque.
Não podia ser.
- Escuta oh amor! o vôo da perdiz, batendo asas sobre o
celeiro, procurando seu amado no feno ceifado e fresco.
Trazei-a até mim, oh pássaros viajantes, que ela não sofra
mergulhada em medo.
Ela pulou da cadeira e me empurrou para o lado.
- Deixe-me em paz - disse. Depois começou a gritar:
- Duque! Duque!
Parou para tirar os sapatos e fugiu como uma corça amedrontada.
Ao longe, começando a aparecer, avistei a figura desajeitada
do Duque dirigindo seu carreto vermelho. Fiquei parado lá,
por um momento, aterrorizado. Depois fiz o que tinha de
ser feito.
Joguei minhas roupas nas malas, peguei a máquina de escrever
e corri para o carro, enfiando tudo no banco traseiro. Corri
outra vez de volta à casa, para mais um carregamento.Quando
voltava vi Jenny Paladino diante do Duque, gesticulando
com as duas mãos. Ele se soltou e disparou correndo em minha
direção. Juntei os livros e uma capa, corri para o carro
e liguei o motor. O duque estava a cem metros quando disparei
pelo quintal até a estrada. Pelo espelho retrovisor pude
vê-lo mostrando o pulso e amaldiçoando. Entrei na rodovia
e dirigi pela ponte de volta a Los Angeles...

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