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Por
Charles Bukowski
Agosto, 1979
Eu era um jovem, passando fome e bebendo e tentando ser
um escritor, Fiz a maior parte das minhas leituras na Biblioteca
Publica de Los Angeles, e nada do que eu li tinha a ver
comigo ou com as ruas ou com as pessoas em minha volta.
Parecia que todo mundo estava brincando de jogar com as
palavras, que aqueles que não diziam quase nada eram considerados
escritores excelentes. Seus escritos eram uma mistura de
sutileza, artesanato e forma, e era lido e era ensinado
e era ingerido e acabou. Era um esquema confortável, uma
Cultura da Palavra, muito malandra e cheia de nove-horas.
Era preciso voltar aos escritores da Rússia pré-revolucionária
para achar alguma ginga, alguma paixão.Havia exceções mas
essas exceções eram tão poucas que a gente as lia logo,
e lá estava você olhando para filas e filas de livros chatos
pra caralho.
Com séculos para olhar para trás, com todas as suas vantagens,
os modernos não davam pra saída.
Tirei livro apos livro das estantes. Por que é que alguém
não diz alguma coisa? Por que é que ninguém sai gritando?
Tentei outros livros na biblioteca. A seção sobre religião
era um pe no saco, pra mim. Fui pra filosofia. Encontrei
alguns alemães amargurados que me animaram um tempo, mas
não passou disso. Tentei matemática mas matemática superior
era igualzinho religião: não saquei bulhufas. O que EU precisava
parecia não existir em lugar algum.
Tentei geologia e a achei curiosa mas, finalmente, insubstancial.
Achei alguns livros sobre cirurgia e gostei dos livros sobre
cirurgia: as palavras eram novas e as ilustrações, maravilhosas.
Gostei particularmente e memorizei a operação no mesocólon.
Daí eu abandonei a cirurgia e voltei para a sala dos romancistas
e contistas (Quando eu tinha bastante vinho barato pra beber
eu nunca ia a biblioteca. Uma biblioteca era um bom lugar
para ir quando você não tinha nada pra beber nem pra comer,
e a dona da pensão estava atrás de você e do dinheiro do
aluguel. Na biblioteca, pelo menos, você tinha uma privada
que preste). Vi uma porção de vagabundos lá, a maior parte
dormindo em cima dos livros.
Eu ficava andando pelo salão, tirando os livros das estantes,
lendo umas linhas, algumas páginas, depois pondo de volta.
Então um dia peguei um livro, abri e lá estava. Parei por
um momento, lendo. Então como alguém que achou ouro no lixo,
levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam fácil pela
pagina, havia uma corrente. Cada linha tinha sua própria
energia e era seguida por uma outra que nem ela, A própria
substancia de cada linha dava uma forma à pagina, a sensação
de alguma coisa esculpida ali. E, aqui, afinal, estava um
homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam
misturados numa esplendida simplicidade. Começar aquele
livro foi um selvagem e enorme milagre pra mim.
Eu tinha um cartão da biblioteca. Tirei o livro, levei-o
para meu quarto, me joguei na cama e li, e eu sabia muito
antes de terminar que aqui estava um homem que tinha desenvolvido
um jeito diferente de escrever. O livro era Pergunte ao
Pó e o autor, John Fante.
Ele ia ser uma influencia permanente sobre o meu modo de
escrever.
Terminei Pergunte ao Pó e procurei outros livros de Fante
na biblioteca.
Achei dois: Dago Red e Espere Até a Primavera, Bandini.
Eram da mesma categoria, escritos com as tripas e com o
coração.
Sim, Fante teve um puta efeito sobre mim. Logo depois de
ter lido seus livros, comecei a viver com uma mulher. Ela
bebia mais que eu e tivemos umas brigas brabas e então eu
gritava para ela:
- Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo
Bandini!
Fante era meu deus e eu sabia que os deuses devem ser deixados
em paz, não se bate na porta deles. Mesmo assim eu gostaria
de saber onde ele tinha vivido em Angel’s Flight e imaginei
que ele ainda podia estar vivendo lá. Quase todo dia eu
passeava por lá e pensava: foi por essa janela que Camila
passou? Essa é a porta do hotel? E essa a portaria? Nunca
cheguei a saber.
39 anos depois, reli Pergunte ao Pó. Isto é, reli este ano
e lá estava ele inteiro, como as outras obras de Fante,
mas esta é a minha predileta porque foi minha primeira descoberta
da mágica.
Há outros livros além de Dago Red e Espere até a Primavera,
Bandini. São Cheio de Vida e A Irmandade da Uva. E, atualmente,
Fanle tem um romance em obras, uma obra romance em processo,
uma obra em obras, Um Sonho de Bunker Hill.
Através de outras circunstâncias, finalmente encontrei o
autor este ano.
Tem muito mais coisa na história de John Fante. É a historia
de uma sorte terrível, e um terrível destino, e de uma coragem
rara e natural.
Algum dia vai ser contada mas eu sinto que ele não quer
que eu a conte aqui.
Mas quero dizer que o jeito de suas palavras e o jeito do
seu jeito são ainda os mesmos: fortes e bons e quentes.
Chega. Agora esse livro é de você.

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