|
de
Rumo a Los Angeles
Editora Brasiliense, 1989
É de manhã, hora de levantar, então
levanta, Arturo, e vá procurar emprego. Saia e vá
procurar o que você nunca vai encontrar. Você
é ladrão, matador de caranguejos, amante de
mulheres de quartinhos de vestir. Você nunca vai encontrar
emprego!
Todas as manhãs eu levantava me sentindo desse jeito.Tenho
que encontrar um emprego, puta que o pariu. Tomava café,
punha um livro debaixo do braço, alguns lápis
no bolso, e saía. Escada abaixo, rua afora, às
vezes no frio, às vezes no calor, às vezes
com neblina, às vezes dia claro, não importava.
Com um livro debaixo do braço, procurando emprego.
Que emprego, Arturo? Ha, ha! Emprego pra você? Mas
quem é você, rapaz? Matador de caranguejos.
Ladrão. Você, que fica olhando mulher pelada
no quartinho de vestir, você acha que vai arranjar
emprego? Muito engraçado! Mas lá vai ele,
o idiota, com um grosso livro debaixo do braço. Arturo,
pra onde diabos você vai? Por que entrou nessa rua
e não naquela? Por que vai indo para leste - por
que não para oeste? Responde, ladrão! Quem
vai te dar emprego, seu porco? Quem? Mas tem um parque do
outro lado da cidade, Arturo. Chama-se Parque Banning. Com
muitos eucaliptos e verdes gramados. Que belo lugar para
ler! Vá até lá, Arturo. Leia Nietzsche.
Leia Schopenhauer. Desfrute a companhia dos poderosos. Emprego?
Fiii! Vá sentar debaixo de uma árvore e ler
um livro enquanto procura emprego.
Mas algumas vezes fui mesmo procurar emprego. Tinha a mercearia.
Fiquei um tempão parado na porta, olhando uma pilha
de doces de amendoim na vitrine. Só então
entrei.
- O gerente, por favor .
A moça:
- Tá lá embaixo.
Eu o conhecia; ele se chamava Tracey. Desci os degraus duros,
me perguntando por que será que eram tão duros,
e lá embaixo vi o sr. Tracey. Estava na frente do
espelho, arrumando a gravata amarela. Boa pessoa, esse Tracey.
Admirável bom gosto. Uma bela gravata, sapatos brancos,
camisa azul. Um homem distinto; um privilégio trabalhar
para alguém assim. Tinha um algo mais, um élan
vital. Ah, Bergson! Outro grande escritor foi Bergson.,
- Olá, sr. Tracey.
- O que quer?
- Queria perguntar. ..
- Tem que preencher uma ficha. Mas não adianta, não
temos vaga.
Subi os degraus duros. Curiosos degraus! Tão duros,
tão precisos! Possivelmente um novo avanço
na arquitetura das escadas. Ah, a humanidade! O que mais
não vai inventar! Progresso. Acredito na realidade
do Progresso. Aquele Tracey - aquele crápula, sórdido,
filho da puta! Ele e sua ridícula gravata amarela,
parado na frente do espelho feito um macaco. Canalha pequeno-burguês!
Gravata amarela, olha só! Ah, mais ele não
me engana. Eu sabia de umas coisinhas sobre aquele sujeito.
Uma noite eu andava pelo porto quando o vi. Não falei
nada, mas acho que era ele, sentado em seu carro, barrigudo
que nem um porco, com uma garota do lado. Vi os dentões
dele à luz da lua. Sentado ali com o seu barrigão,
um boçal de trinta dólares por semana, burguês
filho da puta, com o barrigão saltando fora da calça
e uma mulher do lado, uma sirigaita, vadia, piranha, puta.
Segurava as mãos da moça com os dedos gorduchos.
Parecia ardoroso com aquele jeitão de porco, o gordão
fIlho da puta, fedorento, nojento, um calhorda de trinta
dólares por semana, com os dentões à
espreita sob a luz da lua, a pança encostada no volante,
os olhinhos gordos, sujos, acesos, cheios de imagens gordurentas
de uma transa bem gorda. Ele não me enganava; nunca
me enganaria. Poderia enganar aquela garota, mas não
Arturo Bandini. Em circunstância alguma Arturo Bandini
concordaria em trabalhar para aquele crápula. Algum
dia haveria um ajuste de contas e ele poderia pedir e implorar,
com a gravata amarela arrastando no pó, poderia rogar
a Arturo Bandini, suplicar ao grande Arturo que aceitasse
o emprego, e Arturo Bandini orgulhosamente lhe daria um
chute na barriga e o veria se contorcer no pó. Ele
vai me pagar, ele vai me pagar!
Fui até a fábrica da Ford. E por que não?
A Ford precisa de homens. Bandini na Ford Motor Company.
Uma semana num departamento, três semanas em outro,
um mês em outro, seis meses em outro. Em dois anos
seria diretor-geral da Divisão Oeste.
Quando cheguei à fábrica fiquei no meio dos
outros. Eles se arrastavam feito um grosso coágulo
diante de uma plataforma verde. Rostos duros, rostos frios.
Apareceu um homem. Necas de trabalho por hoje, pessoal.
Mas até que haveria um ou dois empregos se você
soubesse pintar, se entendesse de transmissões, se
tivesse experiência, se já tivesse trabalhado
na fábrica de Detroit.
Mas trabalho para Arturo Bandini ali não havia. Saquei
à primeira vista e não ia deixar eles me recusarem.
Eu estava me divertindo. Aquele espetáculo, aquela
cena de homens diante de uma plataforma, me divertia. Estou
aqui por uma razão especial, sir: uma missão
confidencial, se assim posso dizer , apenas verificando
as condições para elaborar meu relatório.
Fui enviado pelo presidente dos Estados Unidos da América,
Franklin Delano Roosevelt. Foi ele quem me mandou. Frank
e eu somos assim: unha e carne! Me conte como vão
as coisas na costa do Pacífico, Arturo; me mande
dados e estatísticas em primeira mão; me narre
com suas próprias palavras o que pensam as massas
neste país.
E assim eu era um espectador. A vida é um palco.
Aqui há drama, Franklin, meu amigo, meu velho, meu
camarada; aqui há drama nu e cru no coração
dos homens. Informarei a Casa Branca imediatamente. Telegrama
em código para Franklin. Frank: distúrbios
na costa do Pacífico. Recomendo enviar vinte mil
homens armados. População aterrorizada. Situação
perigosa. Fábrica Ford em ruínas. Assumirei
controle pessoalmente. Minha palavra aqui é lei.
Seu velho companheiro, Arturo.
Não, não havia trabalho para Arturo Bandini.
Saí de lá me sentindo melhor, contente que
fosse assim. Voltei caminhando, desejando ter um avião,
um milhão de dólares, desejando que as conchas
do mar fossem diamantes. Vou para o parque. Ainda não
sou carneiro. Ler Nietzsche. Ser um SuperHomem. Assim
falou Zaratustra. Ah, esse Nietzsche! Não seja
carneiro Bandini. Preserve a santidade da sua mente. Vá
até o parque e leia o mestre debaixo dos eucaliptos.

|