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ROBERTO PIVA

Poemas

Enviado por Márcio X. Simões

O Volume do Grito

Eu sonhei que era um Serafim e as putas de São Paulo avançavam na densidade exasperante
estátuas com conjuntivite olham-me fraternalmente
defuntos acesos tagarelam mansamente ao pé de um cartão de visitas
bacharéis praticam sexo com liquidificadores como os pederastas cuja santidade confunde os zombeteiros
terraços ornados com samambaias e suicídios onde também as confissões mágicas podem causar paixões de tal gênero
relógios podres turbinas invisíveis burocracia de cinza cérebros blindados alambiques cegos viadutos demoníacos
capitais fora do Tempo e do Espaço e uma Sociedade Anônima
regendo a ilusão da perfeita bondade
Os gramofones dançam no cias
O Espírito Puro vomita um aplauso antiaéreo
O Homem Aritmético conta em voz alta os minutos que nos faltam contemplando a bomba atômica como se fosse seu espelho
encontro com Lorca num hospital da Lapa
a Virgem assassinada num bordel
estaleiros com coqueluches espetando banderillas no meu Tabu
eu bebia chá com pervitin para que todos apertassem minha mão elétrica
as nuvens coçavam os bigodes enquanto masturbavas sobre o cadáver ainda quente de tua filha menor
a lua tem violentas hemoptises no céu de nitrato
Deus suicidou-se com uma navalha espanhola
os braços caem
os olhos caem
os sexos caem
Jubileu da Morte
ó rosas ó arcanjos ó loucura apoderando-se do luto azul suspenso na minha voz

 

Ganimedes 76

Teu sorriso
olhinhos como margaridas negras
meu amor navegando na tarde
batidas de pêssego refletindo em teus olhinhos de
fuligem
cabelos ouriçados com um pequeno deus de um salão
rococó
força de um corpo frágil com âncoras
gostei de você eu também
amanhã então às 7
amanhã às 7
tudo começa agora num ritual lento & cercados de
gardênias de pano
Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes da tarde
de São Paulo como desejo espetacular tão
dopado de coragem
marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti
assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem
O ANJO NO BANHEIRO AMANDO A COMUNA DE
PARIS DEIXA-SE FOTOGRAFAR COMENDO UMA
FRUTA-DO-CONDE
eu me preparo para estas cidades sem limites
o deserto & suas línguas trepidantes
marchas de samurais atentos nos pântanos
longe sem sair do lugar
(AMO TUA BOCA DEVASTADA POR FUMAÇA
DIABÓLICAS)
uma rosa na ponta dos olhos
uma rosa em tua boca errante
meus olhos fixos na fonte do paraíso

(O MUNDO MUDA A COR DA JABUTICABA
MUDA TEU CU MUDA O CHAPÉU DO VIZINHO MUDA
TEU SEXO MUDA O ÍNDIO MUDA HOLDERLIN
MUDOU HEGEL MUDOU TECNÓPOLIS MUDA &
MUDAMOS CADA DIA MAIS PARA O PORÃO DA VIDA
COMO RIMBAUD ARTAUD MACUNAÍMA ROSA
LUXEMBURG) o dragão corre na corveta caraíba as
coxas têm febre eu nem planta nem
fantasma o verdadeiro veneno MODESTA CRIATURA
CIDADÃO DE UM MUNDO EM CHAMAS eu
faço esta advertência: A PERFEITA
MÚSICA ESTÁ NO AÇO
canteiros folhudos cheios de silêncio
espaço cósmico samba-canção do nada
(A EPOPÉIA DO AMOR COMEÇA NA CAMA COM
OS LENÇOIS DESARRUMADOS FEITO UM
CAMPO DE BATALHA)
é ali que eu começo nascer para a madrugada & suas
vertigens onde você meu amor se enrosca em
meu coração paranóico de veludo verde & as delícias
de continentes alaranjados dormem em seu rosto de
pérolas turvas oh tambores do amor
sem parar rumo às tempestades PLANETÁRIAS
& suas cachoeiras tristes & pesadas como lágrimas
gosto de gostar & a tv da alma amanhece
bêbada & tenta dizer alguma coisa

 

Festival do Rock da Necessidade

Flor obscena queimando os olhos das cobras com sua pasta fosforescente, abre caminho até estes cabeludos fodidos da vida com seus banjos de alucinação & a menina de olhos cor-de-laranja canta um rock pesado FAÇA DE MIM O QUE VOCÊ QUISER que pede entre outras coisas que você a deixe NUA BÊBADA NA ESTRADA DAS ILUSÕES sem as fronteiras entre o acaso & necessidade
Pólen comia uma maça-do-amor em companhia de Lindo Olhar que acompanhou o ritmo do rock com os dedos batendo na pele do ornitorrinco.
As primeiras fogueiras foram acesas.
Pintou uma roda de samba-chinês-dodecafônico via Ezra Pound & um mulatinho que tocava pandeiro se transformou numa borboleta vermelha com perfumes raros.
Suas asas batiam contra o coração do mundo um navio chamado Aurora foi recebido com 21 trios de canhão enquanto a garota de olhos cor-de-laranja gemia no microfone sua balado SEU CORPO ERA MINHA BÚSSOLA APONTANDO A DIREÇÃO
& assim pedia o amparo trágico de algum pirado cretino chapado de encontro a um pinheiros com as mão meladas de vinho & fumo.
Os manifestos de Lindo Olhar se dirigiam aos cozinheiros aos funileiros às manicures distraídas aos fabricantes de formicidas aos garotos no dia posterior ao descabaçamento às rãs & as manifestações do puleiro.
Coxas Ardentes era seu porta-voz e secretário geral do club Osso & Liberdade.
Rabo Louco era especialista em blitzkrieg.
Lábios de Cereja organizava as sessões de orgasmo coletivo & crueldades cristalinas.
Entrega em Profundidade se encarregava dos debates & dúvidas metafísicas.
A agulha de tricô carismática
(rock balada: letra & música
de Coxas Ardentes)
pele de foca Nabucodicanduras
ganhou uma lebre ao amanhecer
gelou suas patinhas na crista da onda
espetou seu coração no punhal do engraxate
agora a costela escoteira corre a língua na bunda adormecida
o punhal é anfíbio
Coxas Ardentes tomou um gole de Kirsch & seus olhos arderam em lágrimas pensando no hambúrguer com bacon por comer & seus amores passados & a solidão presente em marcha agônica de Wagner urso do salão Nietzschiano propiciador de omeletes de queijo com vinho verde & batucadas pornosambas de Luiz II da Baviera & Peter Gast tocando Zequinha de Abreu ao piano enquanto Cosima Wagner fritava salsichões vienenses para o grupo de filólogos & Nietzsche sonhava com o corpo da salamandra eslava de Lou Andreas Salome onde acendeu seu fogo dionisíaco & pitagórico para além do horizonte de palavras mortais de Coxas Ardentes que só terá descanso quando estiver nos braços do Andrógino Antropocósmico.

 

Jorge de Lima, Panfletário do Caos

Foi dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi
Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela
melancolia presente na minha memória devorada
pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçavel entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e
como tua boca palpita nos boulevards oxidados
pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação
inconsútil de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens
no ventre se despedaçam contra os ninhos da
Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco
grande alucinado querido e estranho professor do
Caos sabendo que teu nome deve estar como um
talismã nos lábios de todos os meninos

 

CHIANTI TENUTA DI MARSANO

"La bocca e le parole son
l’arco e le saette che tu hai
Canzone
Nicollò Machiavelli
Quando alguém atravessa a floresta cai o pano do grande teatro as unhas viram fogo & começa a destruição em nome da Fruta da Paixão suave pele de maracujá gigante vagina amarela dentro do luar a pequena cotia geme no ninho o cardume de piranhas devora as margens do grande rio as sombras da noite de lua iniciam uma nova religião, a Boiúna & o Dragão de Rosquinhas atravessaram o sistema nervoso transformado em geléia viscosa refeita & carregada de espuma Orgon deitando por terra o Chefe da tribo das pequenas hordas Tigrana preparava o ritual sangrento num altar onde ardiam dez archotes. Dez garotos da tribo seriam castrados em nome do deus Tiberius. Tigrana agarrou a tesoura sagrada & começou com um menino de olhos negros & profundos. Seus grãozinhos pularam fora & foram imediatamente devorados por Ferfax, o gato do mato que juntamente com a aranha Tarântula Mortis encomendaram um grande bacia de Cauim & se embebedaram.
Pântanos petrolíferos refletiam o olhar parado de Pólen & seus dois amigos:
Lindo Olhar & Onça Humana.
Lindo Olhar quer enlouquecer suavemente.
Onça Humana quer tomar vinho italiano & dançar samba.
Lindo Olhar diz que os vampiros serão mortos esta noite.
Um adolescente ruivo de olhos verdes chamado Entrega em Profundidade acha que viu um Saci galopando um Touro. Suas mãos tremem seus lábios idem. Bom dia boa noite lua doente de luz mortiça & inflamada de desespero solar onde passeiam tamanduás flutuantes sussurra Entrega em Profundidade. Coxas Ardentes rói uma azeitona & toma vinho do Porto. Rabo Louco acaricia os mamilos rosados de Entrega em Profundidade. Pólen folheia um tratado sobre esquizofrenia nas costas nuas de Lindo Olhar que se vira às vezes para beijá-lo longamente & mordiscar suas coxas & tomar um gole de Chianti & imitam um pequeno leopardo cheio de mel lambendo com doçura suas longas mãos de mármore brando.


 

TÓPICOS


Roberto Piva - Autobiografia e Introdução aos poemas

Poemas:Bules, biles e bolas
Boletim do mundo mágico-Ardor da água-Pornosamba para Marquês de Sade


A vida me carrega no ar como um gigantesco abutre-Á deriva no meio da existência/A coreia é na esquina-A catedral da desordem-Mestre murilo mendes-Última locomotiva

O voluma do grito-Ganimedes 67-Festival do Rock da necessidade-Jorge de lima


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