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Enviado
por Márcio X. Simões
O
Volume do Grito
Eu sonhei
que era um Serafim e as putas de São Paulo avançavam
na densidade exasperante
estátuas com conjuntivite olham-me fraternalmente
defuntos acesos tagarelam mansamente ao pé de um
cartão de visitas
bacharéis praticam sexo com liquidificadores como
os pederastas cuja santidade confunde os zombeteiros
terraços ornados com samambaias e suicídios
onde também as confissões mágicas podem
causar paixões de tal gênero
relógios podres turbinas invisíveis burocracia
de cinza cérebros blindados alambiques cegos viadutos
demoníacos
capitais fora do Tempo e do Espaço e uma Sociedade
Anônima
regendo a ilusão da perfeita bondade
Os gramofones dançam no cias
O Espírito Puro vomita um aplauso antiaéreo
O Homem Aritmético conta em voz alta os minutos que
nos faltam contemplando a bomba atômica como se fosse
seu espelho
encontro com Lorca num hospital da Lapa
a Virgem assassinada num bordel
estaleiros com coqueluches espetando banderillas no meu
Tabu
eu bebia chá com pervitin para que todos apertassem
minha mão elétrica
as nuvens coçavam os bigodes enquanto masturbavas
sobre o cadáver ainda quente de tua filha menor
a lua tem violentas hemoptises no céu de nitrato
Deus suicidou-se com uma navalha espanhola
os braços caem
os olhos caem
os sexos caem
Jubileu da Morte
ó rosas ó arcanjos ó loucura apoderando-se
do luto azul suspenso na minha voz
Ganimedes
76
Teu
sorriso
olhinhos como margaridas negras
meu amor navegando na tarde
batidas de pêssego refletindo em teus olhinhos de
fuligem
cabelos ouriçados com um pequeno deus de um salão
rococó
força de um corpo frágil com âncoras
gostei de você eu também
amanhã então às 7
amanhã às 7
tudo começa agora num ritual lento & cercados
de
gardênias de pano
Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes
da tarde
de São Paulo como desejo espetacular tão
dopado de coragem
marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti
assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem
O ANJO NO BANHEIRO AMANDO A COMUNA DE
PARIS DEIXA-SE FOTOGRAFAR COMENDO UMA
FRUTA-DO-CONDE
eu me preparo para estas cidades sem limites
o deserto & suas línguas trepidantes
marchas de samurais atentos nos pântanos
longe sem sair do lugar
(AMO TUA BOCA DEVASTADA POR FUMAÇA
DIABÓLICAS)
uma rosa na ponta dos olhos
uma rosa em tua boca errante
meus olhos fixos na fonte do paraíso
(O
MUNDO MUDA A COR DA JABUTICABA
MUDA TEU CU MUDA O CHAPÉU DO VIZINHO MUDA
TEU SEXO MUDA O ÍNDIO MUDA HOLDERLIN
MUDOU HEGEL MUDOU TECNÓPOLIS MUDA &
MUDAMOS CADA DIA MAIS PARA O PORÃO DA VIDA
COMO RIMBAUD ARTAUD MACUNAÍMA ROSA
LUXEMBURG) o dragão corre na corveta caraíba
as
coxas têm febre eu nem planta nem
fantasma o verdadeiro veneno MODESTA CRIATURA
CIDADÃO DE UM MUNDO EM CHAMAS eu
faço esta advertência: A PERFEITA
MÚSICA ESTÁ NO AÇO
canteiros folhudos cheios de silêncio
espaço cósmico samba-canção
do nada
(A EPOPÉIA DO AMOR COMEÇA NA CAMA COM
OS LENÇOIS DESARRUMADOS FEITO UM
CAMPO DE BATALHA)
é ali que eu começo nascer para a madrugada
& suas
vertigens onde você meu amor se enrosca em
meu coração paranóico de veludo verde
& as delícias
de continentes alaranjados dormem em seu rosto de
pérolas turvas oh tambores do amor
sem parar rumo às tempestades PLANETÁRIAS
& suas cachoeiras tristes & pesadas como lágrimas
gosto de gostar & a tv da alma amanhece
bêbada & tenta dizer alguma coisa
Festival
do Rock da Necessidade
Flor
obscena queimando os olhos das cobras com sua pasta fosforescente,
abre caminho até estes cabeludos fodidos da vida
com seus banjos de alucinação & a menina
de olhos cor-de-laranja canta um rock pesado FAÇA
DE MIM O QUE VOCÊ QUISER que pede entre outras coisas
que você a deixe NUA BÊBADA NA ESTRADA DAS ILUSÕES
sem as fronteiras entre o acaso & necessidade
Pólen comia uma maça-do-amor em companhia
de Lindo Olhar que acompanhou o ritmo do rock com os dedos
batendo na pele do ornitorrinco.
As primeiras fogueiras foram acesas.
Pintou uma roda de samba-chinês-dodecafônico
via Ezra Pound & um mulatinho que tocava pandeiro se
transformou numa borboleta vermelha com perfumes raros.
Suas asas batiam contra o coração do mundo
um navio chamado Aurora foi recebido com 21 trios de canhão
enquanto a garota de olhos cor-de-laranja gemia no microfone
sua balado SEU CORPO ERA MINHA BÚSSOLA APONTANDO
A DIREÇÃO
& assim pedia o amparo trágico de algum pirado
cretino chapado de encontro a um pinheiros com as mão
meladas de vinho & fumo.
Os manifestos de Lindo Olhar se dirigiam aos cozinheiros
aos funileiros às manicures distraídas aos
fabricantes de formicidas aos garotos no dia posterior ao
descabaçamento às rãs & as manifestações
do puleiro.
Coxas Ardentes era seu porta-voz e secretário geral
do club Osso & Liberdade.
Rabo Louco era especialista em blitzkrieg.
Lábios de Cereja organizava as sessões de
orgasmo coletivo & crueldades cristalinas.
Entrega em Profundidade se encarregava dos debates &
dúvidas metafísicas.
A agulha de tricô carismática
(rock balada: letra & música
de Coxas Ardentes)
pele de foca Nabucodicanduras
ganhou uma lebre ao amanhecer
gelou suas patinhas na crista da onda
espetou seu coração no punhal do engraxate
agora a costela escoteira corre a língua na bunda
adormecida
o punhal é anfíbio
Coxas Ardentes tomou um gole de Kirsch & seus olhos
arderam em lágrimas pensando no hambúrguer
com bacon por comer & seus amores passados & a solidão
presente em marcha agônica de Wagner urso do salão
Nietzschiano propiciador de omeletes de queijo com vinho
verde & batucadas pornosambas de Luiz II da Baviera
& Peter Gast tocando Zequinha de Abreu ao piano enquanto
Cosima Wagner fritava salsichões vienenses para o
grupo de filólogos & Nietzsche sonhava com o
corpo da salamandra eslava de Lou Andreas Salome onde acendeu
seu fogo dionisíaco & pitagórico para
além do horizonte de palavras mortais de Coxas Ardentes
que só terá descanso quando estiver nos braços
do Andrógino Antropocósmico.
Jorge
de Lima, Panfletário do Caos
Foi
dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi
Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela
melancolia presente na minha memória devorada
pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçavel entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas
ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e
como tua boca palpita nos boulevards oxidados
pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação
inconsútil de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens
no ventre se despedaçam contra os ninhos da
Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco
grande alucinado querido e estranho professor do
Caos sabendo que teu nome deve estar como um
talismã nos lábios de todos os meninos
CHIANTI
TENUTA DI MARSANO
"La
bocca e le parole son
larco e le saette che tu hai
Canzone
Nicollò Machiavelli
Quando alguém atravessa a floresta cai o pano do
grande teatro as unhas viram fogo & começa a
destruição em nome da Fruta da Paixão
suave pele de maracujá gigante vagina amarela dentro
do luar a pequena cotia geme no ninho o cardume de piranhas
devora as margens do grande rio as sombras da noite de lua
iniciam uma nova religião, a Boiúna &
o Dragão de Rosquinhas atravessaram o sistema nervoso
transformado em geléia viscosa refeita & carregada
de espuma Orgon deitando por terra o Chefe da tribo das
pequenas hordas Tigrana preparava o ritual sangrento num
altar onde ardiam dez archotes. Dez garotos da tribo seriam
castrados em nome do deus Tiberius. Tigrana agarrou a tesoura
sagrada & começou com um menino de olhos negros
& profundos. Seus grãozinhos pularam fora &
foram imediatamente devorados por Ferfax, o gato do mato
que juntamente com a aranha Tarântula Mortis encomendaram
um grande bacia de Cauim & se embebedaram.
Pântanos petrolíferos refletiam o olhar parado
de Pólen & seus dois amigos:
Lindo Olhar & Onça Humana.
Lindo Olhar quer enlouquecer suavemente.
Onça Humana quer tomar vinho italiano & dançar
samba.
Lindo Olhar diz que os vampiros serão mortos esta
noite.
Um adolescente ruivo de olhos verdes chamado Entrega em
Profundidade acha que viu um Saci galopando um Touro. Suas
mãos tremem seus lábios idem. Bom dia boa
noite lua doente de luz mortiça & inflamada de
desespero solar onde passeiam tamanduás flutuantes
sussurra Entrega em Profundidade. Coxas Ardentes rói
uma azeitona & toma vinho do Porto. Rabo Louco acaricia
os mamilos rosados de Entrega em Profundidade. Pólen
folheia um tratado sobre esquizofrenia nas costas nuas de
Lindo Olhar que se vira às vezes para beijá-lo
longamente & mordiscar suas coxas & tomar um gole
de Chianti & imitam um pequeno leopardo cheio de mel
lambendo com doçura suas longas mãos de mármore
brando.
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