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ROBERTO PIVA

Poemas

Enviado por Márcio X. Simões

A Vida me Carrega no Ar Como um Gigantesco Abutre

A verdade dos deuses
carnais com nós & lânguidos
não provém do nada
mas do desejo trovejante do coração
partido pelo amor
em sua disparada pelo rosto de um
adolescente
com sua fúria delicada
cruzo avenida insones & corroídas
de chuva
minha mão alcança minha dor
presente
& me preparo para um dia duro
amargo & pegajoso
a tarde desaba seu azul sobre
os telhados do mundo
você não veio ao nosso encontro & e eu
morro um pouco & me encontro só
numa cidade de muros
você talvez não saiba do ritual
do amor com uma fonte
a água que corre não correrá
jamais a mesma até o poente
minha dor é um anjo ferido
de morte
você um pequeno deus verde
& rigoroso
horários de morte cidades cemitérios
a morte é a ordem do dia
a noite vem raptar o que
sobra de um soluço

 

À Deriva no Rio da Existência

abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas pefumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.

 

A Coréia é na Esquina

Assim não dá meu tesão
eu começo a sonhar com você todas as tardes
& você lá em Santos
comendo amendoim
vendo anjos nas cebolas do mercado
navios entram e saem do porto polidos
eu corto as veias & rego meu queijo de Minas
você me ama eu sei & me envaideço
amoras joram a beleza anarquista de suas
coxas molhadas
o peixe-espada pode lhe declarar amor
eu penso nessas ilhas perumadas
mas o caminho de volta eu só conto
a este urubu em carne viva
que grasna na sacada.

 

A Catedral da desordem

A nossa batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras moribundas: " Como são lindos os olhos deste idiota". Só a desordem nos une. Ceticamente, Barbaramente, Swxualmente. A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo do Desastre. Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra a lambretta pela motocicleta, contra o licor pela maconha, contra o tênis pelo box, contra a rádio-patrulha pela Dama das Camélias, contra Valéry por D. H. Lawrence, contra as cegonhas pelos gambás, contra o futuro pelo presente, contra o poço pela fossa, contra Eliot pelo Marquês de Sade, contra a bomba de gás dos funcionários públicos pelos chicletes do eunucos e suas concubinas, contra Hegel por Antonin Artuad, contra o violão pela bateria, contra as responsabilidades pelas sensações, contra as trajetórias nos negócios pelas faces pálidas e visões noturnas, contra Mondrian por Di Chirico, contra a mecânica pelo Sonho, contra as libélulas pelos caranguejos, contra os ovos cartesianos pelo óleo de Rícino, contra o filho natural pelo bastardo, contra o governo por uma convenção de cozinheiros, contra os arcanjos pelos querubins homossexuais, contra a invasão de borboletas pelas invasão de gafanhotos, contra a mente pelo corpo, contra o Jardim Europa pela Praça da República, contra o céu pela terra, contra Virgílio por Catulo, contra a lógica pela magia, contra as magnólias eplso girassóis, contra o cordeiro pelo lobo, contra o regulamento pela Compulsão, contra os postes pelos luminosos, contra Cristo por Barrabás, contra os porfessores pelos pajés, contra o meio dia pela meia-noite, contra a religião pelo sexo, contra Tchaikowsky por Carl Orff, contra tudo por Lautréamont.

 

mestre Murilo Mendes tua poesia são

os sapatos de abóboras que eu calço
nestes dias de verão.
negócio de bruxas.
o sol caía na marmita do
adolescente da lavanderia.
você veria isto com seu olhar silvestre.
um murro bem dado no vitral
que eu mais adoro.

 

última locomotiva, gregos de Homero

sonhando dentro do chapéu de palha.
últimas vozes antes dos lábios &
dos cabelos, sonoterapia voraz.
você adora as folhas que caem
no lago escuro
este é o banquete do poeta
sempre
querendo
penetrar
no caroço
da verdade.
nariz do garoto negro apontando para
praça apinhada de tucanos sambistas.
você tranca o planeta.


 

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Roberto Piva - Autobiografia e Introdução aos poemas

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