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Enviado
por Márcio X. Simões
A
Vida me Carrega no Ar Como um Gigantesco Abutre
A
verdade dos deuses
carnais com nós & lânguidos
não provém do nada
mas do desejo trovejante do coração
partido pelo amor
em sua disparada pelo rosto de um
adolescente
com sua fúria delicada
cruzo avenida insones & corroídas
de chuva
minha mão alcança minha dor
presente
& me preparo para um dia duro
amargo & pegajoso
a tarde desaba seu azul sobre
os telhados do mundo
você não veio ao nosso encontro & e eu
morro um pouco & me encontro só
numa cidade de muros
você talvez não saiba do ritual
do amor com uma fonte
a água que corre não correrá
jamais a mesma até o poente
minha dor é um anjo ferido
de morte
você um pequeno deus verde
& rigoroso
horários de morte cidades cemitérios
a morte é a ordem do dia
a noite vem raptar o que
sobra de um soluço
À
Deriva no Rio da Existência
abandonar
tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas pefumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.
A
Coréia é na Esquina
Assim
não dá meu tesão
eu começo a sonhar com você todas as tardes
& você lá em Santos
comendo amendoim
vendo anjos nas cebolas do mercado
navios entram e saem do porto polidos
eu corto as veias & rego meu queijo de Minas
você me ama eu sei & me envaideço
amoras joram a beleza anarquista de suas
coxas molhadas
o peixe-espada pode lhe declarar amor
eu penso nessas ilhas perumadas
mas o caminho de volta eu só conto
a este urubu em carne viva
que grasna na sacada.
A
Catedral da desordem
A nossa
batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras
moribundas: " Como são lindos os olhos deste
idiota". Só a desordem nos une. Ceticamente,
Barbaramente, Swxualmente. A nossa Catedral está
impregnada do grande espetáculo do Desastre. Nós
nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo,
contra a lambretta pela motocicleta, contra o licor pela
maconha, contra o tênis pelo box, contra a rádio-patrulha
pela Dama das Camélias, contra Valéry por
D. H. Lawrence, contra as cegonhas pelos gambás,
contra o futuro pelo presente, contra o poço pela
fossa, contra Eliot pelo Marquês de Sade, contra a
bomba de gás dos funcionários públicos
pelos chicletes do eunucos e suas concubinas, contra Hegel
por Antonin Artuad, contra o violão pela bateria,
contra as responsabilidades pelas sensações,
contra as trajetórias nos negócios pelas faces
pálidas e visões noturnas, contra Mondrian
por Di Chirico, contra a mecânica pelo Sonho, contra
as libélulas pelos caranguejos, contra os ovos cartesianos
pelo óleo de Rícino, contra o filho natural
pelo bastardo, contra o governo por uma convenção
de cozinheiros, contra os arcanjos pelos querubins homossexuais,
contra a invasão de borboletas pelas invasão
de gafanhotos, contra a mente pelo corpo, contra o Jardim
Europa pela Praça da República, contra o céu
pela terra, contra Virgílio por Catulo, contra a
lógica pela magia, contra as magnólias eplso
girassóis, contra o cordeiro pelo lobo, contra o
regulamento pela Compulsão, contra os postes pelos
luminosos, contra Cristo por Barrabás, contra os
porfessores pelos pajés, contra o meio dia pela meia-noite,
contra a religião pelo sexo, contra Tchaikowsky por
Carl Orff, contra tudo por Lautréamont.
mestre
Murilo Mendes tua poesia são
os
sapatos de abóboras que eu calço
nestes dias de verão.
negócio de bruxas.
o sol caía na marmita do
adolescente da lavanderia.
você veria isto com seu olhar silvestre.
um murro bem dado no vitral
que eu mais adoro.
última
locomotiva, gregos de Homero
sonhando dentro do chapéu de palha.
últimas vozes antes dos lábios &
dos cabelos, sonoterapia voraz.
você adora as folhas que caem
no lago escuro
este é o banquete do poeta
sempre
querendo
penetrar
no caroço
da verdade.
nariz do garoto negro apontando para
praça apinhada de tucanos sambistas.
você tranca o planeta.
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