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Trechos
da entrevista foi concedida a George Plinton da revista
Paris Review e publicada no Brasil pela Companhia
das letras no volume 2 do livro Os escritores (1989),
que reúne as entrevistas históricas da revista
francesa com vários escritores de primeira linha.
PERGUNTA: As horas que o senhor dedica à escrita
propriamente dita são agradáveis?
HEMINGWAY: Muito.
PERGUNTA: Poderia falar um pouco sobre esse processo?
Em que período trabalha? O senhor segue uma programação
estrita?
HEMINGWAY: Quando estou trabalhando em um livro
ou um conto, escrevo diariamente de manhã, a partir da hora
em que surge a primeira luz. Não tem ninguém para perturbar,
é fresco, ou mesmo frio. Começo a trabalhar e vou esquentando
conforme escrevo. Leio o que fiz no dia anterior e, como
sempre paro num trecho a partir do qual sei o que vai acontecer,
prossigo desse ponto. Escrevo até chegar a um momento em
que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que
vem em seguida; paro e tento sobreviver até o dia seguinte,
para voltar à carga. Se começo às seis da manhã, digamos,
posso ir até meio-dia, ou interromper o trabalho um pouco
antes. A interrupção dá uma sensação de vazio, como quando
se faz amor com quem se gosta. E ao mesmo tempo não é um
vazio, mas um transbordamento. Não há nada que o atinja,
nada acontece, nada tem sentido até o dia seguinte, quando
você faz tudo de novo. Difícil é viver a espera até o dia
seguinte.
PERGUNTA: Consegue tirar da cabeça um projeto, seja
ele qual for, quando está longe da máquina?
HEMINGWAY: Claro. Mas é preciso disciplina para se
fazer isso, e essa disciplina se conquista. Tem de ser assim.
PERGUNTA: O senhor reescreve alguma coisa ao reler
o que escreveu no dia anterior? Ou isso vem depois, quando
já está tudo pronto?
HEMINGWAY: Eu sempre reescrevo, na manhã seguinte,
o trecho do dia anterior. Naturalmente, quando acabo, repasso
tudo outra vez. E tem-se mais uma chance de corrigir e reescrever
quando outra pessoa datilografa, e se vê o texto passado
a limpo, datilografado. A última oportunidade é nas provas.
É bom ter tantas chances diferentes.
PERGUNTA: Quantas vezes reescreve um texto?
HEMINGWAY: Depende. Reescrevi o final de A farewell
to arms, a última página, trinta e nove vezes, até ficar
satisfeito.
PERGUNTA: Por quê? Havia algum problema técnico?
O que o preocupava?
HEMINGWAY: Pôr as palavras do jeito certo.
PERGUNTA: Essa releitura que recupera a "seiva"
o "gás"?
HEMINGWAY: A releitura me coloca no ponto exato
onde tem que haver a continuação, dando a noção de que tudo
está tão bom quanto possível. A seiva sempre está em algum
lugar.
PERGUNTA: Mas existem momentos em que a inspiração
não vem de jeito nenhum? HEMINGWAY: Sem dúvida. Mas
ao parar num ponto em que sabia o que viria depois, posso
ir em frente. Desde que consiga começar, tudo bem. O gás
aparece.
PERGUNTA: Thornton Wilder fala de recursos mnemônicos
que ajudam o escritor a saber a quantas anda o seu dia de
trabalho. Ele diz que uma vez o senhor contou que apontou
vinte lápis.
HEMINGWAY: Acho que nunca cheguei a ter vinte lápis
ao mesmo tempo. Gastar sete lápis n. 2 é um bom dia de trabalho.
PERGUNTA: Pode citar alguns dos lugares que considera
mais propícios para trabalhar? O hotel Ambos Mundos
deve ter sido um deles, a julgar pelo número de livros que
escreveu lá. Ou, na sua opinião, o ambiente tem pouca influência
sobre o trabalho?
HEMINGWAY: O Ambos Mundos, em Havana, foi
um lugar muito bom para se trabalhar. O Finca é um
lugar fantástico, ou melhor, foi. Mas eu trabalho bem em
qualquer lugar. Quer dizer, consigo trabalhar tão bem quanto
me é possível nas circunstâncias mais variadas. Telefone
e visitas são inimigos mortais do trabalho.
PERGUNTA: É necessário ter estabilidade emocional
para se escrever bem? O senhor me disse uma vez que só conseguia
escrever bem quando estava apaixonado. Poderia se estender
um pouco mais nesse assunto?
HEMINGWAY: Mas que pergunta! Nota dez pela tentativa.
Você consegue escrever sempre que as pessoas deixam você
em paz e não interrompem. Quer dizer, consegue se for duro
o bastante com relação a isso. Mas, com toda certeza, escreve-se
melhor quando se está apaixonado. Se você estiver de acordo,
prefiro não me estender sobre esse assunto.
PERGUNTA: E a questão da segurança financeira? Pode
prejudicar a qualidade do que se escreve?
HEMINGWAY: Se ela vem relativamente cedo e você
ama a vida tanto quanto o seu trabalho, é preciso ser muito
forte para resistir às tentações. Uma vez que escrever tenha
se tornado seu maior vício e seu maior prazer, só a morte
pode acabar com isso. A segurança financeira, então, é uma
grande ajuda, já que evita que você fique se preocupando.
A preocupação destrói a capacidade de escrever. Uma doença
incomoda, na medida em que gera uma preocupação subconsciente,
minando suas reservas.
PERGUNTA: Na sua opinião, qual o melhor treino intelectual
para o aspirante a escritor?
HEMINGWAY: Digamos que ele estivesse pensando em
sair e se enforcar, porque chegou à conclusão de que escrever
bem é tremendamente difícil. Neste caso, deveria cortar
a corda sem piedade, de forma a se ver obrigado, pelo seu
próprio eu, a escrever o melhor possível pelo resto da vida.
Pelo menos teria a história do enforcamento para começar.
PERGUNTA: E sobre as pessoas que seguem a carreira
acadêmica? Acha que os muitos escritores que mantêm cargos
acadêmicos comprometeram suas carreiras literárias?
HEMINGWAY: Depende do que você considera comprometer.
Tem o mesmo sentido de "uma mulher comprometida"? E o compromisso
de um estadista? Ou é o compromisso que você firma com o
dono da mercearia ou com o alfaiate, no qual se estabelece
que você paga um pouco mais daqui a alguns dias? O escritor
que consegue escrever e lecionar deve ser capaz de fazer
as duas coisas. Muitos escritores competentes provaram que
isso é possível. Eu não conseguiria, sei disso, e admiro
aqueles que têm capacidade para tanto. Mas acho que a vida
acadêmica pode pôr um ponto final na experiência mais ampla,
externa, e que provavelmente isso limitaria o conhecimento
do mundo. O conhecimento, no entanto, exige responsabilidade
do escritor, e faz com que escrever se tome ainda mais difícil.
Tentar escrever algo que tenha valor permanente é uma ocupação
que exige péríodo integral, mesmo que no processo em si
sejam gastas apenas apenas algumas horas por dia. Pode-se
comparar o escritor a um poço. Existem muitos tipos de poços,
como de escritores. Mas o importante é que o poço tenha
uma água boa, e é melhor tirar um pouco todos os dias do
que esvaziá-lo de uma só vez, e ficar esperando que ele
se encha novamente. Sei que estou fugindo da pergunta, mas
essa pergunta não era muito interessante.
PERGUNTA: Recomendaria o trabalho jornalístico aos
escritores jovens? A sua experiência no Kansas City Star
foi útil?
HEMINGWAY: No Star se era forçado a aprender a escrever
sentenças informativas simples. Isso é útil para qualquer
um. O trabalho jornalístico não prejudica o jovem escritor
e pode até vir a ajudá-lo se ele cair fora a tempo. Esse
é um dos clichês mais velhos que conheço e peço desculpas
por isso. Mas quando se fazem as velhas perguntas de sempre,
deve-se estar preparado para receber as velhas respostas
de sempre.
PERGUNTA: Escreveu uma vez no Transatlantic Review
que a única razão pela qual trabalhou com jornalismo era
por ser bem pago. E disse: "E quando se destroem coisas
importantes, escrevendo-se sobre elas, é preciso receber
um bom dinheiro por isso". Acha que escrever é uma espécie
de autodestruição?
HEMINGWAY: Não me lembro de ter escrito isso algum
dia. Mas me parece idiota e violento o bastante para eu
ter dito, só para não ter que ficar roendo as unhas e dar
uma declaração sensata. Com toda certeza eu não acho que
escrever seja uma espécie de autodestruição, se bem que
o jornalismo, depois de um certo ponto, pode vir a se tornar
uma autodestruição diária para um escritor sério e criativo.
PERGUNTA: Na sua opinião, o estímulo intelectual
da companhia de outros escritores contribui de alguma forma
para o escritor?
HEMINGWAY: Sem dúvida.
PERGUNTA: Na Paris dos anos 20, o senhor tinha algum
"sentimento de grupo" com relação aos outros estritores
e artistas?
HEMINGWAY: Não. Não existia nenhum sentimento de
grupo. Sentíamos respeito uns pelos outros. Eu respeitava
muitos pintores, alguns da minha idade, outros mais velhos
- Gris, Picasso, Braque, Monet, ainda vivos na época e escritores:
Joyce, Ezra Pound, o que havia de bom em Stein...
PERGUNTA: Quando está escrevendo, alguma vez já
se viu influenciado pelo que estava lendo na época ?
HEMINGWAY: Não, desde a época em que Joyce estava
escrevendo Ulysses. Não foi uma influência direta. Mas naqueles
dias, quando as palavras que conhecíamos nos eram interditas,
e tínhamos que brigar por uma única palavra, a influência
do trabalho de Joyce mudou tudo, e fez com que pudéssemos
nos livrar das restrições.
PERGUNTA: Outros escritores lhe ensinaram alguma
coisa sobre a arte de escrever? Ainda ontem o senhor estava
me dizendo que Joyce, por exemplo, não suportava falar sobre
o assunto.
HEMINGWAY: Junto a pessoas de seu próprio ramo, você
normalmente fala dos livros de outros escritores. Quanto
melhores forem os escritores menos vão falar sobre
o que eles mesmos escrevem. Joyce era um grande escritor
e só explicava o que estava fazendo a imbecis. Acreditava
que os outros escritores que respeitava eram capazes de
entender o que ele fazia no momento em que o lessem.
PERGUNTA: Parece que o senhor tem evitado a companhia
de outros escri tores há anos. Por quê?
HEMINGWAY: Isso é mais complicado. Quando se escreve,
quanto mais fundo se vai, mais sozinho se fica. A maioria
dos antigos e melhores amigos morre. Outros se mudam.. Você
não os encontra mais a não ser em raras ocasiões, mas escreve
e mantém o mesmo contato de antes, como se estivessem juntos
num café, como nos velhos tempos. Trocam-se cartas cômicas,
às vezes descaradamente obscenas e irresponsáveis, e é quase
o mesmo que conversar. Mas você fica mais sozinho, porque
é assim que tem de trabalhar, e o tempo para trabalhar fica
cada vez menor, e, se você desperdiça esse tempo, sente
que cometeu um pecado para o qual não existe perdão.
PERGUNTA: Já tocou algum instrumento musical?
HEMINGWAY: Costumava tocar violoncelo. Minha mãe
me tirou da escola um ano inteiro, para que eu estudasse
música e contraponto. Achava que eu tinha jeito, mas eu
não tinha o menor talento. Tocávamos música de câmara
alguém tocava violino; minha irmã tocava viola e minha mãe,
piano. Eu tocava violoncelo pior que qualquer outra pessoa
na face da Terra. E claro, naquele ano fiquei livre para
fazer outras coisas também.
PERGUNTA: Relê os escritores de sua lista? Twain,
por exemplo?
HEMINGWAY: É preciso dar um prazo de uns
dois ou três anos com Twain. Você grava muito as histórias.
leio um pouco de Shakespeare todo o ano.Sempre Lear.
É só ler i fico mais estimulado.
PERGUNTA: A leitura é, então, uma ocupação e um prazer
constantes?
HEMINGWAY: Vivo lendo livros - todos que aparecem.
Faço um certo racionamento, de forma a ter sempre algum
de reserva.
PERGUNTA: Quer dizer então que um conhecimento profundo
das obras das pessoas em sua lista ajuda a preencher o "poço"
de que falou há pouco? Ou foram uma ajuda consciente no
desenvolvimento das técnicas de redação?
HEMINGWAY: Fizeram parte do aprender a ver, a ouvir,
a pensar, a sentir e a não sentir, e a escrever. O poço
está onde está seu gás. Ninguém sabe do que ele é feito,
muito menos você. Você já sabe se está com ele ou não, se
vai ter que esperar até que ele venha novamente.
PERGUNTA: O senhor admitiria a existência de símbolos
em seus romances?
HEMINGWAY: Acredito que existam símbolos, já que
os críticos continuam a encontrá-los. Se não se importa,
não gosto de falar sobre símbolos, e nem que me façam perguntas
sobre isso. Já é bastante difícil escrever livros e contos,
e ainda por cima lhe pedem para ficar explicando o sentido.
Isso também acaba tirando o emprego dos explicadores. Se
cinco ou seis, ou mais explicadores profissionais podem
dar conta da coisa, por que eu iria me meter? Leia tudo
que escrevo só pelo prazer da leitura. Qualquer outra coisa
que venha a encontrar será a medida daquilo que você trouxe
à leitura.
PERGUNTA: Essas perguntas que abordam a criação artística
são realmente uma chateação.
HEMINGWAY: Uma pergunta inteligente não deve ser
nem um prazer nem uma chateação. Mas ainda acho que é muito
desagradável para o escritor falar sobre como ele escreve.
Escreve para ser lido com os olhos e nenhuma explicação
ou dissertação deveria ser necessária. Pode ter certeza
que existe muito mais no que se escreve do que aquilo que
se lê numa primeira leitura e, por ser assim, não é função
do escritor explicar o que escreve ou organizar excursões,
como um guia turístico, através da região mais difícil de
sua obra.
PERGUNTA: Poderia dizer quanto de esforço consciente
de elaboração entrou no desenvolvimento do seu estilo pessoal?
HEMINGWAY: Essa é uma pergunta cansativa e exige
muito tempo para ser respondida. Se você passasse dois dias
respondendo, ficaria tão consciente de si mesmo que não
conseguiria mais escrever. Eu diria que aquilo que os amadores
chamam de estilo geralmente é apenas a inevitável falta
de jeito da piimeira tentativa de se fazer algo que até
então nunca havia sido feitô: Quase nenhum dos novos clássicos
se parece com os antigos. No início, as pessoas só
consegem ver a falta de jeito. Depois isso não é mais tão
perceptível. Quando se revela uma falta de jeito ímpar,
as pessoas pensam que isso é estilo e muitas passam a copiar.
O que é Jamentável.
PERGUNTA:
Como se apresenta em sua mente a concepção de um conto?
O tema, o enredo, algum personagem muda conforme vai escrevendo?
HEMINGWAY: As vezes sei a história. As vezes vou
compondo conforme escrevo e nem tenho idéia de como vai
ficar. Tudo muda conforme o desenroIar. É isso que
faz o movimento, que faz a história. As vezes o movimento
é tão lento que parece que não há movimento algum.
Mas sempre há mudança e sempre há movimento.
PERGUNTA: É assim também com o romance, ou
o senhor elabora todo um plano antes de começar e segue
rigorosamente esse plano?
HEMINGWAY: For whom the bell tolls foi um
problema que tive de enfrentar diariamente. Em princípio
sabia o que ia acontecer. Mas inventava o que acontecia
a cada dia.
PERGUNTA: The green hills of Africa, To
have and have not e Across the river and into the
trees começaram todos como contos e acabaram se transformando
em romances? Se foi esse o caso, essas duas formas são tão
semelhantes que o escritor pode passar de uma para a outra
sem ter que rever por completo o tratamento dado?
HEMINGWAY: Não, isso não é verdade. The green
hills of Africa não é um romance, foi uma tentativa
de escrever um livro absolutamente fiel à verdade, para
ver se o contorno de uma região e o esquema de um mês de
ação poderiam, se apresentados de maneira verídica, se equiparar
a uma obra fictícia. . Depois de tê-lo escrito, escrevi
dois contos, "The snows of Killimanjaro" e "The
short happy life of Francis Macomber". Esses contos,
inventei com base no conhecimento e na experiência que havia
adquirido naquele mesmo mês de longas caçadas do qual tentei
dar um relato fiel em The green hills. To have
and have not e Across the river and into the trees
começaram, os dois, como contos.
PERGUNTA: Acha fácil passar de um projeto literário
para outro, ou o senhor segue direto num só projeto, para
acabar o que começou?
HEMINGWAY: O fato de estar interrompendo um trabalho
sério para responder a essas perguntas prova que sou tão
idiota que merecia receber um castigo terrível. E vou receber.
Não se preocupe.
PERGUNTA: Vê-se competindo com outros escritores?
HEMINGWAY: Nunca. Costumava tentar escrever melhor
do que certos escritores já falecidos, aqueles que julgava
terem realmente valor. Já há um bom tempo venho apenas tentando
fazer o melhor que consigo. As vezes tenho sorte e escrevo
melhor do que posso.
PERGUNTA: Acha que a força de um escritor diminui
conforme ele envelhece? Em The green hills of Africa
o senhor diz que os escritores norte-americanos com uma
certa idade se transformam em "vovozinhas".
HEMINGWAY: Não sei de nada disso. Pessoas que sabem
o que fazem deveriam permanecer em atividade desde que suas
cabeças continuassem em atividade. Nesse livro a que se
referiu, se você olhar direito, vai ver que eu estava falando
horrores sobre a literatura norte-americana com um austríaco
completamente sem humor, que estava me forçando a conversar,
quando o que eu queria era fazer outra coisa. Fiz um relato
exato dessa conversa. Não para fazer pronunciamentos imorredouros.
Uma boa porcentagem das opiniões é bem razoável.
PERGUNTA: Até agora não discutimos personagens. Os
personagens de suas obras são, sem exceção, tirados da vida
real?
HEMINGWAY: Claro que não. Alguns vêm da vida real.
A maioria você inventa a partir do conhecimento, da compreensão
e da experiência com pessoas.
PERGUNTA: Poderia dizer alguma coisa sobre o processo
de transformar um personagem real num personagem fictício?
HEMINGWAY: Se fosse explicar como isso às vezes é
feito, ia parecer um manual para advogados de acusação.
PERGUNTA: Faz alguma distinção - como faz E. M. Forster
- entre personagens "planos" e "redondos"?
HEMINGWAY: Se você descreve alguém, é plano, é como
uma fotografia, e, no meu ponto de vista, uma falha. Se
você cria esse alguém a partir daquilo que você conhece,
ele terá todas as dimensões.
PERGUNTA: Dos seus personagens, quais são os que
vê com um carinho especial?
HEMINGWAY: Isso daria uma lista enorme.
PERGUNTA: Então gosta de reler seus próprios livros
-sem sentir que existem coisas que gostaria de mudar?
HEMINGWAY: Leio, às vezes, para me sentir incentivado
quando está difícil escrever; então me lembro que sempre
foi difícil e de como às vezes era quase impossível.
PERGUNTA: Como dá nome aos personagens?
HEMINGWAY: O melhor que posso.
PERGUNTA: Os títulos lhe ocorrem enquanto está no
processo de criação da história ?
HEMINGWAY: Não. Faço uma relação de títulos depois
que termino o conto ou o livro - às vezes chega a uns cem.
Então começo a eliminar alguns, às vezes todos.
PERGUNTA: Faz isso até mesmo com uma história cujo
título foi sugerido pelo próprio texto -"Hills like white
elephants", por exemplo?
HEMINGWAY: É. O título vem depois. Conheci
uma garota em Prunier, onde eu tinha ido para comer ostras
antes do almoço. Fiquei sabendo que ela havia abortado.
Me aproximei e conversamos, não falamos sobre o aborto,
mas no caminho de volta para casa fui pensando na história,
não almocei, e passei a tarde escrevendo o conto.
PERGUNTA: ArchibÍlld MacLeish falou de um método
de transmitir experiência que, segundo ele, o senhor desenvolveu
quando cobria jogos de beisebol nos dias do Kansas City
Star. O método consistia simplesmente na transmissão
da experiência através de pequenos detalhes que, relatados
tintim por tintim, acabavam dando a idéia do todo, fazendo
com que o leitor ficasse consciente daquilo que ele já sabia,
mas em seu subconsciente...
HEMINGWAY: Essa historinha é apócrifa. Nunca cobri
beisebol para O Star. O que Archie tentava se lembrar
era de como eu estava tentando aprender, em Chicago, por
volta de 1920, e de como eu procurava pelas coisas despercebidas,
que revelavam a emoção, coisas como o jeito pelo qual o
jogador de beisebol jogava a luva para trás sem olhar onde
ela havia caído, o chiado da sola do lutador sobre a lona
encerada, a tonalidade cinzenta da pele de Jack Blackburn
assim que ele saía de uma luta, e outras coisas que eu anotava,
como um pintor faz esboços. Você via a cor estranha de Blackbum,
as cicatrizes de navalha e o jeito como ele acertava um
homem, antes de saber a sua história. Eram essas as coisas
que lhe davam emoção antes que você soubesse da história.
PERGUNTA: Já descreveu algum tipo de situação do
qual não tivesse nenhum conhecimento pessoal?
HEMINGWAY: Essa é uma pergunta muito estranha. Por
conhecimento pessoal você quer dizer experiência? Nesse
caso, a resposta é sim. Um escritor, se tem algum valor,
não descreve. Ele inventa ou cria a partir do conhecimento
pessoal e impessoal, e às vezes parece ter um conhecimento
inexplicado que poderia vir da experiência familiar e racial
já esquecida. Quem ensina o pombocorreio a voar como ele
voa; de onde o touro tira a sua bravura, ou o cão de caça
o seu faro? Isso é uma elaboração, ou uma condensação, daquilo
que conversamos em Madri, quando a minha cabeça não estava
muito confiável.
PERGUNTA:
Poderia dizer até que ponto, na sua opinião, o escritor
deve se preocupar com os problemas sócio-políticos de sua
época ?
HEMINGWAY: Cada um tem sua própria consciência,
e não deveriam existir regras sobre como a consciência deve
funcionar. Tudo que você pode ter cer teza a respeito de
um escritor com preocupações políticas é que, se a obra
dele permanecer viva, você vai ter que ignorar a política
quando o ler. Muitos dos chamados escritores engajados mudam
de ideologia a toda hora. Isso é muito estimulante para
eles e para suas resenhas político-literárias. As vezes
têm até que reescrever seus pontos de vista e na maior pressa.
Talvez dê para se respeitar esse tipo de atitude como uma
forma de se buscar a felicidade.
PERGUNTA: Existiria alguma intenção didática em sua
obra?
HEMINGWAY: Didática é palavra que tem sido usada
erroneamente e se estragou. Death in the afternoon
é um livro instrutivo. :
PERGUNTA: Tem-se falado que os escritores trabalham
apenas com uma ou duas idéias no decorrer de suas obras.
Diria que a sua obra reflete uma ou duas idéias?
HEMINGWAY: Quem disse isso? Parece simples demais.
O homem que disse isso provavelmente tinha só uma ou duas
idéias.
PERGUNTA: Bem, talvez fosse melhor colocar as coisas
da seguinte maneira: Graham Greene disse que existe uma
paixão predominante, que confere a um conjunto de obras
a unidade de um sistema. Se não me engano, o senhor mesmo
disse que grandes textos nascem de um senso de injustiça.
Considera isso um fator importante, que o romancista seja
dominado dessa maneira -por tal senso de injustiça?
HEMINGWAY: Graham Greene tem uma facilidade para
fazer declarações que eu não tenho de modo algum. Para mim
seria impossível tecer generaliza.; ções sobre um conjunto
de obras, um bando de perdizes ou um pelotão de gansos.
Mesmo assim, vou arriscar uma generalização. Um escritor
sem senso de justiça e injustiça ganharia mais editando
o anuário de uma escola para crianças excepcionais do que
escrevendo romances. Outra generalização. Viu só? Até que
elas não são tão difíceis, quando são óbvias o suficiente.
O dom mais importante para um bom escritor é um detector
interno de baboseiras à prova de choque. Esse é o radar
do escritor e todos os grandes escritores ti veram um.
PERGUNTA: Para encerrar, uma pergunta essencial:
como escritor criativo que é, qual considera ser a função
da sua arte? Por que a representação do fato, em vez do
fato em si?
HEMINGWAY: Por que ficar quebrando a cabeça com
isso? De coisas que aconteceram, de coisas que estão acontecendo,
e de todas as coisas que você conhece e de todas aquelas
que não pode conhecer, você cria algo com a jmaginação,
algo que não é uma representação, mas sim uma coisa inteiramente
nova, mais real do que qualquer coisa viva e real, e você
dá vida a essa coisa, e se fizer isso bem o bastante, você
lhe confere imortalidade? por isso que se escreve, não por
qualquer outra razão que possa vir a conhecer. Ma!' e todas
aquelas razões que ninguém conhece?
(*) Em
1958, uma vara federal em Washington, D. C., retirou todas
as acusações contra Ezra Pound, abrindo caminho para a sua
libertação do St. Elizabeth
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