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de
Tiros na noite
Editora Record, 2000
O carro de Gallaway não estava na garagem. Ele não
voltara de Knownburg. Debaixo da janela dos lavradores,
parei, até que o ruído de roncos em três
tons diferentes me garantiu que os três estavam bem
quietos, dormindo.
Depois de uma hora xeretando por ali, voltei para dentro
de casa. O mostrador luminoso de meu relógio marcava
2:35 da madrugada quando parei do lado de fora da porta
do cozinheiro chinês, para ouvir sua respiração
pausada.
No andar de cima, encostei-me à porta do quarto dos
Figgs, até meus ouvidos me garantirem que eles também
dormiam. Na porta da Sra. Gallaway, tive de esperar vários
minutos, até ouvi-la suspirar e virar-se na cama.
Barbra Caywood respirava forte e profundamente, com a serenidade
de um animal jovem, cujo sono não é perturbado
por pesadelos. A respiração do doente veio
até mim com a regularidade do sono e a dissonância
de uma pneumonia em convalescença.
Feita a ronda auditiva, voltei para meu quarto.
Ainda sentindo-me inquieto e completamente sem sono, botei
uma cadeira junto da janela e sentei-me, admirando o luar
sobre o rio, que serpenteava logo abaixo da casa, sendo
visível daquele lado. Fumei outro charuto, pensando
e repensando em tudo - sem chegar a lugar algum.
Lá fora, nenhum som.
De repente, uma detonação varreu o hall, o
som de um tiro sendo disparado dentro de casa! Atravessei
o quarto correndo e saí para o corredor.
O grito de uma mulher - estridente, frenético - encheu
a casa.
A porta do quarto de Barbra Caywood estava destrancanda
quando a alcancei, escancarando-a. Na luz da lua que penetrava
pela janela, vi a enfermeira sentada, no meio da cama. Não
parecia bonita, agora. Seu rosto estava distorcido pelo
terror. O grito morria em sua garganta.
Tudo isso aconteceu num mínimo lapso de tempo, o
tempo que levei para atravessar a soleira da porta.
E então ouviu-se um segundo disparo - no quarto de
Exon.
O rosto da moça se contraiu - de forma tão
abrupta que parecia que seu pescoço ia se partir
- e ela levou as duas mãos ao peito, caindo em seguida
com o rosto enfiado nas cobertas.
Não sei se passei através, por cima, ou pelo
lado da cortina que ficava na porta de ligação
dos dois quartos. Já rodeava a cama de Exon. Ele
estava no chão, de lado, virado para uma das janelas.
Pulei por cima dele e me debrucei no parapeito.
No jardim, iluminado pela luz da lua, nada se movia. Não
havia qualquer som ou sinal de fuga. Pouco depois, quando
meus olhos ainda perscrutavam os campos, os lavradores surgiram,
em suas roupas de baixo, correndo descalços, vindo
de seus quartos. Eu gritei para eles, dando ordens para
que ficassem em pontos estratégicos.
Enquanto isso, atrás de mim, Gong Lim e Adam Figg
tinham colocado Exon de volta na cama, enquanto a Sra. Gallaway
e Emma Figg tentavam estancar o sangue que espirrava do
buraco de bala, na lateral do corpo de Barbra Caywood.
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