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Enviado
por Márcio X. Simões
ANTEPAROS
DA VISÃO
(originalmente publicado em Azougue V.I, maio de 1999)
Processo
de criação
Ruínas Romanas, um dos poemas de meu próximo
livro, Estranhas Experiências: eu estive lá.
Terminei a caminhada Capitólio - Senado Romano -
Coliseu com o poema se formando na cabeça. Os poemas
intitulados Anotações de Viagem de Estranhas
Experiências foram escritos assim. O lago do primeiro
poema de Anotações de Viagem, nadei nele,
fui tomando notas ao sair da água. O poema seguinte,
da mesma série, na Praia Mole, Florianópolis,
atrás da Lagoa da Conceição, lugar
empolgante, em 1981 ninguém ia lá. Viagens
3, de Jardins da Provocação, escrevi no avião
para São Paulo, tresnoitado, sobre a noite anterior
em Brasília. Viagens 5, a cena do quarto com a luz
filtrada pela persiana: meu quarto. O longo poema erótico
do final de Jardins da Provocação, É
assim que deve ser feito, com uma reiteração,
nossos corpos isso, nossos corpos aquilo, traduzindo o gozo,
o prazer ainda presente, as sensações da noite
anterior fluindo pelo corpo, nas imagens em frases longas.
Poemas da hora ou do dia seguinte. Então, não
se trata apenas de relação entre sujeito e
mundo, mas entre poesia e vida, e da palavra com o corpo.
O mesmo entusiasmo pode ser suscitado por um texto. Homenagem
a Dashiell Hammett, do Jardins da Provocação:
eu havia lido, de uma enfiada só, os contos do The
Continental Op, até tarde. No dia seguinte acordei
e já fui escrevendo, enquanto tomava o café.
Nem tudo é assim, no ato. Às vezes, mediado
pela memória. Um encontro, um sonho, despertam sensações
e emoções que se transformam em imagens, frases.
Ou uma combinação do aqui e agora e do antes,
um catalisando o outro. O poema em prosa Chegar lá
é, de certa forma, metalinguagem, descreve como sobrevêem
a evocação.
Citei poemas dos quais sei referências exteriores
ao texto: estive lá aquela noite, chovia em Roma,
estava em casa com aquela mulher... Outros, não sei
o que pretendia dizer com aquilo. Às vezes, redescubro
poemas. Chegar lá - quem me chamou a atenção
para esse poema em prosa foram vocês, do Azougue,
ao me pedirem que o lesse em voz alta (em uma sessão
de leitura de poesias na Biblioteca Mário de Andrade,
em 1996). Antes, não havia reparado. Há um
filme, Inventário da Rapina, de Aloísio Raulino,
um média-metragem com cenas da cidade e poemas meus,
no qual ele pôs um poema do Jardins ao qual nunca
havia dado importância, O dia seguinte (começa
assim: Ajuda-me a desembrulhar esta cidade/e seus pacotes
de percepção). Quando vi o poema na tela,
pensei - Que bonito! Como é que escrevi isso
e não reparei?
Minha poesia valoriza as imagens. Imagens visuais. Mas a
prosódia, ritmo, musicalidade, têm que estar
presentes. Mostro isso ao ler em voz alta. Fiquei mais sensível
à prosódia ao traduzir Ginsberg, autor no
qual essa dimensão é fundamental. Isso me
ajudou a perceber, também, o ritmo e sonoridade de
poemas anteriores, aqueles dos anos 60.
Poesia
e prosa
Categorias como prosa e poesia são relativas. Octavio
Paz (entre outros) lembra que a poesia precede a prosa,
que a prosa é historicamente recente. Curtius mostra
que os antigos, até a Idade Média, desconheciam
a diferença entre poesia e prosa. Era tudo o falar
eloqüente, o discurso literário, que obedecia
a regras e cânones de uma retórica e uma poética.
Não sei se passei de uma coisa para a outra, ou se
não é tudo a mesma coisa.
Comecei com os poemas em prosa do Anotações
para um Apocalipse e Dias Circulares, década
de 60, quase escrita automática, associação
livre, o Daimon encostando e soprando coisas em meu ouvido.
Anos 70, uma fragmentação, poemas não
mais apenas em prosa, mas uma espécie de versificação,
de disposição gráfica das frases na
página, e o aparecimento do tema, poema sobre Dashiell
Hammett, sobre Garcia Lorca, sobre a noite anterior etc.
Narrativa em prosa, como em Volta, publicado em 1996,
foi a etapa seguinte. Mas esse não é um percurso
linear, de uma coisa para outra. Faço de tudo ao
mesmo tempo. Contemporâneos da preparação
de Volta, há poemas em prosa e poemas que
não são em prosa. Alguma coisa do Estranhas
Experiências coincide com ter escrito Volta,
e é diferente.
Mas Volta é prosa em termos, fora do esquadro.
Um dos comentaristas de Volta - Humberto Mariotti,
em um artigo na revista Toth - observou isso, ao
intitular seu artigo de Prosa de poeta e mostrar
que a estrutura do livro, não-linear, movendo-se
em várias direções, passando de um
assunto para outro - coisas que aconteceram comigo, as cidades,
magia, surrealismo - é mais própria do poema
que da narrativa em prosa. Álvaro Alves de Faria
e Deonísio da Silva, em artigos, também viram
a confluência prosa-poesia.
É possível que essa característica
de Volta, ser uma coisa e outra, e não ser
bem uma coisa nem outra, tenha determinado dificuldades
na recepção. Complicou a classificação
e catalogação. Em alguns lugares (todo o noticiá-rio
do lançamento) figurou como en-saio. Em outros, como
memórias (memórias... esperem, a hora em que
eu for escrever memórias...). Ensaio, Volta
com certeza não é - ensaio é o prefácio
que fiz para a Obra Completa de Lautréamont,
ensaio não-acadêmico (se fosse obedecer aos
requisitos de uma tese, daria 150 páginas...), mas
com referências bibliográficas, citações,
no lugar em que tem que estar.
Volta, assim como o restante do que escrevi, e talvez
toda criação literária, foi um acerto
de contas comigo mesmo. Um desafio a ser enfrentado. Testou
meu fôlego. Sou mais de escrever textos curtos, poemas
e ensaios.
Crítica
literária
Outro
dia, numa palestra de Gerd Bornheim sobre Brecht, ele trabalhou
com as categorias arte do objeto e arte do sujeito.
Bertolt Brecht como representante da arte do objeto.
Aceitas essas categorias, perfilo-me do lado da arte do
sujeito, de Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Artaud,
Lorca, os surrealistas, beats etc. Representantes da rebelião
romântica. Baudelaire, ao questionar o realismo e
fazer o elogio da imaginação, foi o pilar,
o fundamento dessa visão.
A crítica e os estudiosos de literatura brasileiros
são enviesados para o lado da arte do objeto. Cerebrais,
formalistas. Isso tem um correlato, que é uma poesia
contemporânea brasileira excessivamente contida, bem-comportada.
Uma ou duas gerações de poetas assimilaram
um modo de escrever a la João Cabral de fase final,
que acabou por tornar-se o corifeu da poesia escrita a frio,
da supressão da emoção. Absorveram
a versificação quadrada, geométrica,
simétrica. Metáfora e analo-gia são
substituídas pela paráfrase, algo que pertence
à lógica simbólica e não à
poesia. Outro dia, ao preparar uma palestra sobre poesia
e o mar, vi isso em dois poemas de Cabral, sobre o canavial
e o mar, e sobre o mar e o canavial. São séries
de paráfrases e definições negativas,
do que o mar não é, do que o canavial não
é, um confrontado ao outro. Isso se faz em análise
lógica, na formalização dos enunciados
científicos. Poesia é o contrário de
uma coisa dessas.
Acho um escândalo a pouca atenção da
crítica e a pouca quantidade de estudos sobre poetas
como Piva, Afonso Henriques, Rodrigo de Haro, entre outros.
Piva é autor de uma poesia de grande riqueza simbólica,
original, e, além disso, todo mundo o conhece - ao
dizer todo mundo, refiro-me à ltapira
encravada na metrópole, à província
que constitui nosso mundo cultural - e faltam inserções
em antologias e estudos críticos sobre ele. Sintoma
da burocratização dos estudos literários.
Sobre Baudelaire, sobre Lautréamont, sobre Murilo
Mendes e Jorge de Lima, escrevem, protegidos pelas décadas
de distância do autor.
A situação, aqui, se assemelha ao ambiente
intelectual americano denun-ciado por Allen Ginsberg nos
anos 40/50, dominado pelo formalismo, que via a Beat como
subliteratura, fenômeno comportamental. Essa opinião
permanece. A resenha do Collected Poems de Ginsberg,
da edição Harper & Row de 86, no NY Times,
foi nessa linha. Mas lá, levou apenas alguns anos
até os beats repercutirem. Aqui, não, aqui,
são décadas, dá a impressão
de que, desde 1960, está tudo igual, mesmo com a
contracultura e ou-tros acontecimentos revolucionários
de permeio. No manifesto do final do meu livro de 1964,
Anotações para um Apocalipse, meus
impropérios contra o establishment literário
são atuais, tudo continua do mesmo jeito.
Surrealismo
Vejo o surrealismo como um enorme e maravilhoso conjunto
de realizações artísticas - na poesia,
prosa, artes visuais, inclusive objetos, colagens e fotografia,
cinema, mais isso que depois veio a ser chamado de happening
e performance - e, principalmente, como movimento de idéias.
Uma grande reflexão sobre a relação
entre poesia e sociedade, arte e política, criação
e vida. Onde Baudelaire havia sustentado a separação
das esferas do verdadeiro, do ético e do estético,
em sua crítica ao Victor Hugo de Os Miseráveis,
argumentando que as questões da verdade interessavam
à ciência, e que moral e arte nada tinham a
ver uma com a outra, Breton e seus companheiros tentaram
juntá-las ou reaproximá-las. Apresentaram
uma nova utopia.
Assim, a dimensão filosófica é inseparável
da produção artística do surrealismo.
Não existe forma surrealista. Uma exterioridade surrealista,
dissociada das idéias, não é surrealismo.
Produções instrumentais em video-clipe, peças
de publicidade, arranjos de vitrina, desfiles de moda, design,
capas de CDs, decoração, o que for, não
são surrealismo. A atenção a uma estética
surrealista pode fazer passar desapercebido aquilo que for
realmente provocador e subversivo. Por outro lado, isso
que a gente vê, hoje, pode representar um aspecto
da permanência do surrea-lismo. Ao menos, da crítica
ao realismo, à idéia da arte como mimese (nisso
dando seqüência a Baudelaire), valorizando a
liberdade de criação.
Atualidade das idéias surrealistas? Quando perder
atualidade a idéia da contradição entre
poesia e sociedade, da criação como subversão,
o mundo pára.
Há polêmica à vista. Ainda mais com
a publicação, programada para logo, das entrevistas
de André Breton. Em resenhas sobre um livro de en-trevistas
com poetas latino-americanos de Floriano Martins, Escritura
Conquistada, foi questionado o interesse do surrealismo
para a literatura brasileira. O próprio Floriano,
mais alguns de seus entrevistados, foram chamados de tardosurrealistas.
Comecei a imaginar, quando li isso, os possíveis
prefixos do surrealismo. Tardígrados tardo-surrealistas.
Esquivos parasurrealistas. Sombrios criptosurrealistas (incluindo
o autor da série Contos da Cripta), Lúgubres
sub-sur-realistas, adejantes suprasurrealistas, megasurrealistas
freqüentadores das megastores, consternados pós-surrealistas
tão tristonhos quanto pós-modernos. Anti-surrealistas
engolindo em se-co depois de adotarem e lerem direito Octavio
Paz. Animados neo-surrealistas, um bando deles subindo e
descendo às carreiras, fazendo bastante confusão,
as escadarias do seu prédio, Sergio Cohn, naquela
festinha de aniversário do Piva. E eu? Quem sou?
Qualquer hora, jogam um grosso volume de taxonomia literária
sobre minha cabeça, represália a esta entrevista
e ao Estranhas Experiências.
Há um acervo de besteiras sobre surrealismo. Duas
vezes, nos últimos anos, li em artigos na Folha -
um de Milan Kundera, outro de Décio Pignatari (como
esse está cada vez mais idiossincrático!)
- a afirmação de que o surrealismo não
produziu literatura importante. Não, não produziu
nada... Exceto toda a poesia de língua francesa da
primeira metade do século. E não só
Breton, Péret, Eluard etc. Há uma configuração
surrealista, que inclui até mesmo Queneau e Ponge,
depois de participarem do movimento, fazerem questão
de criar algo diferente, bem como Char ficar pouquíssimo,
mas dizer que aqueles foram os anos mais importantes de
sua vida, e Michaux ter que dar-se ao trabalho de explicar
por que não era. Idem, na segunda metade do século,
com Octavio Paz, Almé Césaire, Mário
Cesariny, não importa quanto tem-po cada um deles
participou ativamente do grupo surrealista. Assim como não
importa se alguns desses poetas são duas décadas
e meia mais velhos do que eu - em termos de tempo da História,
isso não é nada.
Nesses e em inúmeros outros casos, o surrealismo
é referência. Há uma cons-telação
da rebelião, na qual o surrealismo tem lugar central,
brilho mais forte, e que, contudo, é mais extensa
do que o surrealismo achava que fosse (para mim, inclui
a Beat, onde a rebelião se realiza). E há
mais coisas ainda. Grandes autores com relações
ambivalentes. Cortázar, em seu livro de entrevistas,
argumentar que fazia algo menos simbólico, mais real
do que surrealismo, para mim é um modo de dizer que,
mes-mo incorporando o hábito de guiar-se por signos
ao acaso da cidade, ia além das paráfrases
bretonianas no Jogo de Amarelinha. O surrealismo como divisor
de águas, referência, inclui as caras feias
dos estruturalistas, que nossos scholars adotaram. Gérard
Legrand, nos anos 60, ironizou os colóquios de Cérisy-la-Salle
como frescura, perfumaria de intelectuais. 0 Brasil universitário
adotou Tel Ouel e afins, e, por tabela, seus contra-ataques
a La Bréche.
Não tenho um medidor de radiação que
dê os graus de contaminação surrealista
de poetas contemporâneos brasileiros. Nem sei se é
o mais importante, embora, com certeza, esse hipotético
medidor fosse crepitar perto do Sérgio Lima. Interessa
a escrita com imagens, e a poesia em prosa, gênero,
a meu ver, subversivo, por, sendo uma coisa, ser outra.
Floriano Martins de Tumultú-mulos e outras obras,
sem dúvida. Sérgio Lima, cf acima. Idem, ibidem,
Piva, Afonso Henriques. Os poemas em prosa do Weydson Barros
Leal. Muito mais gente. Poetas imagético-hermético-simbólicos,
a começar por Rodrigo de Haro.
Boom
de poesia
Não há boom poético. Entendendo boom
como sinônimo de proliferação, o último
foi o dos poetas marginais dos anos 70/80. O que está
sendo publicado e divulgado, via novas editoras (Nankin,
Sette Letras) e novos periódicos, é o mínimo.
Parece muito porque, até há pouco, não
havia nada.
Para acontecerem leituras de poesia, basta alguém
disposto a trabalhar, se possível de modo competente.
Faço parte de uma geração poética
- a dos anos 60 - que definiu sua identidade negativamente
em relação à poesia concreta e outros
empreendimentos formalistas, precedentes ou contemporâneos.
O que Antônio Fernando de Franceschi escreveu em seu
depoimento à antologia do Augusto Massi, e o que
eu publiquei na Revista da Biblioteca Mário de Andrade,
sobre poetas dos anos 60, vale para todos os autores daquele
período (coleção Novíssimos
de Massao Ohno etc). No caso do nosso grupo (Piva, De Franceschi,
Décio Bar, Sérgio Lima e Rodrigo de Haro alternadamente,
um por vez, Maninha, logo em seguida Bicelli, Raul Fiker)
mais radical, mais antiburguês, negativamente também
com relação à geração
de 45 e às expressões poéticas do nacional-populismo,
tipo Violão de Rua. Para nós, ou eram cerebrais
e faziam poesia burocrática, dissociada da vida,
ou eram beletristas acadêmicos, ou tudo isso junto.
Afirmando nossa identidade, afirmamos a diferença
com relação ao mundo literário e, por
extensão, à sociedade. Traduzimos isso comportamentalmente,
com provocações e boemia desenfreada (li,
há pouco, a biografia de Ginsberg por Barry Miles
- nesse livro, e nas biografias de Kerouac, quando falam
daquele período dos anos 40/50... - e quando leio
em voz alta o Uivo, aquelas histórias e alusões
- como eu sei muitíssimo bem do que estão
falando! - há um depoimento meu para o Piva, na série
Meditações de Emergência da Funarte,
a ser publicada, cujas entrelinhas são sugestivas).
Havia, reconheço, algo de província nisso
de você cruzar a toda hora com alguém de outra
turma, dar de cara com Bell, Chamie ou Paulo Bonfim na esquina
da Consolação e São Luís, ou
estar no bar ao lado, ou a duas mesas de distância
no mesmo Paribar ou Ferro's Bar. Mas toda vida literária,
inclusive Nova York ou Paris, é meio província.
E aquela agitação era sintoma de vitalidade.
Dos anos 80 para cá, não vejo nada com esse
caráter coletivo e orgânico. Há poetas.
Mas o panorama oferecido por uma antologia importante, como
Artes e oficios da Poesia, do Augusto Massi, é uma
soma de individualidades. Outra antologia recente, essa
que saiu nos Estados Unidos e provocou polêmica (Nothing
that the Sun could not explain, organizada por Nelson Ascher
e Régis Bonvicino) retrata um segmento em relação
de continuidade com a poesia concreta (sem dúvida,
atestando sua permanência, mostrando como resistiu
ao confronto com a poesia marginal e outras correntes antagônicas).
Portanto, dos marginais para cá, quase nada de novo
em matéria de movimentos e propostas coletivas, embora
tenham aparecido bons autores.
Estou comentando isso para chegar à distinção
entre duas coisas. Uma, leituras e outras manifestações
como expressão de um movimento. Outra, sessões
de leitura de poesia que são, ou deviam ser coisa
normal na agenda de São Paulo, do Rio, de qualquer
metrópole. Aí, repito, basta alguém
saber organizá-las.
Participei de leituras nos anos 60. Voltei a participar,
e a organizá-las, nos anos 70 (Feira de Poesia e
Arte, inclusive). Com verbas e apoio da Secretaria Municipal
de Cultura, nos anos 90. Ha-via parado, pois promover esse
tipo de coisa sem apoio é desgastante. As lei-turas
dos anos 60 foram expressões de movimentos e propostas
(o grupo do Bell, o Álvaro Alves de Faria, o nosso,
depois a série de leituras promovidas por Renata
Pallottini, Neide Archanjo e Ilka Laurito etc). As dos anos
70, da resistência política, pluralistas, retinindo
quem era contra os militares (bastante gente). A interrupção
da sua regularidade entre 1985 e 1995 foi, de um lado, resultado
da falta de propostas - de outro, um problema de política
cultural e administração cultural.
Eunice Arruda organizou leituras e depoimentos na Livraria
Duas Cidades. Há programação de poetas
novos na Livraria Cultura. Donizete Galvão e Dora
Ferreira da Silva. Renata Pallottini e Cel-so de Alencar,
em um novo espaço cultural no Itaim. Alguma coisa
na Funarte-SP. No Rio, as Quintas Poéticas. Algo
sendo feito pelo trio Claufe-Bial-Petri. E as coisas lançadas
ao ar, ou ao ciber-espaço, como as pages da Casa
das Ro-sas. Espero que prossigam e se am-pliem. A quantidade
não provocará per-da de qualidade. Ha-vendo
quem as patro-cine, é natural acontecerem. Mas não
indicam, necessariamente, movimentos com uma fisionomia
identificável.
Com essa característica, com maio-res chances de
exer-cer um papel catalizador, o que existe, parece-me,
é o circuito que inclui este Azougue e Nankin do
Fábio Weintraub. Tomara que, com o tempo, ocupem
a cena, influindo nos ritmos da crítica e da recepção.
Novos
projetos
No Azougue n° 1, ou zero, ou 0,75, para o qual dei um
depoimento, havia comentado que ia organizar leituras de
poesia. Quando saiu aquele Azougue, já estavam acontecendo.
Agora, penso mais para a frente, no que pode ser feito além
das sessões com leituras de poesia e depoimentos
de poetas.
Tenho alguns projetos. Um, de poetas falando sobre prosa
e fazendo leituras de prosa, e prosadores lendo poesia e
falando de poesia (a idéia é do Augusto Contador
Borges). A intenção é evidente, depois
do que disse acima sobre poesia-prosa.
Outro projeto, que espero começar logo, é
um ciclo de palestras e leituras de texto sobre malditos,
rebeldes e marginais, desde William Blake e o Marquês
de Sade até Ginsberg e Artaud. A intenção
é valorizar a rebelião como força motriz
da criação e da própria história,
e enfrentar a onda que vem aí de bom-comportamentismo,
hipocrisia, neo-moralismo politicamente correto,
censura querendo entrar pela porta dos fundos.
Além disso, quero, eu mesmo, dar oficinas de leitura
de poesia. Leitura como expressão oral e como interpretação
do texto, interligadas. Chamou-me a atenção,
nesses ciclos que organizei, haver poetas que sabiam dizer
seus poemas, e outros que apresentavam um resultado oral
aquém do que estava escrito. Portanto, presos à
página. Cordas vocais, boca, brônquios etc,
fazem parte do corpo humano. Acho que o trabalho com o som
também é aproximação entre signo
e corpo, e pode resultar em um ganho de concretude da criação.
Não pretendo fazer oficinas de poesia Beat, mas me
parece que a valorização da oralidade e prosódia,
notadamente em Ginsberg e Kerouac, teve relação
direta com a dimensão do concreto, a saída
do ar rarefeito onde pairava a poesia que os circundava.
Quanto a publicações minhas, são dois
livros em vista. Um deles, o livro de poesias, Estranhas
Experiências, com poemas inéditos e alguns
de Jardins da Provocação e Dias Circulares.
O outro um livro de ensaios. Para 1999, também, pela
Palas Athena. Título, O escritor como personagem
- textos sobre literatura e vida. É sobre biografias
de escritores, retomando artigos que publiquei e conferências
já dadas sobre Lautréamont, Jarry, Artaud,
Kerouac, Lorca e Dashiell Hammett. Seu fio condutor: a idéia
do escritor como personagem de si mesmo, da literatura produzindo
vida, numa relação contrária àquela
que o realismo enxerga (da arte retratando a vida), e herética
com relação ao formalismo (que recorta o texto
de seu contexto e exclui o biográfico).
De outro modo, isso foi tema de Volta: os momentos mágicos
em que o texto se antecipa aos acontecimentos e parece produzí-los.
No meu prefácio a Lautréamont, também
insisto em que havia um sujeito, alguém de carne
e osso escrevendo aquilo. Quero ir mais longe. Há
um período, uma fase da história da literatura
que pretendo pegar a fundo. O grupo de poe-tas e intelectuais
associados ao simbolismo e decadentismo, ligados à
revista Mercure de France, e os por ela valorizados ou publicado.
Daí, desse ambiente cultural, surgiram ou receberam
influência, direta ou indireta, idéias, movimentos
e personagens que constituíram modernismos e vanguardas:
cubismo, futurismo, construtivismo, imagismo poundiano,
dada, surrealismo, as re-voltas e revoluções
culturais que pautaram o século XX. Tomando o simbolismo
e o pós-simbolismo francês em sua formação
mais ampla, a escalação completa, vê-se
a plêiade de excêntricos, visionários,
loucos: Rimbaud, Verlaine, Mallarmé, Corbiére,
Laforgue, Huysmans, Germain Nouveau, Lautréamont,
Fargue, Jarry (...nunca ninguém confundiu tanto autor,
personagem e obra como Jarry, ao encamar Ubu Rei daquele
jeito: protagonizou na vida real um texto que nem era seu,
porém adaptação de uma gozação
escolar, escrita por colegas de Liceu!).
* * *
Aqui, neste depoimento, comecei com observações
sobre a relação poesia-vida na criação
dos meus poemas. Termino mostrando mais alguns modos dessa
relação, seja em projetos de ação
cultural ou em textos que estou preparando. Pode ser que
meu interesse não esteja propriamente voltado para
a literatura, mas para outra coisa, um lugar entre a literatura
e o outro, onde se processa o diálogo sobre a contra-dição
entre palavra e vida, símbolo e realidade. Um eixo
ao redor do qual tenho dado voltas. 
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