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Ngunguhane
foi o último soberano do sul de Moçambique,
antes da conquista definitiva da região pelos portugueses.
Ele foi derrotado e preso em 1896 e levado a Portugal, onde
veio a falecer. Este conto de Ungulani é particularmente
emblemático, pelo fato de que, através da
voz do soberano, o autor fez uma crítica aguda do
sistema político Moçambicano pôs independência,
pautado pela repressão política, carência
e guerra civil. Em suma, tudo o que "o rei profetizou",
se concretizou. (Beto)
de
Ualalapi
INLD, 1981
Virou-se repentinamente para a multidão que o vaiava, a
uns metros do paquete que o levaria ao exílio, e gritou
como nunca, silenciando as aves e o vento galerno, petrificando
os homens e as mulheres com as palavras que saíam em catadupa
e que percorreram, eni outras bocas, gerações e gerações
em noites de vigilia e insónias, dada a forja premonitiva
que carregavam nessa manhá sem outro registo que o mar sem
ondas, o paquete atracado, o Sol com a mesma cor, as nuvens
de todos os tempos, a multidão concentrada, Ngungunhane
falando, e o corpo bojudo oscilando para a direita e para
a esquerda, enquanto os olhos reluziam e as mãos tremiam
ao ritmo das palavras que cresciam, de minuto a minuto,
como agora em que Ngungunhane dizia a todos, podeis rir,
homens, podeis aviltar-me, mas ficai sabendo que a noite
voltará a cair nesta terra amaldiçoada que só teve momentos
felizes com a chegada dos nguni que vos tiraram dos abismos
infindáveis da cegueira e da devassidão. Fomos nós, homens,
que vos tirámos da noite que vos tolhia á entrada ao mundo
da luz e da felicidade. As nossas lanjas tiraram as cataratas
fossilizadas que ostentavam, e os nossos escudos esconjuraram
os males de séculos e séculos que carregavam no corpo putrefacto.
E hoje, corja de assassinos e cobardes, ousais achincalhar-me
com toda a força dos pulmões rotos que tendes.É a paga,
eu sei, dos bens que os nguni fizeram. Mas ficai sabendo,
seus cães, que o vento trará das profundezas dos séculos
o odor dos vossos crimes e viverão a vossa curta vida tentando
afastar as imagens infaustas dos males dos vossos pais,
avós, pais dos vossos avós e outra gente da vossa estirpe.
Começareis a odiar os vossos vizinhos, increpando-os dos
males que padecerão nas palhotas sem idade. O ódio alastrar-se-á
de familia em família, atingindo os animais da vossa estima
que passarão a lutar pelos pastos, se de gado bovino ou
caprino se tratar. Os galos não se meterão com as galinhas
da vizinha e os ratos dividir-se-ão por casas e roerão os
bens de uma só família ao longo de gerações e gerações.
E aí, seus cães, não terão coragem de erguer a cabeça. A
corcova será de tal ordem que tereis filhos e netos com
uma bossa interminável e hereditária!
- Há pormenores que o tempo vai esboroando disse o velho,
tossindo. Colocou duas achas no fogo e soprou. Novelos de
fumo passaram pelo rosto. Pequenas lágrimas sairam dos olhos
cansados e tocaram na pele coberta de escamas. Afastei os
papéis. Olhei-0. Era noite.
- Era miúdo ainda - prosseguiu - quando o meu avó me contava
histórias de Ngungunhane. E eu tinha medo. Um medo que hoje
não consigo explicar. Mas era medo. Quando dormia sonhava
sempre com lanjas e escudos a chocarem-se na planície, numa
planície sem guerreiros, mas com escudos e lanjas que se
movirnentavam, chocando-se constantemente. Nunca contei
ao meu avô os meus sonhos. Receava que ele parasse de contar
as histórias de Ngungunhane. E quando contava a voz tremia
e os gestos seguiam o ritmo da voz. Morreu a dormir, sonhando
alto. De manhã, ao entrar na sua cubata, vi-o deitado ao
comprido, olhando o tecto. Falava. A voz tocava-me profundamente.
Durante horas seguidas ouvi-o falar. Quis acordá-lo, pois
já era tarde. Ao tocá-lo notei que o corpo estava frio.
Há muito que tinha morrido. Tiveram que o enterrar imediatamente
para que os vizinhos não nos chamassem feiticeiros. E o
nosso espanto foi ouvir a voz saindo da cova, uma voz como
que vinda de escarpas abissais. O meu pai teve que sentar-se
sobre a sepultura e acompanhar, movimentando a boca, a voz
do defunto. Os vizinhos e outros familiares distantes sentiram
pena do meu pai, pois pensaram que estivesse louco. Noite
e dia, durante uma semana e meia, o meu pai abria e fechava
a boca.
- Como é que se chamava?
- O meu avó?
- Sim.
- Somapunga. E ele, ao contar-me as histórias de Ngungunhane,
repisava alguns aspectos que o meu pai se esquecia e que
tu omitiste. E são pormenores importantes.
- Não me recordo de ter omitido nada.
- Quando Ngungunhane falava á multidão que o vaiava, uma
mulher, sem aparéncias de gravidez, teve uma criança sem
olhos e sexo. Dois homens tiveram um colapso cardíaco.
- E ninguém reparou?
- Petrificados que estavam com as palavras de Ngungunhane,
creio terem sido poticos os que viram.
- A mulher não gritou?
- Não. Deve ter aberto os olhos e a boca antes de desmaiar.
Quando deram por ela já estava morta. E o que impressionou
as pessoas foi o sangue escorrendo em direcgáo á fortaleza.
O sangue era negro como a nossa pele. E á medida que avançava
abria um pequeno sulco pela encosta acima. Os portugueses
cobriram com saibro.
- Interessante.
- É, é interessante - disse o velho, soprando o fogo. Pequenas
faúlhas saltaram e desapareceram na noite.
Estes homens da cor de cabrito esfolado que hoje aplaudis
entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas
e o chicote do comprimento da jibóia. Chamarão pessoa por
pessoa, registando-vos em papéis que enlouqueceram Manua
e que vos aprisionarão. Os nomes que vêem dos vossos antepassados
esquecidos morrerão por todo o sempre, porque dar-vos-ão
os nomes que bem lhes aprouver, chamando-vos merda e vocês
agradecendo. Exigir-vos-ão papéis até na retrete, como se
não bastasse a palavra, a palavra que vem dos nossos antepassados,
a palavra que impôs a ordem nestas terras sem ordem, a palavra
que tirou crianças dos ventres das vossas mães e mulheres.O
papel com rabiscos norteará a vossa vida e a vossa morte,
filhos das trevas.
As mulheres, que tanto estimais, passarão a ser fornicadas
como animais nas vossas casas ou nas traseiras das casas
destes animais que hoje respeitas mais que os vossos irmãos
nguni. Os gritos de dor e de prazer das mulheres
perseguir-vos-ão por todo o lado e passareis noites e noites
contando os paus do tecto, incapazes de se vingarem da infâmia
que tocou as mulheres. Muitos de entre vocês suicidar-se-ão
em árvores anãs ou entregar-se-ão aos crocodilos que vos
rejeitarão pela cobardia que transportam, e flutuarão pelas
águas durante anos e anos sem que um animal aquático se
aproxime da carne putrefacta. Outros suportando a dor e
a ignomínia e passarão a acompanhar a mulher á casa do branco,
mantendo-se na escuridão do pátio, enquanto a mulher transpõe
a porta e entra no quarto donde sairá com insultos do branco
que a obriga a tomar banho antes de entrar nos lenções cheios
de esperma e larna, como se ela não tivesse tomado banho
de manhã e á tarde, no rio oui em casa. O marido suportará
estes insultos ouvindo a água a escorrer pela cútis negra
e limpa enquanto aguarda, com um olhar de cadáver, o estertor
maníaco do branco e o ofegar da mulher que se contorcerá
na cama, libertando sons do fim dos tempos que rebentarão
com os tímpanos e as veias donde escorrerá o sangue e as
lágrimas da vergonha que atingirão o ponto culminante ás
altas horas da noite, quando o branco, do parapeito da janela,
atirar a moeda da fome que procurará como um sonâmbulo na
noite sem estrelas. Seguirá para casa silencioso, incapaz
de falar com a mulher que vai tropegando nos escolhos, envergonhada,
aviltada.
E por todo o lado, como uma doença que a todos ataca, começarão
a nascer crianças com a pele da cor do mijo que expelis
com agrado nas manhãs. Serão crianças da infâmia. E pela
primeira vez na vossa vida vereis filhos rejeitando as mães
que se atirarão às casas onde o corpo se venderá ao preço
do pão, fornicando com as crias que desconhecem e apontando
ao acaso os presurniveis pais da caterva de miúdos que nascem
ás dezenas. As doenças nunca vistas tocar-vos-ão a todos,
e não darão ouvidos ao curandeiro porque haverá casas onde
espetarão ferros pelo corpo; e haverá homens com vestes
de mulher que percorrerão campos e aldeias, obrigando-vos
a confessar males cometidos e não cometidos, convencendo-vos
de que os espíritos nada fazem, pois tudo o que existe na
terra e nos céus está sob o comando do ser que ninguém conhece
mas que acompanha os vossos passos e as vossas palavras
e os vossos actos. A noite terá caído definitivamente nestas
terras que mudarão de face com o vosso suor.
vossa existência por pouico tempo, pois começarão a odiar-se
e a matarem-se por pensarem no trono antes de o conquistarem.
Haverá sangue a correr, chamar-se-ão nomes que a vossa língua
não comporta e voltarão a procurar os curandeiros da vossa
salvaguarda que passarão a cobrar pela mesma moeda que o
cantineiro vos cobra pelo arroz. Matarão á distáncia o vosso
opositor, fazendo-o emergir na bacia de morte onde a água
tomará a cor do sangue. Lançarão abelhas mortíferas aos
vossos animigos e haverá cacimbo ao meio-dia. Mas começarão
a aprender novas doutrinas que rejeitarão os espíritos,
os feiticeiros e curandeiros. Todos ou quase todos aceitarão
o novo pastor, mas pela noite adentro muitos irão ao curandeiro
e pedirão a raiz contra as balas do inimigo, porque não
quererão morrer antes de saborearem a vitória, e o curandeiro
pedirá o coração do inimigo que abaterão sem piedade na
emboscada dos troncos que se movem. Em todo o lado sentir-se-ão
heróis, pois a bala passará á distáncia e se vos tocar bastará
um encosto á árvore que secará e que vos restituirá a saúde.
Outros transforinar-se-ão em serpentes, entrarão no campo
inimigo, estudarão os seus passos e verão o quantitativo.
E esta será a nossa guerra vitoriosa contra os homens que
entraram nestas terras sem autorização de ninguém. Muitos
dos filhos destes homens ficarão nestas terras e aprenderão
as nossas línguas e dançarão as nossas danças e casarão
com as nossas mulheres á vista de toda a gente e serão nossos
irmãos de verdade porque esconjurarão com os curandeiros
do amanhã os seus males de séculos.
Chegada a vitória tereis um preto no trono destas terras.
Exultareis de alegria ao verem subir panos na noite chuvosa
da vossa vitória. Mas não tereis chegado ainda ao tempo
da vossa felicidade, seus cães, por que a maldição que abraçou
estas terras, perdurará por séculos e séculos. E na ilusão
da vossa vitória invadiráo casas que erguestes e mudarão
a ordem das coisas, passando a cagar onde deviam comer e
a comer onde deviam cagar. A desordem será de tal ordem
que as casas mudarão de cor, passando a ter a cor da morte
que se instalará nas vossas terras que terão a extensão
de meses e meses de percurso. Haverá chuvas de nunca acabar
que arrasarão os campos e as cidades. As estradas rebentarão
e começarão a surgir pelas avenidas e ruas, serpentes comi
ninhos á vista de toda a gente e confundirão os seus silvos
com. os apitos desordenados de polícias em jejum de séculos
á caga de ladrões profissionais que roubam cigarros e pilhas
e batatas e restos de comida. Os carros de bois passarão
a. substituir as máquinas que deitam fumo e verão as ruas
repletas de bostas secas e frescas que os homens recolherão
nas noites infindáveis da fome. Ávidos em se alimentarem
farão papas de merda que provocarão diarreia e vómitos que
encherão as casas de cimento, saindo depois pelos corredores
e escadas sem degraus até aos jardins e ruas, provocando
o dilúvio de diarreias e vómitos que afogará crianças e
velhos, homens e mulheres, que serão o alimento de ratos
gigantes que terão a liberdade das avenidas e casas sem
dono. Serão os primeiros dias da vossa desgraga que se completarão
com os homens que percorrerão as matas, matando os pais
e a máes, ávidos do tempo do chicote e das plantações de
sonâmbulos. A confusão reinará por séculos e haverá suplícios
ao fogo; rebentarão as barrigas grávidas de mulheres inocentes,
obrigando os pais a comer os nados-mortos sem uma lágrima
nos olhos. O sol mudará de cor e as nuvens afastar-se-ão
do céu por tempos imprecisos, trazendo a chuva quando menos
esperam e o sol quando se espera a chuva. E a fome chegará
á loja onde os cantineiros passarão a vida a espantar as
moscas, enquanto o povo inteiro transforma as ruas em cantinas.
As cadeias multiplicar-se-ão e os homens do mando chegarão
ao ponto de prender a todos porque todos venderão e compraráo
coisas ao preço que ninguém sabe. E as ruas estarão desertas.
E haverá chefes sem súbditos. E terão que voltar ao princípio
dos princípios. Eis o que é e o que será a vossa desgraça
de séculos homens. Agora riam-se á vontade, riam-se, homens!...
- E olhou-os - disse o velho -, estava cansado. Transpirava
por todo o corpo e o peito estava cheio de baba. A multidão
olhava-o petrificada. As nuvens tinham desaparecido. As
ondas começaram a surgir nas aguas e o paquete começou a
roncar. O Sol estava a meio do céu. As mulheres começaram
a chorar. Os homens, incrédulos ainda, olhavam Ngungunhane
que limpava calmamente a baba. Deu dois passos em frente
e parou. Numa voz arrastada, calma, cansada, disse: - A
chuva não virá a estas terras antes de se completarem dois
anos. Irão pelo mato fora e comerão ratos que desaparecerão
na primeira noite. Depois procurarão gafanhotos que não
encontrarão.Entrarão nas aguas e comerão os peixes, contrariando
o juramento que fizestes ao longo da nossa estada nestas
terras. Os nguni que restarem voltaráo á Zululândia,
porque não suportarão a vossa cobardia, tsongas sem
espírito!
Ditas estas palavras finais Ngungunhane virou-se e caminhoui
em direção ao navio, acompanhado pelas mulheres e o filho
e outros homens. Subiu as escadas sem voltar uma única vez
o rosto. Desapareceu no interior do navio. Durante uma hora,
aproximadamente, ficaram á espera que o navio arrancasse.
Os motores trabalhavam. As águas em volta estavam revoltas.
0 navio não arrancava. Passada a hora ouviu-se um canto
a elevar-se pelos ares e os pássaros a invadir o céu. Ngungunhane
cantava e dançava. A voz, em barítono, tirou lágrimas aos
velhos e novos que olhavam. o navio a abrir as águas afastando-se
da costa. Depois do barco se perder no mar ouviu-se ainda
o canto a cobrir o céu e a terra. Ngungunhane desapareceu.
Levou duas achas ao fogo e soprou.
- A seca invadiu estas terras - continuou. A colheita foi
má. Maguiguane quis aproveitar-se do descontentamento para
a revolta mas os portugueses tinham mais forças. 0 império
desabou para todo o sempre. Já tinha desabado com a partida
de Ngungunhane.
- É isso - redarguiu o velho. - Já tinha desabado. Os portugueses
venceram.
- Mas perderam num campo mais vasto.
- Ngungunhane tinha predito.
- Tem razão. Não vai dormir?
- Vou dormir aqui, junto ao fogo.
Levantei-me. Estava cansado. A noite clara, sem nuvens,
dava total liberdade á Lua. Comecei a afastar-me da fogueira.
Com a cabeça apoiada entre as mãos o velho soluçava. Comecei
a andar depressa. Não sei porque mas á medida que ouvia
o choro do velho apressava o passo. Afastei-me da cabana
que me estava reservada e virei o rosto em direcão á fogueira.
Entre duas mangueiras enormes, o velho, com a cabeça entre
as mãos, não via o fogo e a noite. Chorava. E eu afastava-me
da cubata, do meu quarto, e atirava-me á noite de luar.
Algo me intrigava no velho e no discurso de Ngungunhane.
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