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de O Rei de Suja de Havana Companhia das letras, 2001
Nada de libações, Pedro Juan, disse para mim mesmo. Aí me dei conta de que eu era um mendigo de merda. Um pedinte asqueroso, sujo, com barba de dois dias. Estava sem sapatos e sem camisa, andando ainda meio bêbado, quase inconsciente. Podia pedir esmola e comprar alguma coisa de comer. Depois resolvia que droga eu ia fazer para voltar para o meu quarto e agarrar a Cusa pelo pescoço e acabar com a raça dela. Porque você me deixou ali caído, sua filha da puta? haveria de perguntar-lhe, só que entre bofetões. Gosto de dar uns bons sopapos nas mulheres, quando elas merecem. E vou comer a Cusa desse jeito. Dando bofetões na cara dela. Bem ardidos, bem doídos, vou encher a cara dela de bolacha e quando meu pau ficar duro, meto nela. Ahh, que bom. E a velha vai dizer:"Pare de me bater, mas ponha tudo, até o talo, papi gostoso. Pare de me bater, porra!". E na hora começa a ter orgasmos e a gritar e a ofegar com cada jato de porra. Ah, como vou gozar com aquela velha peituda.
Estendi a mão e comecei a pedir a todos os que passavam por mim.Mal balbuciava alguma coisa. Para pedir esmolas não dse pode falar com clareza, nem argumentar, nem nada. Você é um animal miserável, um micróbio pedindo umas moedas pelo amor de Deus. Um pesteado.
Pedro Juan veio para o Brasil em Maio de 2001 para a bienal
do livro do Rio e passou por São Paulo. Foi conhecer
a noite underground do centro da cidade, mais especificamente
a meca dos clubes-inferno das garotas e garotos de programa,
a tal boca de lixo. Portou-se de acordo com o roteiro e
reforçou o mito que está se construindo em
torno de seu personagem-alter ego, tal e qual Bukowski.
Tomou todas, apavorou as meninas da zona, passou a mão
em meia dúzia delas e se declarou o verdadeiro Rei
de Havana, tal e qual Reinaldo, o personagem de seu segundo
livro, O Rei de Havana. Aqui, Reinaldo é
impiedosamente levado através da pena do escritor,
a uma degradação fisica e moral numa Havana
de desvalidos e embrutecidos pelas dificuldades do dia a
dia e pela falta de esperança. Ao cubano, só
resta o rum, a salsa e o sexo, diz Pedro Juan.
Perdro Juan está com 54 anos e já lançou
na Europa (seu principal mercado) o seu último livro
de contos: Animal Tropical e atualmente está
terminando O Insaciável Homem Aranha, em que
aparece o mesmo Pedro Juan de sempre.É um escritor
no auge do processo criativo e que achou a sua fórmula
e nos promete mais pauladas. Ler Trilogia Suja de
Havana e o "O Rei de Havana" foi um prazer
que se renovava a cada página e digo para vocês
que não deixei de desejar escrever como Pedro Juan.
Esse é um cara de fibra e ainda tem fígado
para doses cada vez mais fortes.

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