|
de
Cidade de Deus
Companhia das letras, 1997
Rumaram
dali, novamente em correria, para as Últimas Triagens, aonde
chegaram dando tiros em fechaduras, vasculhando todas as
moradias, e prenderam, igual polícia, dois traficantes.
Dirigiram-se para a Quadra Quinze com os presos sob a mira
de revólveres. Junto com Biscoitinho, Pequeno invadiu a
casa do homem que esfaqueou Bené. Tiraram-no da cama debaixo
de coronhadas e levaram-no com os outros dois para a beira
do rio.
- Deita aí, deita aí...
- Qual é, Pequeno?.. Não faz isso, não... Que que a gente
fizemo? Pelo amor de Deus! - disse um dos traficantes já
defecando, sentindo o corpo todo se apertar no desespero
de quem caminha para a morte.
Os outros dois se desfaziam em choro calado entre os quadrilheiros,
que também não entendiam bem a situação. Sabiam que Bené
fora esfaqueado, mas pensaram que só iriam buscar forra
no esfaqueador. Alguns queriam sair dali. Mas quem teria
coragem de ir contra Pequeno? Biscoitinho e Camundongo Russo
mostravam-se felizes, davam coronhadas quando um dos três
levantava a voz pedindo clemência. A chuva era rala, o rio
corria um pouco mais veloz, Pequeno ria mais fino, mais
estridente e mais rápido, sem piscar e com o pescoço balançando
a sua cabeça na direção de todos os extremos daquela hora.
O primeiro dos três deitou-se debaixo de porrada e tiros.
Diversos tiros explodiram sua cabeça. Pequeno empurrou com
os pés o corpo, que ainda estrebuchou dentro do rio. O primeiro
assassinato emudeceu os outros dois prisioneiros da quadrilha
de Pequeno. O homem que esfaqueou Bené desfaleceu antes
de levar tiro por todo o corpo. Foi empurrado para dentro
do rio também estrebuchando. Subitamente, o último pulou
dentro do rio, ficou embaixo d'água procurando se agarrar
em alguma coisa. Quando voltou à tona para buscar ar recebeu
um tiro da pistola de Pequeno na parte esquerda do crânio.
Antes mesmo de desengatilhar a arma, surgiram, de um beco,
dois amigos dos traficantes executados, vinham pedir que
os poupassem. Ao verem os corpos boiando, perguntaram a
Pequeno o que estava acontecendo.
- Veio fazer pedido, veio fazer pedido? Não tem pedido,
não! Não tem pedido, não! Tá de ferro aí? Tá de ferro aí?
- perguntou Pequeno.
- Tamo, mas vinhemos numa de paz.
- Paz é o caralho, rapá! Me dá os ferro aí! Me dá os ferro
aí!
Os dois entreolharam-se, colocaram a mão direita na parte
de trás da cintura, olhavam firme nos olhos de Pequeno,
que ao escutar o engatilhar de uma das armas passou fogo
nos dois e berrou para Camundongo Russo:
- Joga lá no rio, joga lá no rio!
Caminharam lá em cima por toda parte dando tiros para o
alto, mandando fechar biroscas. Pequeno, como sempre, dava
tapas no rosto de quem não ia com a cara, avisava que era
o dono do pedaço, qualquer um que botasse boca ali iria
cair fedenddo. Avisou a Bá que ela poderia vender toda maconha
e brizola que tivesse, mas depois só iria vender para ele.
Ainda ficou ali um tempo e depois dirigiu-se para a Treze
atrás de Sandro Cenoura.
- Chega aí, Sandro, chega aí, Sandro... O caso é o seguinte:
matei todo mundo lá em Cima, tá ligado? E é o seguinte,
tu só vai ficar de frente aí, morou? Mas só se tu mandar
um dinheiro pra cadeia lá, tá ligado? Tem que mandar dinheiro
pra Calmo e Marimbondo, tá ligado? Senão tu vai cair! Vai
cair! Vai cair!
(...)
A chuva tomou novo impulso, seus pingos ricocheteavam nos
telhados como rajada de metralhadora. A água lavou as manchas
de sangue na beira do rio, apagou as velas em torno do corpo
de César Veneno.
- Mas não tem importância se tudo que vem do céu é sagrado!
- disse sua mãe depois de rezar um terço e desistir de manter
as velas acesas.
(...)
- Tem mais de trinta aqui fora! Se tiver gente aí dentro
ainda, é melhor sair que de repente rola até uma idéia.
Ari do Rafa avisou que ia sair com as mãos para cima.
-Tudo bem! -respondeu Pequeno.
O traficante saiu conforme prometera. Pequeno mandou que
se deitasse no chão com as mãos esticadas, caminhou em sua
direção e revistou-o. Cabelo Calmo, Buzininha e Xaropão
entraram no barraco, saíram rapidamente e, através de sinais,
informaram ao chefe que não havia mais inimigos. Alguns
quadrilheiros desengatilharam as armas, somente Pequeno,
Calmo, Bené, Biscoitinho e Madrugadão mantinham suas pistolas
engatilhadas. Pequeno mandou quatro homens para pontos estratégicos
e foi dar um confere nos mortos. Como de costume, deu um
tiro de misericórdia na cabeça de cada um. Os grilos cantavam
encafuados no mato. Via-se, à esquerda, parte do centro
da cidade. Aquele silêncio nervoso nos ouvidos de Rafa,
que de súbito se levantou, disse, aos berros, que queria
morrer logo. Pequeno caminhou vagarosamente ao seu encontro,
falou que ele iria enterrar seus amigos para não ter flagrante
e, se não os enterrasse, iria morrer devagarinho, teria
os membros cortados, o saco rasgado, madeira enterrada no
cu...
Enquanto Pequeno falava, Ari do Rafa imaginava que se enterrasse
os amigos ganharia tempo para tentar uma fuga, e quem sabe,
chegaria alguém, enfim, aconteceria alguma coisa que o livrasse
da morte.
- Tudo bem, tudo bem! -respondeu.
(...)
Lá na favela, uma mulher verificava a temperatura da água
que botara para ferver, depois de ir à birosca duas vezes
para chamar o marido que se embriagava com os amigos. Durante
o dia, bem que ela pensou em desistir do plano, mas ao vê-lo
embriagando-se resolveu dar continuidade ao seu plano de
ser feliz para sempre. Já tinha feito o marido associar-se
a um seguro de vida na semana anterior e agora o mataria
sem piedade.
(...)
Ari do Rafa terminara de cavar a sepultura e agora transportava
os corpos numa escuridão quase total. Via só a silhueta
dos inimigos. Tentou argumentar com Pequeno, mas este falou
que se ele abrisse o bico de novo seria torturado. Sempre
vigiado, jogou os cadáveres de qualquer jeito no buraco.
Quando ia tapá-lo, recebeu ordem de entrar na cova. Ari
do Rafa viu nitidamente o rosto de Pequeno iluminado pela
maldita luz da lua que se desentocara de detrás das nuvens,
antes de se negar a deitar por cima dos defuntos e levar
tiros por todo o corpo.
(...)
- Quando a mulher começa a chatear assim, o negócio é peidar,
peidar, peidar o dia todo para ela.
- Como? - perguntou o marido.
- Compra dois quilos de rabada, dois de batata, agrião,
manda a bruta fazer e vem pra tendinha encher a cara. Depois
chega em casa, come aquela porra toda com pimenta-malagueta
que tu peida sentado, peida em pé, de cócoras, de joelho,
acordado e dormindo. Tu peida fut, arara, sumidinho, canarinho,
pelota, fiui, explosão, melado e o caralho...
- Hoje eu tavo a fim de peidar na cara da filha da puta...
Por que que mulher é assim? Porra! Eu dou duro o dia todo,
não compro nada pra mim pra não faltar nada em casa, sou
um cara que não fico agressivo, não entro numa de bater
nem nela, nem nas crianças, não pertubo ninguém... Que que
tem eu tomar uma cervejinha? Beber um quente antes da janta.
..Vai tomar no cu, morou? Bota mais uma catuaba com aquela
de Minas, aí!
- Por que tu não peida hoje? Se tu comer uns torresmo é
a mesma coisa.
- Me dá torresmo, aí, ô Baixinho.
- Baixinho é cu de cobra, rapá! -respondeu o dono da birosca
antes de servir o marido.
O marido reclamão comeu cinco pedaços de torresmo, bebeu
mais três doses de traçado, uma cerveja para lavar o estômago
e caminhou cambaleante para casa. Abriu o portão com certa
dificuldade, a vontade de urinar era sincera, apertou o
passo para o banheiro, mas a urina desceu calça abaixo molhando
o tapete da sala. Tomou banho sem tirar a roupa, estranhando
a esposa quieta na cozinha. Pensou em falar alguma coisa,
preferiu não puxar conversa para não desencadear uma briga,
arrancou e entulhou a roupa suja e encharcada sob a pia
do banheiro e deitou-se, depois de vestir uma cueca. Em
poucos minutos roncava alto. A mulher arrastou-o para a
cozinha e despejou a água fervendo sobre sua cabeça.
Foi presa por homicídio premeditado e não recebeu a quantia
que esperava do seguro.

|