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de
Cartas de um Sedutor
Paulicéia, 1991
Estou
doente. Taco, meu médico e amigo prescreveu champanhe gelado.
Brut. E gelo nas têmporas. E sabes por que estou doente?
Porque pressinto surpresas, notícias inquietantes, vindas
não sei de onde, talvez de ti. (E por outra coisa que já
te digo.) Sinto também que não devemos continuar com as
cartas. Te vejo dissimulada, escondendo algo muito sério.
Por que não permites que eu vá até sua casa? O que guardas
aí? De alguma maneira me transformaste num escriba ou melhor
num escrevinhador, e só de saber que tu me pensas escritor
agiganta-me a náusea. Que tipos petulantes! Que nojosos!
Esgruvinham as virilhas, o pregueado, escarafuncham os sórdidos
corações, as alminhas magras, e daí enchem-se de arrotos
quando terminam os textos. Verdade que adoro os livros,
mas se pudesse arrancar de mim a visão dos estufados que
os escreveram vomitaria menos o mundo e a própria vida.
Tínhamos um amigo, o Stamatius (!) (eu só o chamava de Tiu,
porque, convenhamos, Stamatius não dá) que perdeu tudo,
casa e outros bens, porque tinha mania de ser escritor.
Dizem que agora vive catando tudo quanto há, é catador de
lixo, percebes? Vive num cubículo sórdido com uma tal de
Eulália que deve ter nascido no esgoto. Muitos o procuram
para ajudá-lo. Não quer nem saber. O Tiu quer escrever,
só pensa nisso, pirou, sai correndo de pânico quando vê
alguém que o conheceu. Carrega no peito uma medalha de Santa
Apolônia, protetora dos dentes. Ah, não tem mais dentes.
Bonito o Stamatius. Elegante, esguio. A última coisa que
fez antes de sumir por aí foi torcer as bolotas de um editor,
fazê-lo ajoelhar-se até o cara gritar: edito sim! edito
o seu livro! com capa dura e papel bíblia! Só então largou
as bolotas e balbuciou feroz: vai editar sim, mas a biografia
da tua mãe, aquela findinga, aquela léia, aquela moruxaba,
aquela rabaceira escrachada que fodeu com o jumento do teu
pai - e quebrou-lhe os dentes com a muqueta mais acertada
que já vi. Quebrou a mão também. Bem, mas isso não vem ao
caso. Ao caso pior: o Kraus morreu. A Cuzinho num acesso
de indignação não só a cause do apelido mas desesperada
com todas as indignidades vindas do Tom, invadiu a casa
do Kraus com o linguão de fora, e alguns dizem que o perseguiu
pela casa inteira uma boa meia hora, escobilhando a comprida.
Consta que o Kraus tapava o aro morrendo de rir literalmente.
E acreditas? Morreu. O Tom quer provar homicídio, quer o
testemunho de todos os amigos e dos terapeutas também, mas
quem é que vai acreditar que um cara morreu de rir só com
a ameaça de lhe lamberem o botão? A turma do pólo está estudando
um plano, alguma nefanda crueldade para Amanda. Dizem que
vão lhe enfiar algumas bolas de pólo polpas e pombinha adentro.
Se assim for resolvido manda-me os tocos dos tais ficheiros.
Haja bola! Tom foi medicado na hora do enterro de Kraus
porque não suportou ver o amigo morto e ainda sorrindo.
Estou doente por tudo isso e porque não posso pensar na
morte, nem na minha nem na do Kraus nem da barata, tenho
medo da pestilenta senhora e imagino-me puxando-lhe o grelo,
esticando-lhe os pentelhos até ouvir sons tensos arrepiantes.
Hoje gritei demente: vem, Madama, vem, e irado, numa arrancada,
soltei da pestilenta grelo e pentelhos e eles esbateram-se
frenéticos nos seus baixos meios. Se pudesse seduzir a morte,
lamber-lhe as axilas, os pêlos pretos, babar no seu umbigo,
enturpir-lhe as narinas de hálitos melosos, e dizer-lhe:
sou eu, gança, sou eu, mariposa, sou Karl, esse que há de
te chupar eternamente a borboleta se tu lhe permitires longa
vida na olorosa quirica do planeta.
Ciao,
irmanita.
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