Luiz Alberto de Lima Boscato

Orwel revisitado: O CRUSP do fim do mundo

Estamos no ano de 2984. Precisamente, talvez, 6 de junho de 2984: o dia que não acabou. Esta é a verdadeira data em que esta história começou a ser escrita. O sentimento de indefinição que está me atingindo é justificável, pois há uma impossibilidade enorme de se ter um calendário preciso no momento! O tempo, tal qual nós o conhecíamos, não faz mais sentido e, daqui a algumas linhas, o(a) amigo(a) leitor(a) compreenderá o por quê.

Para quem não conhece, cabe esclarecer que o CRUSP, Conjunto Residencial da USP, é uma histórica moradia estudantil que se encontra, ou melhor: que se encontrava no espaço da Cidade Universitária, no bairro do Butantã. Era composto por sete blocos de seis andares, sendo que os Blocos C e G pertenciam à Pós-Graduação, e os Blocos A, B, D, E e F pertenciam aos estudantes da Graduação. Foi palco da resistência do movimento estudantil contra a ditadura militar, razão pela qual o CRUSP foi invadido pelas tropas do Exército no dia 17 de dezembro de 1968, não por acaso quatro dias após a decretação do AI-5, o Ato Institucional que castrou e decapitou toda uma geração da juventude brasileira.

O CRUSP foi retomado pelos estudantes em 1979, e o seu objetivo primordial era servir como moradia para os estudantes pobres que não tinham condições de pagar um aluguel. É por esse motivo, e não devido às suas famosas histórias, que o CRUSP era considerado um lugar mal visto pela maior parte dos estudantes favorecidos economicamente, e mesmo por parte da Universidade, pois, dentro da “seleção pseudo-natural” que marcava a nossa sociedade capitalista selvagem, havia um apartheid social que procurava excluir os pobres, sejam eles brancos ou negros, da cidadania e do direito à educação, em especial a educação universitária, visto que daí brotam quadros importantes para a vida coletiva.

Assim sendo, os estudantes pobres que cometeram o ato heróico de romper com o apartheid social, que muitas vezes não tinham dinheiro para pagar um colégio particular e, mesmo assim, conseguiram chegar a uma USP provaram, portanto, que têm um grande valor pois, apesar de toda esta discriminação, foram vencedores. E, para aumentar ainda mais a discriminação, os estudantes pobres eram chamados de “carentes” pela “inteligentsia burrocrática” e até por alguns líderes estudantis mais desavisados.

Pois bem. Mas eu estou aqui para falar, no entanto, das trágicas consequências de uma História sem futuro. Uma História que perdeu o seu fio condutor (se é que um dia houve algum) e se encaminhou para o vazio, para o tédio total. Pois no momento em que eu deixo estes escritos para uma posteridade inexistente o mundo acabou de se acabar. Mas, como dizia Antonin Artaud, a verdade é que o mundo nunca foi “criado” de fato!

Lembro-me de que eu estava na perua psicodélica que trazia de volta ao CRUSP uns amigos meus de um conjunto de rock chamado Anjo Negro. Seus componentes são, ou “eram”, a charmosa Kelly no vocal, Jimy na bateria, a belíssima Tina no baixo e o veterano Crazy Man na guitarra. Crazy Man já havia tocado com cantores e compositores consagrados da MPB e, apesar do seu jeito muito louco, não havia quem o superasse no manejo da guitarra, do violão ou do cavaquinho. Crazy chegou a ser chamado de “Mister Melody” por um famoso nome do blues americano quando de sua visita ao Brasil.

O grupo tinha um motorista que era também seu empresário “contra a vontade”, o Johnny. Digo “contra a vontade” porque, devido às constantes insistências de Jimy, Johnny topou a parada, sem entender que Jimy estava apenas tirando um barato da cara dele.
A perua rodava freneticamente após o último show antes do fim, quando Jimy provocou:
- E aí, “Johnny” que não é o “Rivers”: como está sendo a sua vida de... Empresário bem sucedido?
- Ah, Jimy, vai se foder! Eu não estou a fim de virar capitalista, não! Estou terminando o meu curso de Geografia para trabalhar no IBGE, como bom estatístico socialista.
- Johnny: socialista tu? Ah! Ah! Ah! Engana que eu gosto! Está parecendo aquele seu amigo que se diz socialista e que, conforme suas mesmas palavras, nunca levou “um pão”, “um pão” para o “apê”...
- Quem sustenta o apê? ...
- Eu! Eu! Eu! Eu! - esbraveja Crazy Man.
- ...Vá, Jimy: você deu entrevista para a Globo!
- "Peraí", meu irmão: eu uso o sistema para ir contra o próprio sistema. Eu fiz aquela instalação em cima das colmeias para protestar contra o conformismo das pessoas desta Universidade e, por isso mesmo, quando todo mundo achar que as privadas já fazem parte da paisagem, eu tiro elas de lá. Enquanto todos acharem que elas estão no lugar errado, elas estão no lugar certo. Quando o pessoal achar que elas estão no lugar certo, então elas estarão no lugar errado!

Jimy se referia a uma instalação de inúmeras privadas que ele colocou em cima das colmeias: uma exposição artística que ele chamou de “Duchamp’s Dreams”, na madrugada daquele mesmo 6 de junho de 2984. As colmeias são um grupo de construções situadas junto ao CRUSP, que têm a forma de colmeias de abelhas. Jimy era artista há um bom tempo e estava terminando o curso de Letras. Ficou famoso da noite para o dia! Logo cedo, os repórteres da Globo vieram saber o que havia acontecido, e Jimy deu uma entrevista bombástica em cadeia nacional para a emissora, explicando que as privadas foram um protesto contra a “tentativa de privatização da USP por parte de Fundações que desejavam influir nos destinos da Universidade pública”. A entrevista foi ao ar ao meio-dia, e o show do qual estávamos voltando iniciou-se às 20h, debaixo de uma ponte que passa sobre o rio Pinheiros. Eu me lembro de quando voltávamos do espetáculo... Discutíamos à toa quem era o quê, pois já estávamos meio completamente chapados. Foi quando a charmosa Kelly, a garota de cabelos cor de mel que estudava no Departamento de Filosofia da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP), esbravejou:
- Calem a boca vocês dois! Liguem o rádio porque estou preocupada com certas notícias que estão rolando por aí...
Tina, uma estudante negra que cursava História, também na FFCLH, estava quase dormindo na perua quando acordou assustada, dizendo:
- É. Correm boatos de que o mundo vai se acabar. Estou muito preocupada, gente! A minha mãe me ligou ontem mesmo, perguntou-me se estava tudo bem, e disse que não sabia se a gente iria se ver amanhã...
- A sua mãe exagera, oh, Tina - retruca o irreverente Crazy Man. - Conforme os yogues nos explicaram, é só você pensar em uma pessoa e... Pronto! Você já está com aquela pessoa! Entende? Entende? Ah! Ah! Ah!
- O mundo vai acabar antes que eu vire empresário! - disse Johnny.
- Ah! Ah! Se o mundo acabar, a culpa é do Johnny! A culpa é do Johnny! - escarnece Jimy.
- Os dois são culpados! Eu vi vocês dois montados em um elefante de asas, todo colorido, lá no Nepal - conclui Crazy Man, ébrio de cerveja, de uísque, de vinho, de vodka e de outras coisitas mais.
O rádio foi ligado. Todos se calaram para ouvir o Wlad, um ex-cinegrafista cruspiano que se transformou em locutor de um programa jornalístico conhecido:
- A tensão aumenta entre os Estados Unidos e o seu maior rival do momento, o Império Islâmico do Oriente. A situação chegou a um ponto tal que a mais fatídica Guerra Mundial que se abaterá sobre a humanidade já é iminente.
- O Wlad pirou! O Wlad pirou! Ah! Ah! O Wlad chapou, my brother! - diz, à toa, o lunático Crazy Man.
Mas a verdade é que o Wlad não pirou nem chapou. Mil anos após a data prevista por George Orwell para a existência de uma ditadura tecnocrática que aniquilaria a liberdade humana, o mundo era muito mais assustador do que a anti-utopia prevista pelo iminente escritor. As bombas do Século XXX não eram mais atômicas, biológicas, químicas ou aéreas: estas já viraram peças de museu há muito, muito tempo. E podiam ser visitadas a qualquer momento na sede do MAE, o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. As bombas de 2984 eram MENTAIS: os cientistas contratavam pessoas de elevado poder paranormal para fabricarem bombas mentais de altíssimo poder destrutivo, e tal tecnologia de ponta existia nos dois lados em conflito. Para enviar as bombas, os paranormais induziam mentalmente o arremesso dos mísseis-mente ao campo do inimigo. O problema é que a massa mental cinzenta contaminava toda a atmosfera e todos os seres com uma energia de anti-matéria que era anti-vida, aniquilando as possibilidades de existência humana, sub-humana ou supra-humana sobre a face da Terra.

O governo da recente atualidade era exercido por uma organização obscura chamada Conexão Alfa-Ômega, que controlava a vida das pessoas através de laboratórios que emitiam ondas de investigação de altíssima potência que, retornando à fonte, informavam aos “não-sei-quem” o que cada um estava fazendo, o que cada um estava sentindo, o que cada um estava pensando.
Não se enganem vocês, leitores que habitam o passado: em 2984 ainda existiam pessoas que acreditavam que o prazer sexual é pecado e que o ser humano só deve servir para a reprodução cultural e social deste mundo aprisionante. E ainda existiam aqueles que acreditavam que o fim do mundo era um castigo de Deus que recaía sobre os homens desobedientes. Mal sabem estes fanáticos que Deus e o Diabo estão tomando um drink de uísque no astral enquanto riem das loucuras dos homens!

Os exércitos e os órgãos de segurança do avançado Terceiro Milênio eram formados por clones, pois a Conexão Alfa-Ômega proibia aos seus comandados qualquer manifestação de sentimento pelos que ela acreditava que deveria controlar. A USP também era vigiada por um exército de clones e, voltando à cena inicial, era um destes que estava na portaria principal no momento em que a perua dos componentes do Anjo Negro chegou à Universidade. O segurança-clone disse:
- Parem! Identifiquem-se! Vocês vão para onde?
- Nós estamos indo para a sede da NASA - respondeu Jimy.
- Ah, bom! Podem passar! - como um clone também era programado para não pensar, não sabia que não existia nenhuma sede da NASA na Cidade Universitária.
Chegando ao CRUSP, o conjunto musical percebeu que uma mega-festa estava se dando debaixo da Lua Cheia. Havia um outro conjunto de rock, o Mente Humana, apresentando-se para os estudantes. Um dos moradores ligou a televisão para ver o que estava rolando fora do Mundo-CRUSP, quando recebeu a inusitada notícia através de um Jornal que a Globo exibe durante a noite:
- Estamos transmitindo a vocês nossa última mensagem. A Guerra Mundial acabou de estourar, e as bombas mentais já foram lançadas por um lado e por outro do conflito. O mundo está para se acabar daqui a alguns minutos. Espero que vocês... Espero que nós sejamos felizes... No além.
- Oh, oh, Jimynho! Oh, Jonnynho! O além é aqui, meu! Essa gente da mídia não sabe de nada. A gente liga eles, mas eles mesmos não se ligam... - protesta Crazy Man. - Eu sou o além dos aléns!
A emissora saiu do ar e a notícia se espalhou como uma bomba (a oral: não a mental) pelas trincheiras do Mundo-CRUSP. Logo, o céu ficou vermelho. E roxo. E escarlate. E... Crazy Man olhou para aquilo tudo, dizendo:
- Porra, Jimynho. Oh, Jimynho: a “viagem” está me dando muitos efeitos colaterais hoje...
Não era LSD. Tudo era terrivelmente real. Ou surreal. Um fato inusitado aconteceu, para espanto de todos os sobreviventes: O MUNDO ACABOU, E SÓ SOBROU O CRUSP!!!
Quando os moradores do CRUSP perceberam este fato, decidiram chamar o show do grupo musical Mente Humana de “O Primeiro Festival de Rock do Fim do Mundo”. E o som continuou a rolar...
Foi quando uma personagem muito estranha se manifestou. Era o Dom Caixote, um cara que subiu em cima de um caixote de madeira e começou a fazer um discurso em frente ao Bloco C. O primeiro discurso-manifesto do mundo do fim.
- Vocês acabaram com o mundo! Seus canalhas!
Ele recebeu este apelido porque as suas atitudes diante do final do mundo lembravam as de Dom Quixote de La Mancha, a personagem do escritor espanhol Miguel de Cervantes que brigava com os moinhos de vento. Mas os moinhos de 2984 eram outros!
- Canalhas! Vocês se omitiram diante do fim do mundo! As bombas mentais explodiram sobre as nossas cabeças, e vocês ficaram aí, nos seus apartamentozinhos confortáveis, enquanto o mundo era destruído. Vocês ficaram dizendo: nhe-nhe-nhém, nhe-nhe-nhém, nhe-nhe-nhém, e daí? O que resultou de toda esta pose? Bombas mentais! Bombas mentais!
Teve muita gente que, ao ser acordada não propriamente com o fim do mundo, mas com o discurso de Dom Caixote, ficou furiosa com o nosso amigo orador. Mas o principal inimigo de Dom Caixote era o Anísio Rã-zinza, um figura que estava sempre de mal humor, sempre irritado com tudo e com todos, mas especialmente com os calouros, que ele considerava “crianças”. O Anísio sempre dizia e sempre acreditava que existia uma “solução única” para tudo. Por esse motivo, Anísio também era chamado de “o homem da solução única”.
Quando Anísio Rã-zinza escutou o discurso de Dom Caixote, saiu na janela furioso e gritou:
- Dom Caixote: a única solução é te expulsar do CRUSP!
- Venha me expulsar então! Canalha!
- A única solução é te fuzilar!
- Você acabou com o mundo, seu canalha!
- A única solução é você se acabar junto com o mundo!
Uma pessoa escutava este diálogo amigável sem nada dizer. Era o Forest Crusp, o contador de histórias do CRUSP. Ele estava sentado na grama, com o seu caderno e a sua caneta, anotando tudo o que via, quando resolveu apartar a briga entre os dois, dizendo:
- Não adianta vocês brigarem mais. Pois esta terrível noite nunca irá terminar. Você terá todo o tempo do mundo para dormir e você terá todo o tempo do mundo para protestar, pois o “tempo” e o “mundo” são categorias que não existem mais.
E era verdade! O tempo parou no dia 6 de junho de 2984 e, com ele, parou a Terra, a Lua, o Sol e as estrelas. O céu não se movimentaria nunca mais, e a noite não teria fim. O CRUSP havia se transformado na Casa da Noite Eterna! A Lua estava cheia, e assim iria continuar indefinidamente. Isso agravaria ainda mais a situação, pois as pessoas ficam mais loucas com a Lua Cheia!
Alguém em especial estava muito preocupado com a situação. Era Wander Rainbow, o nosso xamã virtual. Wander era assim chamado porque tinha o poder de provocar chuvas através de programas de computador. Corriam vários boatos sobre a sua misteriosa figura... Diziam que Wander Rainbow era o Grão-Mestre da Ordem Iniciática dos Cavaleiros Templários do CRUSP. Diziam que Wander Rainbow era o responsável pelas fortes chuvas que se abatiam sobre o CRUSP durante o verão. Diziam que Wander...
De qualquer forma, de sua estrategicamente oculta janela situada nos domínios do Bloco B do CRUSP, Wander a tudo observava. E se calava.
Quando percebia que o tempo não estava de acordo com os seus desejos, Wander se dirigia ao seu ultramoderno microcomputador e alterava toda a atmosfera, dos céus à terra. Mas Wander estranhou o que estava acontecendo naquele momento: não havia programado nada daquele clima estranho. E foi tentar concertar...
Antes que pudesse tomar qualquer atitude, no entanto, o Índio, lutador profissional, várias vezes campeão de Judô, entra no “apê” de Wander e destrói tudo, pois Wander Rainbow foi considerado o culpado pelos imprevistos cósmicos. Quem diria que Wander seria transformado em bode expiatório do grande fim?
Uma surpresa! O reitor da USP em 2984, que se chamava Professor Doutor Intrépido Eustáquio, estava na USP no momento da explosão definitiva da Guerra Mental Mundial e, como não havia mais lugar para onde ir, veio se esconder no CRUSP. Procurou parecer-se com algum estudante, vestiu calça jeans surrada e dizia direto as palavras “Falaí, my brother!”, mas não teve jeito: foi reconhecido. Ao ser interrogado pelos estudantes sobre várias questões ligadas à política universitária, o Reitor Intrépido simplesmente respondeu:
- Meus amigos: o mundo se acabou mesmo! Não temos nada mais para conversar sobre nossas antigas divergências. Agora, sou igual a vocês! Inclusive, caros brothers, agora vocês podem me chamar de “Intrepidão”. “Sacou”?
O Doutor Intrépido ficou tão igual a qualquer um de nós que concordou em ser o apresentador do Primeiro Festival de Rock do Fim do Mundo. Foi quando o conjunto Mente Humana, em homenagem ao mundo do fim, mostrou ao público uma canção de Raul Seixas, “O Dia Em Que a Terra Parou”. O conjunto que iria se apresentar depois seria o Anjo Negro.
A platéia estava esfuziante. Um conjunto se despedia, e o outro preparava-se para entrar. Enquanto o Doutor Intrépido apresentava o novo conjunto, lá do alto, de um dos apartamentos do CRUSP, um sujeito chamado Windows Ponto Com brigava com o seu computador. Windows acreditava que os computadores tinham alma e, por esse motivo, discutia constantemente com eles. A diferença é que a briga, agora, estava feia:
- Por que você não conversa comigo, seu micro filho da puta? Fala, micro desgraçado! - Windows dava porradas no micro -. O que eu fiz para você ficar mudo desse jeito? Se você não funcionar, eu vou te jogar pela janela!
Até que, nos velhos tempos, Windows Ponto Com conversava na boa com o seu estimado micro. Travava diálogos por horas a fio com o seu bom amigo, derramando lágrimas na esperança de que ele pudesse lhe esclarecer algo sobre o sentido da vida. Mas com o fim do mundo, o microcomputador de Windows Ponto Com caiu em depressão profunda e não queria mais conversar. Pior é que, mesmo em 2984, ainda não havia sido inventado um antidepressivo para microcomputadores.
- Ah, é assim? Você não quer falar mais comigo, não é? Então, agora vá para o inferno! Rrruuuaaa!!!!!!
“Vluummm!” Windows Ponto Com jogou o pobre micro pela janela. Eu não sei dizer se ele foi parar no reino do tenebroso Hades. O que eu sei é que ele foi cair bem na cabeça do Doutor Intrépido que, esta sim, deve ter se transformado em um inferno. Sem as mínimas condições de continuar a apresentar o show, o Doutor Intrépido, ou “Intrepidão”, retirou-se de cena. Em seu lugar entrou o Veridiano, um cara legal que estava sempre dando risada de tudo e de todos.
Veridiano tinha atitudes que não eram compreendidas por ninguém. Na hora de apresentar o espetáculo, por exemplo, ele subiu ao palco com um capacete viking, com dois enormes chifres. O pessoal começou a criticar, dizendo que ele estava fazendo apologia aos cornos, ao que Veridiano respondeu dizendo que, em antigas tradições européias, o chifre era sinal de masculinidade!
- Continuando o nosso Primeiro Festival do Rock do Fim do Mundo, apresento a vocês a maior banda de rock do CRUSP. Mesmo porque todas as outras bandas que existiam por aí já morreram, não é verdade! (Risos da platéia). Só sobraram duas... Com vocês, Anjo Negro! (Aplausos e gritos. E latinhas de cerveja atiradas ao palco).
A banda executou algumas canções do The Doors, com destaque para “The End”, por combinar com o clima de fim de mundo.
- Vocês estão maravilhosos, meus amores - grita Crisálida, da platéia.
Crisálida era uma pessoa que tinha uma dieta bem variada. De manhã, tomava café com cerveja. No almoço, cerveja com vinho. Na janta, cerveja com conhaque e, à noite, para variar, cerveja com cerveja. Na manhã seguinte, para rebater a rebordosa, novamente tomava cerveja com café, e um novo dia se iniciava outra vez.
No intervalo das canções, o Festival recebeu a preciosa contribuição do conhecido escritor Luis Fulano de Tal, autor do livro “A Noite dos Cristais”, que se propôs a recitar “alguns poemas, estratagemas, dilemas, e outros esquemas mais ou menos quase emblemas, em saudação atônita ao nosso mundo do fim”.
Pelo fato de o veterano Veridiano ter cara de calouro, ele chamou a atenção de uma curiosa rapariga que, de uma das janelas do CRUSP, estava a lhe observar. Era a Fanny Girl, tarada por calouros.
Para chamar a isca para o seu "apê", Fanny Girl fez um anzol improvisado com linha de nylon, na ponta da qual amarrou uma latinha de cerveja bem gelada. Atirou-a escada abaixo, na direção de Veridiano e, quando este viu a "isca", mordeu-a imediatamente. Mas percebeu que, quando tentava pegar a cerveja, a lata, estranhamente, fugia-lhe das mãos.
- Orra, meu! Latinha de cerveja do fim do mundo criou pernas! Que barato! - exclamou Veridiano.
Ele mal percebeu que já estava diante da porta do apartamento de Fanny Girl, quando esta lhe agarrou e empurrou-lhe à força para dentro.
- Ai, menina! Eu não fiz nada, não! Socorro! Help-me!
Fanny Girl tapou-lhe a boca, dizendo:
- SSSS!!! Calma, seu bobo! Eu quero transar com você!
- Ah, é, é! - Veridiano já se acalmou. - Mas por que não falou logo, porra!
- Pois é, meu calourinho. O mundo acabou. Então, precisamos potencializar as energias da fertilidade, não é mesmo!
- É mesmo! É mesmo! Vamos lá...
- UAAUUU! Meu calourinho! Você é quente demais! Aaaiii...
Mas nem tudo eram flores neste mundo de grandes amores. A Conexão Alfa-Ômega continuava a ensaiar os seus delírios tecnocrático-autoritários e, em uma reunião da cúpula dos seus membros, havia decidido que seria necessário eliminar o excesso de população, pois havia sobrado gente demais no que restou do mundo. Para isso, a Conexão programou um gracioso robozinho chamado KL-Y para a macabra tarefa de ir jogando uma parte dos sobreviventes nas águas da raia olímpica, um a um. O problema é que, com o fim do mundo, a raia olímpica se transformou em um imenso mar: o oceano avançou até a beira do CRUSP, e o mar da raia olímpica estava podre como resultado da catástrofe. Quem fosse atirado nas águas da ex-raia e atual Mar USP não teria condições de sobreviver. O mundo continuava perigoso!
Alheio a toda esta confusão, um rapaz chamado Juninho estava em êxtase enquanto apanhava de chicote de sua rainha e proprietária, uma mulher com o angelical nome de Cálida. Juninho era o seu escravo.
- Juninho: diga que você não vale porra nenhuma!
- Sim, minha senhora. Eu não valho porra nenhuma.
- Fale mais alto! - retruca Cálida, enquanto lhe acrescenta outra chicotada.
- Eu não valho porra nenhuma!
- Quem é você para dizer alguma coisa, hein? - “plaft”!
O ruído doeu em quem escutou. Mas, nesse momento, KL-Y entra na sala para pegar a sua primeira vítima, o Juninho, dizendo:
- Chegou a sua ve-ez! Chegou a sua ve-ez! - eram sempre as palavras emitidas pelo simpático robozinho da morte.
Cálida não reagiu. Apenas disse:
- Pode levar, pois o Juninho porra nenhuma mesmo.
Algum tempo depois, Cálida já havia tirado a sua sensualíssima roupa sadomasô e estava se preparando para dormir, completa e deliciosamente nua, quando algo entra no seu quarto, dizendo:
- Chegou a sua ve-ez! Chegou a sua ve-ez!
- Aaaahhh! Socorro! Como é a “minha vez”? Eu sou uma “rainha”! A rainha Cálida, líder de todas as sádicas do planeta! Eu não fiz nada para merecer ser jogada lá! Me acudam!
Não teve jeito...
O mundo estava tão surreal que apareceu até uma seita que acreditava que Cristo havia voltado e levado todo mundo embora, não se sabe se para o inferno ou para o paraíso. E que Cristo voltaria uma terceira vez, cabendo aos seus discípulos sobreviventes lutar pela conversão do CRUSP aos preceitos do tal Jesus que eles criaram na cabeça deles. Uma das figuras de destaque deste grupo era a Suensa, uma senhora que estava caminhando no meio dos ouvintes do Festival de Rock para tentar uma conversão em massa.
- Cristo estará voltando pela terceira vez, meus amiguinhos! Aleluia! Vocês precisam ser mais religiosos, pois quem não acreditar nas palavras divinas será condenado ao inferno! Cuidado com as chamas eternas, pois dela vocês nunca escaparão! Cantem uma musiquinha que é assim: “Siga a Suensa, a Suensa siga! Siga a Suensa, a Suensa siga! Sigam o Cristo e sigam a Suensa, que assim nos seguindo vocês serão muito felizes!" Eu sou muito feliz!
Neste momento, por trás de Suensa, a vozinha fatal voltou a se manifestar:
- Chegou a sua ve-ez! Chegou a sua ve-ez!
Suensa foi transportada feliz para o terrível mar sem volta, pois acreditava que esta era a vontade de Deus.
- Que bom! Irei me encontrar com Jesus! Quando ele voltar pela terceira vez, no segundo Juízo Final, eu entrarei no Reino dos Céus junto com todos aqueles que forem salvos! “Siga a Suensa, a Suensa siga...” “Todos devem ser Suensa, Suensa devem ser todos...”
Eu estava atônito diante deste oceano de surrealidades quando o meu amigo Schoutzer, com a sua tradicional cachaça em mãos, disse:
- Luiz! Caralho! Eu disse que não queria entrar nesse conto, caralho!
- Isso não é um “conto”, oh, Schoutzer! Isso é algo que está acontecendo, de fato: o mundo acabou e só sobrou o CRUSP!!!
- Pô, Luiz! Caralho! Deixe-me ficar na moita então - e Schoutzer foi se esconder no mato, com medo do CRUSP do fim do mundo.
Enquanto isso, algo terrível estava acontecendo. No Bloco F térreo havia o túmulo do Comandante Fênix, uma personagem espectral que morou no CRUSP há centenas de anos, mas a sua múmia continuava ali, guardada pelos cachorros do CRUSP. Havia uma lenda segundo a qual quem tentasse pilhar o sarcófago do Comandante Fênix sofreria os reveses de uma terrível maldição: seria transformado em cachorro! Por isso, as pessoas passavam longe do sarcófago. Mas, naquela fatídica e interminável noite, a múmia do Comandante Fênix ressuscitou, pois ele sempre voltava à vida quando havia a ameaça de uma rebelião de estudantes. Como celebração do terrífico acontecimento, os cachorros do CRUSP dispararam a latir de maneira infernal, para anunciar a retumbante ressurreição.
O Comandante Fênix passou as mãos em suas longas barbas, agora brancas, e começou a profetizar sobre aquela que seria a primeira revolução do fim do mundo:
- Criminosos! Todos os criminosos da Conexão Alfa-Ômega serão exterminados pela revolução que EU liderarei! Está próximo o momento em que todos os espaços do Mundo-CRUSP serão ocupados pelo meu exército! O exército do Comandante Fênix dominará o CRUSP, e o CRUSP dominará o mundo!
Para organizar a sua rebelião, o Comandante Fênix se dirigiu até o alojamento do térreo do Bloco C, um espaço que havia sido invadido e conquistado pelos estudantes, em especial pelos calouros que, chegando ao CRUSP, não tinham um lugar para ir. O Comandante Fênix considerou o alojamento um local de resistência e concluiu que, por esse motivo, este local reuniria as condições para organizar o seu exército revolucionário. Tentou recrutar adeptos à sua causa, mas a única adesão que conseguiu foi a de Lucky Fino, que se tornou o seu fiel escudeiro.
- Lucky Fino, você é o único estudante consciente em todo este alojamento, e quiçá em todo o CRUSP.
- Sim, Comandante. Sou consciente.
- Uma nova civilização se formará a partir do CRUSP: a Civilização do Quarto Milênio. E eu serei o “Adão” desta nova ordem crusp-mundial. MAS: toda civilização precisa de um casal mítico para se formar. Precisa de um mito formador. E, como tal, eu preciso de uma Eva.
- Sei, Comandante. Você precisa de uma Eva.
- Você sabe que eu considero a Mirna, aquela princesinha do alojamento, a minha Musa, não é?
- Sei. A Mirna é minha amiga.
- Pois muito bem! Quero que você convença a Mirna a ser a minha Eva!
- Cumprirei a missão, meu Comandante!
- Bom menino! Bom menino!
Lucky Fino se dirige entusiasticamente para cumprir a sua missão, e encontra Mirna lendo uma obra sobre sintaxe.
- Mirna: é o seguinte... O CRUSP precisará de um casal mítico para formar a civilização do Quarto Milênio. O novo Adão é o Comandante Fênix, e ele está precisando de uma Eva.
- Sei. E o que eu tenho a ver com isso, oh, Lucky Fino? Você interrompe a minha importantíssima e inadiável leitura sobre sintaxe para vir falar sobre essa coisa de “casal mítico”?
- Eu explico, Mirna. O Comandante Fênix te escolheu para a importante missão de ser a Eva dele! Não será um orgulho para você?
O que??? Espere aí que eu vou te dar umas porradas...
Mirna avançou na direção de Lucky Fino, sendo contida por outros moradores do alojamento. Fazendo jus ao nome, Lucky saiu de fininho, dizendo: “Não está mais aqui o Lucky louco que falou!”
Decepcionado, Lucky Fino comunicou ao Comandante Fênix o fracasso da sua missão impossível. O Comandante já estava muito furioso porque estava tentando tomar banho, e a água do chuveiro saiu correndo ao ver a sua figura. Recusou-se a sair.
Descobriu-se depois que o CRUSP estava vivendo mais um “apaguão”, isto é: as imprevisíveis faltas d’água no CRUSP, sem que ninguém fosse avisado, sem que ninguém soubesse o por quê.
O Comandante passou a dar porradas no chuveiro, dizendo:
- Estes chuveiros fascistas sabiam que eu iria vir tomar banho, e boicotaram a minha água!
No momento em que Lucky comunicou o fracasso e saiu fora rapidinho, para não presenciar o Comandante em fúria, uma gota d’água caiu na cabeça do Comandante.
“Plim!”
Fênix ainda deu mais uma pancada no chuveiro...
“Plim!” “Plum, Plim!”
Mas ele secou de vez.
O Comandante Fênix, alucinado de raiva, disparou a frase:
- Boicotaram a minha água! Vamos fazer uma rebelião contra os chuveiros fascistas! Vamos derrubar a Conexão Alfa-Ômega e criar a nossa civilização revolucionária! Pois o CRUSP, a partir de agora, é patrimônio da humanidade sobrevivente.
Agregando alguns calouros mais exaltados, o Comandante conseguir criar o seu batalhão revolucionário, que ficou conhecido como “Coluna Fênix”, e marchou rumo à sede da Conexão Alfa-Ômega.
Uma comissão de estudantes politicamente moderados tentava negociar com Mister Poder, o representante da Conexão Alfa-Ômega, a desativação do KL-Y. Mas Mister Poder foi categórico em negar tal concessão, afirmando:
- De acordo com a Constituição da Conexão Alfa-Ômega, “a vontade do KL-Y tem o poder de lei e deve ser respeitada, pois é a única garantia de ordem em nossa comunidade”.
- Mas Mister Poder - argumentou um dos estudantes -, a Constituição está ultrapassada e o KL-Y está caduco! Não podemos nos guiar por tais normas.
- Estas são as regras- Mister Poder encerra a discussão.
Estando no intervalo do show, Jimy vem averiguar o que está acontecendo na reunião e, nesse momento, o robozinho entra repentinamente na sala e olha com malícia para Jimy, como se quisesse seduzí-lo. KL-Y parte na direção de Jimy, dizendo:
- Chegou a sua ve-ez! Chegou a sua ve-ez!
Em uma manobra muito esperta, Jimy consegue driblar KL-Y que, por engano, acaba agarrando Mister Poder e parte com extrema rapidez, com o objetivo de jogá-lo no Mar USP. Mas qual não foi a surpresa quando, diante da impassividade de Mister Poder frente à morte, descobriu-se que ele também era um clone!
- Companheiros: iniciemos a nossa revolução! - o Comandante Fênix aparece no momento certo, pois estavam criadas as condições para a revolta.
Sob a sua direção, a Conexão Alfa-Ômega é esplendorosamente derrubada e desmontada e descobre-se que todo o governo era formado por clones! A revolução triunfa, e tem gente que acredita que uma nova sociedade surgirá das cinzas sob a liderança do Comandante Fênix.
É quando aparece em cena um figura que se autodenominava “A Grande Besta do Apocalipse Cruspiano, cujo número é 99,9%”. Quem tiver entendimento, que decifre o enigma do número da Besta Cruspiana!
Também se manifestou um conhecido artista plástico local, o Profano, que profetizou a formação de uma nova civilização a partir do CRUSP, não necessariamente tendo o Comandante Fênix como o seu "Adão". Profano se propôs a escrever "O Evangelho Segundo o CRUSP", que entre outras coisas dizia:
"Existem duas formas de se atingir a santidade. Uma é através da castração total. A outra é através da depravação total. Como aqui ninguém é castrado, e ninguém deseja sê-lo, eu proponho que o caminho para a santidade da civilização do Quarto Milênio seja o da mais profunda e o da mais devassa depravação! Evoe Baco!"
Enquanto isso, enquanto ainda tomavam os seus drinkes no astral, Deus e o Diabo começaram a conversar sobre os novos rumos da humanidade a partir da constatação de que o CRUSP foi tudo o que restou do mundo. Por incrível que pareça, quem estava mais preocupado com tal fato era o Diabo:
- Olha, Deus: eu sempre achei que esse CRUSP era um lugar maneiro. Mas daí a averiguar que só sobrou o CRUSP para fazer a História, e que a humanidade atual se resume ao CRUSP, é infernal demais para a minha nobreza! Estou preocupado...
Deus, todo zen em seu trono de nuvens brancas, responde:
- Calma, pobre Diabo! Os caras vão saber se virar. Já foi uma grande coisa eles terem sobrevivido à Guerra Mental Mundial! Agora, o que vier é lucro.
- Tudo bem, Deus. Mas esse capeta do Comandante Fênix pode fazer a porca torcer o rabo e, daí, vai tudo por água abaixo. Isso não vai acabar bem...
- E por que nós, forças onipotentes do astral, deveríamos nos preocupar com isso? Ora! Esses homens estão há milênios me fazendo pedidos a todo dia, e a toda hora, dizendo: "Deus, me ajuda nisso! Deus, me dê aquilo!", ao invés de assumirem as suas próprias responsabilidades sobre os rumos de suas vidas e diante do próprio mundo, que se acabou por culpa deles, hein! Nem eu, nem o Apocalipse, temos nada a ver com isso. Aí, eles ficam culpando a mim, ou a você, pelo caos que eles mesmo criaram? Eu quero mais é que eles me dêem um tempo! Vamos mais é tomar o nosso drinke aqui, no sossego!
- Saúde!
- Tim, tim!
Voltando à Terra-CRUSP, percebemos que a situação se agravou de maneira realmente preocupante. O grande problema surgido na elaboração de uma apocalíptica cruspiana surgiu a partir da intransigência do Comandante Fênix em rever as suas posições. Isso ocorreu porque, após a derrota do inimigo em comum, o Comandante Fênix, sem ter mais ninguém para combater, revolta-se contra os próprios revolucionários. O Comandante Fênix exigiu que todos reconhecessem a ele e à Crisálida como sendo o Adão e a Eva da nova civilização que iria se formar a partir do CRUSP, pedido que foi negado pela Assembléia dos moradores do CRUSP. A confusão se instala na comuna recém-criada.
O Comandante Fênix, extremamente irado, ameaça a Assembléia:
- Eu sou um patrimônio histórico do CRUSP, e se vocês não atenderem ao meu pedido, trago o meu exército para derrubá-los do poder!
- Sim, Comandante. Eu sou o seu exército - replica Lucky Fino.
Havia um grupo tentando equilibrar a situação, sem grande êxito, quando uma terrível descoberta veio à tona: o KL-Y estava programado para se auto-destruir em caso de rebelião estudantil! Os “clones” venceram novamente. KL-Y começa a contagem regressiva.
- 10...
- Canalhas! Vocês destruíram o mundo!
- 9...
- Criminosos! Como ousam desafiar a minha liderança revolucionária?
- 8...
- Jesus está chegando! Vamos nos salvar! Aleluia, irmãos! "Seguimos o Cristo, o Cristo seguimos..."
- 7...
- Vocês estão divinos, meus amores...
- 5...
- O Festival de Rock precisa continuar, pô! Vamos continuar o som aí, galera!
- 4...
- Oh, amiguinho! Será que dá tempo de fumar unzinho?
- 3...
- Fala comigo, computador!
- 2...
- A única solução é se conformar.
- 1...
- De acordo com um discípulo de Kant, o mundo vai terminar com uma...
- Zero!
- Explosão!
“PLAFT!” “ PLOFT!!” “ PLUNFT!!” “PLIM!”
Esta é a história que eu tenho a contar. O mundo se acabou em 2984, e não há como calcular em que dia estamos agora. Pois os dias não existem mais. Não há indícios de sobreviventes... O presente é um eterno tédio.
Ei! Espere um momento! Alguém está se movimentando entre os escombros! Há um sobrevivente além de mim! É Jimy, my friend Jimy!
Jimy se liberta dos escombros, pega um rádio toca-fitas movido a pilha e coloca para rodar a canção “The End”, do The Doors. Seus versos doloridos têm tudo a ver com este momento:
“Este é o fim.
O fim dos sonhos, meu amigo.
O fim de tudo... Este é o fim...”
A música está tocando e, enquanto isso, Jimy começa a pegar as privadas que encontrou e as instala sobre as ruínas do que antes fora o Mundo-CRUSP. Em pouco tempo, as ruínas ficam cheias de privadas! A Lua Cheia continua no mesmo lugar: nunca mais vai se apagar. Uma nova exposição artística “Duchamp’s Dreams” está sendo preparada.
Você pode alegar que não há mais público para a exposição de obras de arte dadaísta pós-fim-do-fim-do-mundo. Mas é aí é que você se engana: as estrelas são testemunhas!

Luiz Alberto de Lima Boscato faz Doutorado em História Social pela FFLCH-USP, onde elabora uma tese sobre a vida e a obra de Raul Seixas. É poeta, professor e tarólogo há dez anos, tendo oferecido cursos apostilados de Tarot.
Luiz Lima dedica-se, desde a adolescência, a uma pesquisa pessoal no campo das formas alternativas de espiritualidade, como o Yoga, o Tantrismo, a Magia e a Alquimia, tendo acumulado uma série de conhecimentos sobre estes assuntos.
Email: luizlima@astropage.zzn.com

 

Fechar Janela