Kambene

Sem nada a perder: Puxa o freio, garoto.

Parte 1

Lá vai Kambene, o herói, trançando as pernas em busca de refúgio. Sua cabeça lateja e implode e seu mundo está turvo e ele sente fome. Mal se agüenta de pé. Mas eu tenho de sobreviver. Sentia o sinal da febre, a maldita febre e suas hordas de devastação se apossando de mim. Doíam-me as articulações e meu corpo estava cada vez mais pesado. Estava carregando um fardo, uma tonelada de meus pecados desabando sobre mim mesmo. Mas eu vou em frente, eu tenho de sobreviver, não há nada que uma boa dose de conhaque não resolva. Meu rosto começou a se contorcer e se não tomasse medidas drásticas eu cairia em pranto convulsivo e sofrido e interminável e esse papo todo de literatura dramática! Mas chorar porque? DURÕES NÃO CHORAM. Durões carregam a sua cruz e dão risada na cara do diabo.

Tudo começou quando a Pandora me deu um bilhete para o espetáculo. Ela iria viajar com as amigas e me deu de presente um ingresso para que eu não me sentisse só. Grande coisa. Como se ir a um festival de rock fosse preencher minhas carências. A primeira impressão que me passou pela cabeça foi a de que ela estava me despachando. Seja o que fosse, fui para o tal festival, sem nenhuma intenção de entrar. Estava lotado e as pessoas se espalhavam pelos estacionamentos e calçadas e tudo quanto era canto do lado externo do estádio. No começo achei tudo meio estranho porque fazia muito tempo que eu não via tanta gente junta. E particularmente não gosto de aglomerados e então tudo aquilo parecia idiota. Mas eu estava com um ingresso e queria revendê-lo pelo dobro do preço. Estava ali de passagem para descolar um troco, porque o meu objetivo era beber até cair. O meu objetivo era bem específico: vender o ingresso pelo dobro do preço e ir para a adega, comprar 36 latas de cerveja, duas garrafas de S. Francisco, dois garrafões de sangue de boi e uns 10 pacotes de macarrão instantâneo e voltar para o apartamento da Pandora e me trancar lá e ficar bebendo direto durante uma semana, gritando lá de cima da janela do apartamento pros caras que passavam lá em baixo. Ia ser extraordinário.

Era final da tarde e o sol ainda a pino. 30 graus. Comprei uma cerveja e fiquei zanzando por lá, olhando as pessoas e fuçando os cambistas. Tinha muitos caras vendendo ingressos e a poucos metros de distância estavam estacionados dois camburões da Polícia Militar e os policiais não estavam nada preocupados com os cambistas. De vez em quando eles davam uma dura, mas o negócio deles era outro, que eu desconheço completamente. E aqueles hippies andarilhos vendendo artesanato. Colei num desses grupos e fiquei lá de papo com a turma. Fumamos um baseado e ficamos lá papeando. O Pedro morava em Curitiba. O Alejandro era Argentino e era meio bronco, ele não foi com a minha cara e então procurei não mexer com ele. Tinha também uma garota riponga que já havia morado numa comunidade do Santo Daime e o nome dela era Taís e ela bebia para caralho. O cara de Curitiba gostava de falar de política e estava munido de uma garrafa de Ypioca e nós ficamos lá bebendo no gargalo, papeando sobre política enquanto ele vendia seus baratos. Tinhas muitas mulheres interessantes parando para ver artesanato. Acho que vou aprender a fazer artesanato pros shows de rock.
- Política é como foder cu de gato - eu disse.
- O que é isso rapa, isso é alienação.
- Charles Bukowski.
- Hei, eu gosto desse cara aí.
Mandei vir na Ypioca. Estremeci. Puro 38 graus de álcool numa tarde de 30 graus. Assentei a garganta com a cerveja. Eu já estava vendo nitidamente as ondas de calor. E minhas têmporas a mil. Estava aceso.
- Sabe, lá perto da minha cidade tem fazenda produtiva pra caramba, fazenda que produz muito mesmo e a maioria da população vivendo na miséria. E não estou falando de especulação fundiária, estou falando de fazendas que geram renda. Ora, para onde vai a tal renda? Nas cidadezinhas próximas não tem movimento de dinheiro nenhum e tudo é controlado por três famílias. - Pedro deu-lhe no gargalo. Glug, glug e me passou a garrafa. Eu passei para a garota, Taís, meio acabada, mas dava pro gasto. Do argentino queria distância.
- E essas três famílias, são tudo Prefeito, deputado, o caralho - Pedro continuou. - São uns filhos da puta esses políticos brasileiros.
Eu já estava vendo estrelas, ou quase isso. Estávamos sentados na beira da calçada, de costas para o estádio do outro lado da avenida, os artigos no chão. Em frente havia uma lanchonete da McDonald’s tamanho família, com estacionamento, parquinho e tudo. A uns 200 metros à nossa esquerda estava estacionada uma parati da Polícia Militar. E os policias pousando de durões dentro do carro e nós fumando um baseado e tomando Ypioca e conversando de política. Conversando de foder cu de gato.
- É - eu disse - os políticos são uma merda mesmo!...
- É, mas nem todos - disse Taís - Hoje o Senador Suplicy foi visitar os presos políticos.
- Que presos políticos?
- Os caras que seqüestraram Abílio Diniz...
- Ah, é - concordou Pedro. - Eles estão fazendo greve de fome.

Eu estava me sentindo mal. Tinha comido um sanduíche de presunto e queijo e café naquele dia. E era tudo. O que já era muito. E o álcool já estava me derrubando. Kambene vendo estrelas e conversando de foder cu de gato. Precisava fazer alguma coisa. “Dá um tempo aí” eu disse, e fui para a banca de jornal que se a encontrava a alguns passos do nosso ponto e comprei um maço de cigarros e uma barra de chocolate. Fiquei lá comendo a barra de chocolate e levei três cervejas. Voltei. Uma cerveja para Pedro e outra para Taís. Nem olhei pro argentino. E Pedro:
- Eu sou a favor da luta armada.
- Você pegaria mesmo em armas? - perguntou Taís.
- Eu pegaria com vontade - disse Pedro.
- Tou sabendo... - Taís duvidava.
- Mas veja bem, no Brasil não há chance de uma Revolução armada - disse Pedro - Se não houve durante o auge da guerra fria, não será hoje em que todos esses caras são uns bundas moles.
- Incluindo os caras da esquerda radical. - disse Tais.
- Não existe esquerda radical no Brasil - Pedro o sabe-tudo sobre foder cu de gato.
Eu já não estava ouvindo nitidamente. E aquele papo não contribuía. Só ouvia um zuuuuummmm e minha orelhas estavam fervendo a 130 graus centígrados. 38 graus de álcool em uma tarde de 30 graus esquentando orelhas a 130 graus. Grande programa esse que você inventou Kambene. Olhe para você meu chapa. Porque você não se enfia num bueiro? - Ah que merda, eu disse.
- Que foi cara, ta passando mal aí?
- Tou falando dessas merdas dos políticos...
- É, parceiro - disse Pedro. - Esse Brasilzão ta foda.
- Foda - eu disse.
- E o governo botando polícia para matar trabalhador sem terra...
- Merda.
- Defender a tal propriedade privada - Pedro deu um gole da cerveja e em seguida glug glug na Ypioca pelo gargalo - Sabe, no mês passado eles...
- Que merda - eu disse. Já não estava ouvindo nada. ZUUUUUUUUUMMMMMMMMM
- Bla, bla, bla - falavam em volta de mim.
- Bosta...
- Flap, flap, flap... - eles falavam.
- É uma grande merda mesmo - eu dizia
- Bla, bla, bla...

Era como se estivesse procurando pela freqüência certa no rádio. Tudo me chegava em falhas, um rádio velho encostado ao ouvido e falhando a toda a hora. Meus tínpanos começaram a doer. Olhava para a chão e sentia ele vindo de encontro a mim. E ah, merda, eu estava sentado e se levantasse seria pior. Mas eu não podia pura e simplesmente começar a arfar ali naquele lugar. Não ali naquele lugar, naquele momento. Eu estava precisando deitar, dar um tempo, respirar. Precisava de ar, minha pressão baixando e a porra da minha casa ficava do outro lado da cidade. NA CASA DELA! Tinha muito caminho pela frente. Era o fim da linha e eu na pior. Dá um tempo, garoto.

Email do autor: kambene@hotmail.com

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