Fellipe Cosme

Música à vida

Eu me esputo, senhor, acuado! Sê meu amigo!
Não podes impedir-me, curar-me, matar-me!
Senhor! Come minhas tripas! Suga minhas víboras!
Ofusca minha visão, consome meu vírus virtuoso!
Assim todos os meus detritos!
Ventos nas trevas, meu senhor!
E a minha vida pura se inicia!

O abismo gigantesco que abre meu buraco.
Fossa suja do diabo!
Sou um fraco destemido, exausto. Moer-me
num chão de velhas e pedras e todas podres.
Rogando e emudecendo as vozes da alma,
um som vazio do meu espelho interno.
Toca minhas coxas!
Tapa minhas bocas e olhos!
Cala-te afinal, meu deus infernal! Tira tuas sombras!

Ah! Assim do início ao final o mau entre os dedos, unhas, farpas.
Canto o medo, o desgastar, escancho minhas peles, meu mar alusivo.
Escarcho os prédios entortados com água congelada.
Cerro-me ao encontrá-los deitados comigo.
Ó! Fossa do buraco!
Ó! Meu mais fácil, meu diabo!

Cala-te meu afeto, resto que calo num ovário!
Meus pesos no entalho, num quadro esculpido.
Esta chuva branda e de pedaços de nós, cabeças infestadas
e moinhos degradados, encostados em meus nervos
no meu vento falso.

Ó! Dia da minha vida!
Nada cato nas veias deles, só nas minhas.
Verdes veias estancadas e atadas, fé!
Ao meu colo, desce a flor do céu.
A coroa antes escondida do Sol escaldante.
Moribundo e espesso nessa gordura incalculável.
Ó! Meus sonhos! Consumam-me!

Ao feto que brotou de minhas mãos
no lugar do buraco das perfurações
no lugar do furor das portas.
Ó! Feto oculto na minha barriga!
Furar-te-ei até que atinjamos juntos o fim desta longa estrada!
E atinjamos as fezes de nossa caminhada!

Cala-te, cala-te, cala-te, meu riso!
Prantos incessantes e eu rio deste mundo.
De meu futuro, senhor!
Enxergo-me no ar desta caçada.
Profundas são minhas criaturas internas.
Agora exteriorizadas e excomungadas.

Ah! Diabo de costas!
Queimar-me-ei mas irás
junto com todos os meus anéis de pedra
pois tuas flores não mais me aceitam.
Queimar-te-ei junto com teu rosto,
o rosto deste mundo,
o rosto de um reflexo!

Fellipe Cosme de Oliveira tem 17 anos e mora em Florianópolis. Email:

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