| Emiliano Ratto Silva |
Alguém estava enrabando o xerife e acho que era o reverendoParte 2 Um
dia as garotas - Carla, Tina e Magali - chegaram para o sarau acompanhadas
de um casal. Era contra as regras trazer gente nova para o sarau, a
não ser que se tratasse de grandes poetas. Mas o mundo está cheio de
grandes-poetas-imortais-não-publicados. Carla fez as apresentações: Hugo era da espécie dos pleibas bonitinhos e bem arrumados, do tipo que se perfuma e usa uma bombinha de anti-séptico bucal. Olhos muitos azuis, boca feminina, usava um casaco de couro marrom e uma exarpe de seda verde em torno do pescoço branco. Cabelos louros e encaracolados cobriam a sua cabecinha de anjo. Sílvia era uns dez centímetros mais alta que ele, media um e setenta e cinco, um pouco menos talvez, porque era difícil olhar de uma só vez para toda a extensão do seu corpo. Você era obrigado a se concentrar nas coxas grossas e bem torneadas, nas ancas largas, na bunda saliente e rígida, e tórax e braços, e peitos robustos e morenos, na mesma tonalidade do resto do corpo, com bicos do tipo “mama-nenem” irradiando ondas de tesão num raio de muitos quilômetros. Você não conseguiria desgrudar os olhos de tudo isso, mas nunca conseguiria encarar duas vezes aquele rosto. Era um rosto carregado de todos os anos da eternidade; flácido, repelente, escorrendo e ameaçando desprender-se a qualquer instante dos ossos da cara. Era como escavar o túmulo da sua avó e dar uma encarada na velha um ano depois de a terem jogado lá dentro. O conjunto, corpo e rosto, era trágico, trágico pra caralho. Eu vi aquele corpo em ação naquela noite. Vi todo mundo ignorar o rosto e concentrar-se no resto. Eu tinha me apoderado de uma garrafa de vodka e fiquei ali bebendo no gargalo, sentado num sofá grande o suficiente para que duas das garotas ficassem ali se chupando e enfiando uma na outra os objetos mais estranhos. Ali, bem do meu lado. O que ainda posso lembrar daquela noite é do Adolfo, com o seu capacete do exército alemão na cabeça, se masturbando com o seu inseparável taco de beisebol. E o que eu quero dizer com isso é que ELE REALMENTE TINHA ENFIADO AQUELE TROÇO NO RABO. Lembro
do Mosca enrabando o anjinho Hugo em cima da mesa no centro da sala
e gritando um poema do Ginsberg que ele sabia de cor porque ele sempre
recitava o mesmo poema do Ginsberg toda vez que estava enrabando outro
cara. Ele dava duas ou três estocadas no anjinho Hugo e gritava um verso
do poema. A
vodka já esquentava as minhas orelhas e logo faria ferver o meu cérebro.
Havia umas quinze pessoas divididas em grupos de dois, três, quatro...
trepando como bestas humanas em diferentes cantos da sala. E havia um
rodízio entre eles, de modo que a composição dos grupos estava sempre
variando. Só o Mosca e o Hugo permaneciam isolados no centro da sala.
O Mosca segurando o Hugo pelos quadris e metendo no rabo dele com violência
e ritmo. Três estocadas, um verso. Eram
as cenas de um espetáculo de horror girando como um carrossel na minha
mente. Havia
uma floresta em chamas no meu estômago que lançava labaredas de fogo
pela minha boca cada vez que eu empinava a garrafa e mandava mais um
trago de vodka goela a dentro. Eu
via o inferno, acho que era o inferno, só podia ser o inferno, com bosta
fumegante por todos os lados. Tomei
mais um trago pelos russos. Senti
alguma coisa estrebuchar dentro do meu estômago. Dobrei o corpo para
frente, enfiei a cabeça entre os joelhos e o vômito quente jorrou entre
os meus pés. Antes de apagar completamente, talvez eu tenha tido forças para dizer: “Em algum lugar deste lado da América, deve haver um pouco de amor para mim...” --“América...” Email do autor: ratto@subcultura.net |