| Emiliano Ratto Silva |
Alguém estava enrabando o xerife e acho que era o reverendoParte 1 Os saraus na casa do Tommy eram sempre a mesma coisa: bebida, fumo e pó da pior qualidade. E trepação, à certa altura começava a trepação. Todo mundo ali se achava um grande poeta beat. As drogas e a fodelança eram parte do negócio de imitar os poetas beat. Hávia duas ou três garotas que só estavam ali por causa do pó. A coisa fucionava assim: elas entravam com as bucetas e alguém entrava com o pó. E aquelas bucetas davam um duro danado, por causa do pó. Mas no fundo elas gostavam. Eu me concentrava na bebida e no fumo, que não eram grande coisa, mas eram melhores que o pó --ninguém nunca sabe o que está misturado ao pó; pode ser trigo, pó de arroz, vidro triturado... As bucetas também não eram grande coisa. No começo elas me excitavam um pouco, mas isso era quando eu ainda não tinha visto as mesmas cenas se repetindo tantas vezes. A chupação, as bucetas e os cus sendo profanados por ídolos fálicos de todos os tamanhos, num tumulto de línguas e membros e bocas e orifícios vorazes se procurando avidamente. Assim, quando os grandes poetas decidiram que não iriam se ater as regras básicas que o papai e a mamãe haviam ensinado, eu renunciei às minhas pretenções poéticas. E então eu só ficava ali sentado com um copo de pinga misturada com suco de groselha na mão e uma expressão de tédio no rosto, esperando que alguém tivesse um instante de lucidês e apresentasse um baseado. Sorte minha que os grandes poetas ali eram todos muito lúcidos. Lembro
do dia em que Vítor enfiou o pau numa garrafa vazia de gatorade. Só
eu percebi quando ele se afastou do centro da orgia, foi até um canto
da sala e ficou ali mexendo no que devia ser o seu pau. Sem se virar,
ele começou a lançar olhares por cima do ombro na direção do pessoal
que continuava mandando ver no centro da sala. Cada vez que ele olhava
acentuava-se uma expressão de desespero no seu rosto cada vez mais e
mais vermelho. Depois de um tempo ele se virou e eu pude ver o tubo
de gatorade recobrindo o pau. Demorou
uns dez minutos até que todos se acalmassem. Aí foi se formando uma
reunião em torno do Vítor. De vez enquando, alguem começava a rir de
novo e caía aos pés do Vítor, rindo com estardalhaço e segurando o estômago.
O resto acompanhava. Carla
se ofereceu para fazer sucção nos testículos. Houve uma conferência num canto da sala. No canto oposto, Vítor, incapaz de qualquer iniciativa ou de se opor a alguém, esperava sentado numa cadeira, os olhos emitindo um desolação comovente, a superfície rombuda da garrafa se projetando entre as suas pernas. Sentado no sofá, eu acompanhava tudo calmamente e continuava tomando a minha pinga com groselha. Eu não ousava dar palpite quando o assunto era o pau de um outro cara. Já tinha trabalho suficiente tentando manter o meu a salvo. Finalmente,
todos se voltaram de novo para o Vítor. Tinham decidido que aquela seria
a última tentativa. Se falhasse, o Vítor ia ganhar fama de bem-dotado,
com uma garrafa de gatorade dentro das calças. Puseram o Vítor de pé.
Reuniram-se ao redor. Ah,
sim! Não podemos esquecer do Vítor com o pau entubado sobre as chamas
dos isqueiros. Aquilo também não deu certo. Ou a lei da dilatação dos
corpos está errada ou o pau do Vítor também dilatou junto com a garrafa,
porque quando começou a esquentar ele soltou um berro pavoroso, terrificante,
que deixou todo mundo assustado. Em seguida começou a chorar como um
bebê e a gritar: O que interrompeu os gritos do Vítor foi o som da porrada e do vidro se espatifando em mil pedaços. Foi o Adolfo que desferiu o golpe com o taco de beisebol e pôs fim à agonia do Vítor. Ele quase sorriu quando viu o pau livre, apenas com um anel de vidro com dentes afiados enfeitando a base do caralho. Vítor fez todo mundo prometer que ninguém mais ia ficar sabendo do que tinha rolado no sarau naquela noite e nunca mais apareceu. Pena, porque todo mundo ficou doido para saber se ele ainda carrega aquele anel de vidro em torno do pau. Email do autor: ratto@subcultura.net |