| Edison Luís dos Santos |
A sifilização brasileira: 500 anos depois
Sob a égide do Concílio de Trento - os jesuítas
preocupados com a dilatação da fé - defrontaram-se
com realidades culturais totalmente estranhas e movidos pelo etnocentrismo,
condicionavam as línguas indígenas ao único padrão
referencial por eles conhecido e que gozava do prestígio de certa
sacralidade por ser a língua oficial da igreja. Tudo em nome
da preservação dos costumes católicos tradicionais
e os princípios da moralidade cristã.
O primeiro testemunho lingüístico deste novo protagonista da empresa mercantil recém-chegada de além-mar - o colonizador - foi-nos oferecido pela Carta de Caminha. Aqui é o invasor quem nos fala de seus feitos, façanhas e empreitadas por meio de sua própria língua, e de acordo com seus costumes, bem como valores ideologicamente bem sedimentados, conforme rezava a cartilha do cristianismo, ratificada pelos interesses bárbaros dos tribunais do Santo Ofício e da Inquisição. Para entendermos como se processou a inculcação deste ponto de vista dominante e dominador, Marilena Chauí fornece uma pista esclarecedora:
O fato é que a boa e santa vontade divina não resiste à confirmação de que havia desde o princípio - revestida sob a idéia de um paraíso terrestre a ser salvo e preservado pelos cristãos - a clara intenção de mercantilizar (explorar os bens materiais e riquezas da terra onde correm o leite e o mel abundantemente) e submeter os povos nativos, tornando-os agora cativos, fonte de lucro e satisfação das benesses do além-atlântico. Se alguma geração há no mundo por quem Cristo Nosso Senhor isto diga, deve ser esta os índios, porque vemos que são cães em se comerem e se matarem, e são porcos nos vícios e na maneira de se tratarem. (Nóbrega, Diálogo sobre a conversão dos gentios) Conforme o demonstra Chauí, o mito fundador é uma solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos na realidade e desta forma ilustra-nos a maneira e solução encontradas pelos invasores para caracterizar e estabelecer a identidade do povo brasileiro, até então aproximada do bom selvagem pois o primeiro elemento da construção mítica o lança e o conserva no reino da Natureza, deixando-o FORA do mundo da História. Todo este modo de conceber e explicar a realidade brasílica, por meio de uma visão mítica do mundo e a partir de um viés exageradamente etnocêntrico, mostrou-se devastador, pernicioso e cruel aos habitantes ora de fato. Sem história, alijados da escrita e mantidos sob o controle lingüístico e cultural dos invasores, não podiam ser vistos como seres humanos, nem tão pouco providos de alma. Só lhes interessavam seus corpos sublimes e belos, prontos a saciarem os apetites libidinosos, pois segundo os mesmos conquistadores-degredados: viviam os nossos índios como vadios, inutilmente e sem prestança, sem produzir nada. Não lavram, nem criam. Não tardou, é claro, a que se revelassem as suas mais íntimas intenções: os degredados que aqui chegaram, na verdade, estavam famintos de SEXO e sedentos de OURO, porque bem assim o desejavam:
Quanto à impressão que lhes suscitaram as mulheres nativas, já deixavam entrever em doses psicanalítico-freudianas os seus mais secretos pudores e desejos enrustidos:
Movidos pela paixão hormonal e a ambição desmesurada, sem limites, os degredados e desafortunados de além-mar NUNCA estiveram realmente interessados EM SALVAR ESTA GENTE. Trouxeram, isto sim, a bordo de suas naus e bagagens, e sob suas vestimentas infectas, uma das mais cruéis e devastadoras epidemias - a SíFiLiS - dizimando milhões de aborígenes. Tudo em nome do prazer, do preconceito e visão de mundo estigmatizada pelos valores divinamente consagrados. A população indene e debilitada não resistiu a este golpe da mal-fadada história dos invasores. Passados cinco séculos, depois do colapso e o genocídio desta letal doença, a civilização ocidental ainda não aprendeu a conviver com o problema, e entre nós, impera livre e impunemente o preconceito, continuamos a discriminar negros, índios, homossexuais, pobres e excluídos - todos vítimas da desinformação e falta de acesso à educação com dignidade e cidadania. Os efeitos perversos da globalização já se fazem presentes e tendem a excluir ainda mais os já excluídos. É hora de pensar e agir. Não é prudente adiar sempre o problema, antes que seja tarde demais. Do contrário, não só depois do Carnaval, mas todo santo dia será Quarta-feira de Cinzas. . Edison
Luís dos Santos, é revisor e ensaísta e estuda
Linguística na USP. |