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E
lá estão eles novamente. O sino é o mesmo: belin,
blein, blein! O padreco gordinho, baixinho, careca e com outras características
assim, corre de lá para cá e de cá para lá,
como se o caralho estivesse duro por debaixo da batina. As freiras levam
bolos e outras guloseimas que daqui não consigo e não
quero enxergar. E mesmo que enxergasse que diferença faria? Fico
na minha, só observando com os dedões dos pés feridos
pelas malditas sandálias dadas por minha tia distante, que já
me deu de tudo, inclusive o rabo.
Lá pelo meio dia, com o tempo fechando e alguns cabruns pelo
céu, Ela aparece: seu hábito não consegue esconder
sua bunda arrebitada e os saborosos seios redondos. Não anda,
desliza como se tudo alí fosse uma brincadeira menor, um passatempo
que Deus em sua máxima sabedoria tivesse preparado só
para ela. Até o enorme e esquisito cristo de madeira na porta
principal parece esquecer seus espinhos e pregos e fica feliz, como
se estivesse vestindo sua calça jeans mais nova. É incrível,
mas todos passam a se movimentar em função dela. Até
os cachorros, com seus pelos abençoados, fazem um auau meio bicha,
diferente mesmo. E o padreco então, nem se fala: fica o tempo
todo sentado, com o rostinho rosado como um desenho num rótulo
de vinho barato.
Eu ainda tô na
minha, longe, notando sem ser notado. Me sinto uma espécie de senhor
das coisas: afinal estou no cimo do morro sozinho. Faço ares de
senhor digno, ignorando as malditas sandálias e esperando o momento
da minha redenção, o momento da minha emancipação
religiosa. O momento de descer e ser com todos o que todos não
são comigo: "Tudo bem?", "Como foi lá? Beleza?
Otimo! Deus te abençoe.", "Já nasceu? Vai ser
iluminado. Nasceu sob um bom signo. Té mais!". É isso,
vou continuar esperando até que ela abra o pote de geléia
de amoras. Ah, geléia de amoras!
"...Santo. Amém!". Acabou as orações. Agora
é um vai e vem de pratos e condimentos e um tal de me passa isso
e me passa aquilo que dá um certo tédio. Terminou e lá
vai o padre gordão, enorme, que ninguém, inclusive eu, dá
atenção. O que importa é o que ele traz: geléia
de amoras. O pote enorme é aberto e o conteúdo servido em
tacinhas santas e Ela enche sua colherinha e põe a ponta de sua
língua para fora e tudo para: os sinos fazem um blein blein inaudível,
o céu parece despejar relâmpagos por todo o mundo, os cães
rodopiam, os padres e as madres paralizam com sua colherinhas no meio
do caminho, eu fico tonto e não sei mais onde está o meu
pau. Ah, geléia de amoras!
Lá vão eles e entram em fila indiana e estão quietinhos
e santos. O último é o padreco, com sérias dificuldades
com sua batina. O portão se fecha pesadamente balançando
o enorme e esquisito cristo de madeira que fica com ar de idiota olhando
o pátio vazio. Uma chuvinha fina começa a cair e eu fico
realmente deprimido. Não sei o motivo exato. Serão minhas
sandálias? Meu ar excelso vai pro ralo. Juro que eu gostaria, agora,
de ouvir aquela música que diz que um homem não deve chorar
por uma mulher.
Email da
autora:foxv@usa.net
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