Artur Rodrigues

Primavera

Suor em nossas tardes de verão.
O sol quente escorrendo rios em nossos cachos de uva Itália.
A carne morna, sóbria e dilacerada de concorridas e venéreas doenças.
O corpo ardente, ardente, seu, meu, nosso corpo calando a natureza com seu próprios argumentos.
|A sede que esnoba o canto dos passarinhos, seus gemidos, os cantos do mundo.
A copa das árvores serve de desculpa para não nos vejam.
E o sangue que corre feito seiva em nosso sexo.
A morte é linda, e fugaz diante do gozo eterno.
A campainha toca nos sentimentos mais profundos, que pena que é só isso.
Só agora e depois.
Somente enquanto estamos de olhos fechados.
Cansamos de mortes sem estupro.
Cansamos de estupro sem tesão.
Os açougues estão cheios de corpos, os nossos.
Sentimos a faca gelada levando nossas peles como se fosse poeira.
O sebo na alma da gente só serve para conservar a pelada no fim de semana.
Dois ovos fritos são a dor do desassossego.
E o leite gelado corre pelas ruas atrás de seu destino.
Como saberemos que estamos certos?
A prudência mata qualquer esperança de amanhã justamente porque o apressa.
As premissas da nossa cerimônia são não fazer cerimônia alguma.
Cantamos todos juntos na mata devastada pela verdura dos campos.
Os bois estão aqui.
Estamos nessa montanha de merda juntos, e as moscas não param de zumbir na nossa cabeça.
O que eu esperávamos também?
Serpentes nas suas rendas, nos estábulos, nas redes.
E toda essa tecnologia broxante, essas cinta-ligas, esse lingerie azedo.
Tira essa música de merda
O disco está rolando e estamos em sua volta cantando baixo e unissono
Corram todos, é um estouro da boiada, seremos todos esmagados por nossos próprios pudores!

Email do autor: cheultraman@yahoo.com.br

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